O inferno nas culturas antigas

Obra: Eneias e a Sibila no mundo subterrâneo, artista Jan Brueghel, o Jovem, década de 1630, Metropolitan Museum of Art, New York
O inferno nas culturas antigas
Estamos acostumados a abordar o inferno no contexto judaico-cristão, porém vários povos pensaram o pós-vida muito antes. Para a maioria dos povos antigos, o inferno se situava no subterrâneo, provavelmente influenciado pela cultura do sepultamento dos mortos. Há cinquenta mil anos já se enterravam os mortos com um propósito simbólico, como provam os achados arqueológicos em tumbas, onde objetos valiosos eram depositados junto aos falecidos.
O percurso da barca solar egípcia é um dos mitos centrais da religião do Egito antigo e integra o imaginário egípcio de uma segunda vida, representando a passagem diária do sol pelo céu e pelo mundo subterrâneo. Ao amanhecer, o deus Rá nasce no horizonte oriental sob a forma de Khepri, o escaravelho que simboliza a renovação; nesse momento, a barca solar surge das águas primordiais e inicia sua viagem pelo firmamento, trazendo luz, calor e vida a toda a criação. Durante o dia, Rá percorre os céus a bordo da barca Mandjet, acompanhado por divindades que o assistem e protegem, como Sia, que representa a percepção, Hu, a palavra de autoridade, Heka, o poder mágico, e muitas vezes também Maat, a personificação da ordem cósmica. Essa travessia garante a manutenção da vida, o equilíbrio do mundo e o curso natural das estações e da fertilidade do rio Nilo. À medida que a tarde avança, o sol se transforma em Atum, o deus envelhecido que representa o poente. Ao mergulhar no horizonte ocidental, Rá entra no Duat, o mundo subterrâneo, e inicia sua viagem noturna na barca Mesektet. Essa travessia é perigosa e cheia de desafios, pois o deus precisa passar por doze regiões que correspondem às doze horas da noite, enfrentando obstáculos e encontrando deuses e espíritos que o auxiliam em sua missão. O maior inimigo é Apófis, a serpente do caos, que tenta deter a barca, engolindo-a ou cercando-a em escuridão. A luta contra Apófis se repete a cada noite, com divindades protetoras, inclusive Seth em algumas versões, ajudando Rá a vencer a serpente e garantir a continuidade do ciclo. Ao término da jornada noturna, Rá derrota Apófis e atravessa a última porta do Duat; no horizonte leste, ele renasce novamente como Khepri, o sol nascente, renovado e cheio de vigor. Assim, o ciclo recomeça e a ordem cósmica é reafirmada, mostrando que a vitória da luz sobre as trevas, da ordem sobre o caos, é sempre provisória e sempre necessária. Para os faraós e para os mortos em geral, participar desse percurso significava a esperança de atravessar a escuridão do além e renascer para a eternidade – uma segunda vida –, navegando ao lado de Rá na barca solar.
Na Teogonia, o poeta grego Hesíodo (750-650 a.C.) fala da distância que separa o céu, a terra e o Tártaro, usando como imagem uma bigorna de bronze em queda. No texto, Hesíodo afirma que, se uma bigorna de bronze fosse arremessada do céu, ela cairia durante nove dias e nove noites, e somente no décimo dia chegaria à terra; do mesmo modo, se fosse lançada da terra, levaria também nove dias e nove noites para atingir o Tártaro, alcançando-o apenas no décimo dia. Essa passagem serve para expressar a imensidão e a profundidade dos domínios cósmicos. O céu dos deuses, a terra dos mortais e o Tártaro, prisão dos Titãs e lugar das potências monstruosas, são concebidos como separados por distâncias quase inconcebíveis.
Uma outra ideia em muitas culturas antigas sobre o mundo dos mortos era a continuidade da existência: as pessoas morriam, mas continuavam vivendo com quem conviviam. Para garantir a vitalidade do morto no mundo sombrio, eram feitas oferendas aos deuses do submundo, como alimentos. O submundo era um destino comum e ambíguo, para lá iam os bons e os maus, os justos e os injustos.
