Sheol, Hades e Arallu: as concepções antigas do mundo dos mortos

Sheol, Hades e Arallu: as concepções antigas do mundo dos mortos
As concepções do mundo dos mortos nas antigas culturas do Oriente Próximo e do Mediterrâneo apresentam uma característica que as distingue das formulações posteriores de céu e inferno como lugares destinados a recompensar ou punir os indivíduos de acordo com sua conduta moral. O Sheol hebraico, o Hades grego e o mundo dos mortos mesopotâmico, designado como Arallu, pertencem a tradições distintas, mas compartilham uma concepção básica segundo a qual a morte conduz o ser humano a uma existência subterrânea, sombria e enfraquecida, na qual a vitalidade própria da vida terrestre é perdida. Nessa perspectiva, o destino dos mortos não é apresentado como uma continuidade da vida em outra esfera de plenitude, mas como uma condição de existência reduzida, marcada pelo silêncio, pela escuridão, pela distância do mundo dos vivos e pela perda das capacidades que caracterizavam a existência humana.
Apesar das diferenças culturais e religiosas, existe entre essas concepções uma série de elementos recorrentes. O primeiro diz respeito à própria localização do mundo dos mortos. Sheol, Hades e o submundo mesopotâmico são associados à profundidade da terra, à escuridão, à poeira e à sepultura. O morto desce, enquanto o mundo dos vivos permanece acima. Essa oposição espacial entre superfície e profundidade expressa também uma diferença existencial: a vida pertence ao espaço da luz, do movimento, da respiração e da atividade, enquanto a morte está relacionada ao silêncio, à imobilidade e à perda da vitalidade. A linguagem utilizada para descrever esses lugares não deve, entretanto, ser entendida necessariamente como uma geografia física no sentido moderno. Trata-se de uma representação simbólica do destino dos mortos, construída a partir da experiência humana da sepultura e da decomposição do corpo.
Outro elemento recorrente é o caráter pouco dependente da condição moral do indivíduo. Nas concepções mais antigas, a morte tende a funcionar como destino universal. Reis e súditos, ricos e pobres, guerreiros e camponeses, pessoas consideradas justas e pessoas consideradas perversas encontram-se, de uma maneira ou de outra, diante da mesma realidade fundamental: todos descem ao domínio dos mortos. Isso é particularmente evidente na concepção hebraica do Sheol, que aparece como destino comum dos mortos, sem que exista uma separação sistemática entre um lugar de recompensa para os justos e outro de punição para os ímpios.
No pensamento mesopotâmico também encontramos uma concepção marcada pela universalidade da morte. O submundo é representado como um domínio do qual ninguém retorna e no qual os mortos vivem em uma condição inferior àquela que possuíam quando estavam entre os vivos. Os textos mesopotâmicos empregam diferentes termos e imagens para designar os mortos e seu destino, entre eles os etemmu ou edimmu, espíritos dos mortos que continuam existindo após a morte. A condição desses seres, entretanto, não corresponde à ideia posterior de uma alma imortal vivendo em plena consciência e autonomia. A existência após a morte é enfraquecida e depende da relação ritual entre os mortos e seus descendentes.
Essa relação entre vivos e mortos constitui uma das diferenças importantes entre a tradição mesopotâmica e a concepção hebraica do Sheol. Na Mesopotâmia, os ritos funerários e as oferendas aos mortos, especialmente o kispu, desempenhavam papel relevante na manutenção da relação entre as gerações. A oferta de alimentos e bebidas fazia parte de práticas destinadas a assegurar condições adequadas aos mortos e preservar a memória e a continuidade familiar. A ausência dessas práticas poderia ser concebida como uma situação de abandono capaz de afetar negativamente o espírito do morto. Não se trata, portanto, simplesmente da ideia de que a alma "precisava de comida para sobreviver", mas de uma concepção na qual a condição dos mortos estava vinculada às obrigações rituais dos vivos e à continuidade das relações familiares.
No mundo grego, o Hades apresenta características semelhantes, mas desenvolve uma mitologia mais elaborada. Hades é simultaneamente o nome atribuído ao deus que governa o mundo dos mortos e ao próprio domínio subterrâneo. Nesse universo, aparecem divindades e personagens relacionados à administração e à passagem para o além, especialmente Hades e Perséfone, enquanto diferentes tradições posteriores acrescentaram figuras como Caronte, o barqueiro responsável pela travessia dos mortos, e os rios do submundo, entre eles o Estige e o Aqueronte. A presença desses elementos demonstra que o pensamento grego desenvolveu uma verdadeira cartografia mítica da morte, transformando o submundo em um espaço narrativamente estruturado.