Também, na Odisseia, o autor Homero (século VIII a.C.) apresenta duas faces muito diferentes do destino das almas: o Tártaro e os Campos Elíseos. O Tártaro é concebido como a região mais profunda do cosmos, situado abaixo do Hades, tão distante da terra quanto o céu está acima dela; é um lugar de trevas eternas, prisão dos Titãs e espaço de tormento para os que desafiaram os deuses ou cometeram crimes terríveis, representando o lado sombrio do além, reservado aos que ofenderam a ordem divina. Em contraste, Homero descreve também os Campos Elíseos, um espaço paradisíaco localizado nos confins do mundo, para além do Oceano, governado por Radamanto, onde são levados alguns heróis privilegiados, amados pelos deuses. Os Campos Elíseos não conhecem inverno, tempestade ou sofrimento; neles sopra sempre uma brisa suave e a vida se desenrola em repouso e harmonia. Assim, a Odisseia revela que, para os gregos arcaicos, a existência após a morte não era idêntica para todos: a maioria das sombras habitava o Hades sombrio e sem distinções, mas alguns escolhidos recebiam destinos especiais – uns eram lançados nas profundezas do Tártaro como punição eterna, e outros desfrutavam do repouso e da bem-aventurança nos Campos Elíseos. Entre a escuridão do abismo e a claridade do paraíso, Homero construiu uma visão do além marcada pela ideia de recompensa e castigo, mas reservada apenas a figuras excepcionais.
No mito egípcio, o julgamento do coração dos mortos era um dos momentos mais importantes da vida após a morte, descrito nos Textos dos Sarcófagos e especialmente no Livro dos Mortos. Quando alguém morria, acreditava-se que sua alma passava por uma série de provas no Duat, o mundo subterrâneo, e o ápice desse percurso era a chamada Pesagem do Coração (psychostasia), diante do tribunal de Osíris. O coração, para os egípcios, não era apenas um órgão físico, mas o centro da consciência, da memória e da moralidade, onde estavam gravadas as ações boas e más da vida terrena. Por isso, o coração do morto era colocado na balança para ser pesado, de um lado o coração e do outro a pena de Maat, deusa da verdade, da justiça e da ordem cósmica. A cena, ricamente ilustrada em papiros funerários, mostra Anúbis, deus com cabeça de chacal, conduzindo o morto e ajustando a balança, enquanto Thot, o escriba divino com cabeça de íbis, anotava o resultado do julgamento. O tribunal era presidido por Osíris, senhor do além, entronizado e ladeado por Ísis e Néftis, enquanto 42 juízes divinos assistiam ao processo. Se o coração do falecido se mostrasse leve e equilibrado com a pena de Maat, significava que a pessoa havia vivido em conformidade com a justiça e a ordem, sendo declarada justificada e recebendo acesso ao Campo de Juncos (Sekhet Aaru), um paraíso agrícola onde poderia viver eternamente em paz e abundância. Porém, se o coração fosse pesado, carregado de culpa e mentira, o morto não teria segunda chance e era entregue à deusa Ammut, a “devoradora”, criatura híbrida com cabeça de crocodilo, corpo de leão e traseiro de hipopótamo, que devorava o coração impuro, condenando a alma ao aniquilamento definitivo, a chamada “segunda morte”. Esse mito revela que a vida após a morte não era garantida para todos automaticamente, mas dependia da conduta moral em vida. A ordem de Maat não era apenas uma lei cósmica que mantinha o sol, o Nilo e as estações em equilíbrio, mas também um princípio ético que regulava as relações humanas, de modo que viver de acordo com Maat assegurava que, no tribunal de Osíris, o coração não pesasse mais que a pena. Havia, assim, um papel social do “inferno” para dissuadir as pessoas a não cometerem o mal, de forma que, se houvesse falha da justiça humana, a impotência do sistema seria compensada pela justiça divina.
Porém, nem todos acreditavam no pós-vida nas profundezas do subterrâneo. O Canto do Harpista, texto egípcio de cerca de 2.200 a.C., aparecia em túmulos do Império Médio, muitas vezes inscrito junto a imagens de um harpista tocando diante do morto. Trata-se de uma poesia que reflete sobre a vida, a morte e o destino humano, sendo o mais famoso exemplar encontrado no túmulo do faraó Intef, da XI Dinastia, em Tebas. Diferente de outros textos funerários que exaltam a eternidade e a confiança no além, esse canto tem um tom cético e existencial, recomendando o gozo da vida terrena enquanto ela existe. Essa poesia mostra que, embora a religião egípcia fosse marcada pela esperança na vida eterna, havia também espaço para uma visão crítica e desencantada, reconhecendo a incerteza do além e aconselhando o aproveitamento da vida presente.
Para Lucrécio, poeta e filósofo romano do século I a.C., seguidor de Epicuro, o inferno não se encontra em algum mundo subterrâneo após a morte, mas aqui mesmo, na vida dos homens. No poema Da Natureza das Coisas, ele critica o medo religioso que atormentava as pessoas com a ideia de um castigo eterno, afirmando que tais imagens não passavam de invenções para manter o povo submisso. Os mitos de Tântalo, Sísifo ou das Danaides não descrevem uma realidade do além, mas simbolizam os tormentos que os homens carregam no próprio cotidiano: Tântalo, ameaçado por uma pedra suspensa, representa o medo constante que oprime o espírito; Sísifo, empurrando sua pedra montanha acima apenas para vê-la rolar de volta, simboliza o esforço inútil e repetitivo da ambição desmedida; e as Danaides, condenadas a encher um vaso sem fundo, revelam a insatisfação eterna de quem nunca se contenta com o que possui. O verdadeiro inferno, portanto, é viver escravizado pelas paixões, pela inveja, pela ansiedade e pela busca incessante de poder, sentimentos que corroem a existência e tornam a vida um suplício. No entanto, Lucrécio oferece uma saída: a filosofia, especialmente a de Epicuro, é o caminho para libertar-se desse tormento. Ao compreender que a alma morre junto com o corpo, que não existe um além de castigos e recompensas e que a natureza é feita apenas de átomos em movimento no vazio, o ser humano pode vencer o medo da morte e encontrar serenidade. Assim, em vez de esperar o juízo em um reino sombrio depois do túmulo, o homem deve perceber que os verdadeiros tormentos estão no presente, criados por sua própria mente e por seus desejos desordenados. Quando a razão dissipa esses medos, o inferno desaparece e a vida pode ser vivida com alegria moderada e tranquilidade de espírito. Finalizando, há uma grande variedade de elaborações sobre o que acontece no pós-vida.
O inferno segundo Platão
Importante falarmos que os sepultamentos humanos são uma das mais antigas expressões culturais da humanidade, e os registros arqueológicos indicam que essa prática acontece há pelo menos 100 mil anos. Entre os exemplos mais antigos estão os enterramentos descobertos na caverna de Qafzeh, em Israel, datados de aproximadamente 100 mil anos, onde restos de Homo sapiens foram encontrados junto com ocre e possíveis objetos rituais, sugerindo um cuidado simbólico com os mortos. Também se destacam os sepultamentos de neandertais na caverna de Shanidar, no atual Iraque, com cerca de 60 mil anos, nos quais há indícios de flores depositadas sobre os corpos. Essas práticas revelam que, desde tempos muito remotos, os seres humanos não apenas cuidavam dos mortos, mas também lhes atribuíam significado, talvez ligado a crenças sobre a continuidade da vida.
Sobre como Platão enxergava o submundo, mencionamos os textos em que Platão escreve o mito de Er que aparece no final da obra A República (livro X) e funciona como uma narrativa mítica para ilustrar a concepção de Platão sobre a justiça, a alma e a vida após a morte. Platão relata a história de Er, filho de Armênio, um guerreiro que morre em batalha. Após dez dias, seu corpo permanece incorrupto, e no décimo segundo dia ele retorna à vida, narrando o que viu no além. Er conta que sua alma deixou o corpo e seguiu junto a outras até uma região onde se abriam duas entradas: uma que levava para cima, ao céu, e outra que descia para o interior da terra. Ali os juízes determinavam o destino das almas: os justos seguiam o caminho superior, recebendo recompensas, enquanto os injustos eram enviados para baixo, sofrendo punições.
Depois de um período de mil anos, as almas voltavam a se reunir. Diante delas era colocado o fuso de Necessidade, girado pelas três Moiras (Láquesis, Cloto e Átropos), símbolo da ordem cósmica e do destino. Cada alma, então, escolhia uma nova vida, humana ou animal, de acordo com sua liberdade de escolha, mas também influenciada por sua experiência anterior. Essa escolha era definitiva e moldava o novo ciclo de existência. Er observa que muitas almas, por imprudência ou desejo, escolhiam destinos dolorosos, enquanto outras, mais prudentes, buscavam vidas moderadas. Antes de renascer, cada alma bebia da água do rio Letes, o rio do esquecimento, de modo que não se lembraria do que havia vivido no além. Er, no entanto, não bebeu, pois fora destinado a retornar ao mundo dos vivos como mensageiro.
Outro mito, o do julgamento das almas nuas se refere a uma imagem usada por Platão em alguns diálogos, sobretudo no Górgias e no Fedro, em que ele descreve como as almas, ao deixarem o corpo, são julgadas diante de juízes divinos.
Segundo Platão, após a morte, a alma comparece sem corpo e sem adornos, isto é, “nua”, diante dos juízes. Essa nudez significa que nada pode ser escondido: riquezas, posição social, títulos e aparências não acompanham o falecido. Só resta a alma em sua pureza, trazendo inscritas nela mesma as marcas de suas ações, boas ou más. Os juízes, que Platão nomeia como Radamanto, Éaco e Minos, figuras herdadas da tradição mítica grega, examinam essas marcas e destinam cada alma a receber recompensas ou castigos proporcionais à vida que levou.
No Górgias, Platão explica que antigamente os homens eram julgados ainda em vida, com corpo e roupas, e por isso era fácil enganar os juízes com aparências. Mas Zeus teria ordenado que, a partir de então, as almas fossem julgadas após a morte e despidas de todo disfarce, de modo que o julgamento fosse justo e verdadeiro.