Essa elaboração, entretanto, não significa que o Hades grego tenha sido desde o início concebido como um sistema moral semelhante ao céu e ao inferno das tradições posteriores. A religião e a literatura gregas apresentam concepções variadas sobre o destino dos mortos, que foram sendo modificadas ao longo do tempo. Em algumas tradições, os mortos permanecem como sombras, enquanto determinadas correntes e períodos desenvolveram a ideia de destinos diferenciados. O Tártaro aparece como lugar de punição para determinados transgressores, enquanto os Campos Elísios ou a Ilha dos Bem-Aventurados passam a representar, em certas tradições, um destino privilegiado. Também surgem figuras como Minos, Radamanto e Éaco, associados ao julgamento dos mortos. Dessa maneira, o universo grego apresenta uma progressiva diversificação das possibilidades do pós-morte, embora não se deva projetar sobre toda a religião grega um sistema único e uniforme de julgamento individual.
O Sheol hebraico possui uma trajetória própria. Nas camadas mais antigas da tradição bíblica, ele aparece como o domínio ou condição dos mortos, caracterizado pela ausência de atividade, pelo silêncio e pela distância da vida. Os mortos são associados às Rephaim, termo que pode designar os mortos ou sombras dos mortos em determinados contextos. O Sheol não corresponde, portanto, exatamente ao inferno cristão posterior. Ele não é originalmente um lugar destinado aos pecadores nem funciona como espaço de punição moral. A morte conduz ao Sheol independentemente da posição social do indivíduo ou de sua reputação, embora a literatura bíblica também contenha diferentes perspectivas sobre a relação entre vida, morte, justiça e destino.
Uma característica importante do pensamento hebraico é que o Sheol permanece subordinado ao poder de YHWH. O mundo dos mortos não constitui um reino independente que rivalize com a divindade de Israel. Essa ideia aparece em textos que afirmam que nem mesmo o Sheol está fora do alcance de YHWH. No Salmo 139, por exemplo, a linguagem poética afirma que, mesmo que alguém desça ao Sheol, a presença divina continua alcançando-o. A morte, portanto, não representa uma região governada por uma divindade adversária de YHWH. Essa característica diferencia o Sheol das concepções mesopotâmicas e gregas, nas quais o submundo possui divindades próprias e uma mitologia específica de governo.
Também é necessário distinguir o Sheol das concepções posteriores de ressurreição e julgamento. Ao longo da história da religião israelita e judaica, nos períodos posteriores, desenvolveram-se novas expectativas relacionadas ao destino dos mortos, ao julgamento divino e à restauração da vida. Em textos tardios, especialmente no ambiente apocalíptico do período do Segundo Templo, aparecem concepções mais elaboradas de separação entre justos e ímpios, ressurreição e recompensa ou punição futuras. Essa transformação foi fundamental para a formação das concepções posteriores encontradas no judaísmo, no cristianismo e, posteriormente, no islamismo.
As diferenças tornam-se ainda mais evidentes quando observamos a relação entre morte, ritual e memória. No universo mesopotâmico, a manutenção dos vínculos entre vivos e mortos possuía importante dimensão ritual, e as oferendas funerárias contribuíam para preservar a condição dos mortos. No mundo grego, os ritos funerários eram igualmente fundamentais, inclusive porque a correta realização do funeral e da sepultura estava relacionada à passagem do morto para o mundo subterrâneo. A tradição de Caronte e da moeda colocada junto ao morto tornou-se uma das representações mais conhecidas desse imaginário, embora as práticas funerárias gregas variassem conforme época, região e contexto social. No judaísmo bíblico, a relação ritual com os mortos desenvolveu-se dentro de uma estrutura religiosa que rejeitava a necromancia e determinadas formas de consulta aos mortos. A legislação bíblica procura impedir práticas que colocassem os vivos em contato ritual com os mortos, ainda que a existência de proibições demonstre justamente que tais práticas eram conhecidas ou praticadas em determinados contextos.
As narrativas mitológicas também revelam diferenças importantes. A tradição mesopotâmica produziu relatos nos quais divindades descem ao mundo dos mortos, como ocorre no poema conhecido como A Descida de Inanna ao Mundo Inferior, posteriormente associado também a tradições sobre Ishtar. A descida da divindade pelas portas do submundo permite explorar temas como morte, poder, perda, retorno e transformação. Na tradição grega, histórias envolvendo Orfeu, Perséfone, Héracles e outros personagens também transformam o mundo dos mortos em cenário para narrativas de descida, retorno, punição ou recompensa. O submundo torna-se, assim, não apenas um destino dos mortos, mas também um espaço mitológico no qual se dramatizam questões fundamentais da existência humana.
A história dessas concepções não deve ser compreendida como uma simples passagem linear do "submundo" para o "céu e inferno". O que ocorre é uma longa transformação da maneira como diferentes sociedades interpretaram a morte, a identidade do indivíduo e a possibilidade de existência depois dela. A princípio, a morte aparece sobretudo como destino universal e como redução da vitalidade; posteriormente, algumas tradições começam a introduzir distinções entre os mortos, julgamentos individuais, recompensas e punições, até chegar às concepções escatológicas mais elaboradas de ressurreição e vida futura.