As histórias dos livros do Antigo Testamento - Da saída do Egito até a destruição de Samaria em 722 a.C.

Vestígios das fortificações da cidade de Jerusalém durante a monarquia judaíta
As histórias dos livros do Antigo Testamento
Os israelitas são salvos do Egito para seguirem para Canaã; no caminho o povo desagrada a Deus; o episódio do bezerro de ouro, Miriã, a rebelião dos irmãos de Moisés, Miriã e Arão, e Coré; os quarenta anos caminhando pelo deserto; os conflitos no deserto
Depois da saída do Egito e da travessia do mar, os israelitas iniciam a caminhada em direção à terra prometida aos seus antepassados.
A libertação é apresentada como o primeiro passo de um projeto maior: formar um povo e conduzi-lo à terra de Canaã. No caminho, os israelitas chegam ao Sinai, onde recebem leis e mandamentos e estabelecem uma relação de aliança com Javé.
A narrativa passa então a apresentar uma sequência de episódios nos quais os israelitas demonstram medo, insatisfação, desconfiança e rebeldia. O povo reclama da falta de água e de alimentos, questiona Moisés e, em diferentes momentos, demonstra desejo de retornar ao Egito.
O deserto torna-se, assim, um espaço de provação. A questão passa a ser se o povo confiará em Javé e seguirá as orientações de Moisés ou se continuará resistindo à liderança estabelecida.
Enquanto Moisés está no monte recebendo as instruções divinas e demora a retornar, o povo pede a Arão que faça uma representação divina. Arão recolhe objetos de ouro e produz um bezerro de ouro, diante do qual o povo realiza uma celebração.
A narrativa apresenta esse acontecimento como uma grave ruptura da aliança recém-estabelecida. O problema não é simplesmente a construção de uma imagem, mas a substituição da relação estabelecida com Javé por uma representação concreta que passa a ocupar o centro do culto.
Moisés desce do monte, vê o que está acontecendo e reage violentamente, quebrando as tábuas da aliança. O episódio simboliza a fragilidade da aliança: pouco depois de receber os mandamentos, o povo já os transgride.
Outro conflito ocorre quando Miriã e Arão, irmãos de Moisés, questionam sua autoridade. Eles perguntam se Deus teria falado somente por meio dele.
Nesse episódio, a questão não é apenas uma disputa familiar, mas um conflito sobre autoridade religiosa. A narrativa procura estabelecer a posição singular de Moisés entre os líderes israelitas. Como consequência da contestação, Miriã é atingida por uma doença de pele e fica afastada do acampamento durante sete dias.
A contestação torna-se ainda mais ampla na narrativa da rebelião de Coré, Datã e Abirão. Coré, que pertence à tribo de Levi, juntamente com outros líderes, questiona a autoridade de Moisés e Arão. A acusação é de que, se toda a comunidade é santa, por que Moisés e Arão ocupariam posições especiais?
A narrativa transforma essa contestação em uma crise política e religiosa. Moisés é desafiado, e Deus intervém para demonstrar quem possui legitimidade para exercer a liderança. Coré e seus seguidores são posteriormente destruídos, quando a terra se abre e os engole.
O episódio funciona como uma narrativa de legitimação da autoridade de Moisés e, especialmente, do sacerdócio de Arão.
Outro episódio acontece quando Moisés envia representantes das tribos para explorar a terra de Canaã. Os espias retornam trazendo informações sobre a fertilidade da terra, mas também relatam que seus habitantes são fortes e vivem em cidades fortificadas.
A maioria dos espias demonstra medo, enquanto Josué e Calebe defendem a possibilidade de conquistar a terra. O povo, porém, acredita no relato pessimista e começa a desejar retornar ao Egito.
Esse episódio transforma uma caminhada que deveria ser breve em uma longa permanência no deserto. A narrativa interpreta a falta de confiança do povo como motivo para sua punição: a geração que saiu do Egito não entraria na terra prometida, com exceção de Josué e Calebe.
Os quarenta anos representam, na narrativa bíblica, o período durante o qual a geração que saiu do Egito desaparece e uma nova geração cresce no deserto.
A narrativa apresenta os quarenta anos como um período de espera, punição, formação e substituição de uma geração por outra.
Moisés continua conduzindo o povo, mas não verá a entrada em Canaã. A liderança será posteriormente transferida para Josué, que conduzirá a nova geração para a terra prometida.
Durante o período no deserto, os israelitas enfrentam diversos conflitos. Há reclamações contra a falta de água e alimentos, disputas pela liderança, revoltas contra Moisés e episódios de medo diante dos povos que encontram no caminho.
Entre esses episódios está a narrativa em que o povo reclama da falta de água em Meribá. Moisés recebe a ordem de falar à rocha, mas acaba golpeando-a. A narrativa afirma que, por causa desse ato, Moisés também não entraria na terra prometida.
Outro conflito ocorre quando os israelitas enfrentam povos vizinhos durante a caminhada. A passagem pelo território de Edom envolve dificuldades e recusas.
Há ainda o episódio das serpentes abrasadoras, quando o povo novamente reclama contra Deus e contra Moisés. Como consequência, serpentes atacam os israelitas. Moisés então ergue uma serpente de bronze, diante da qual aqueles que haviam sido picados deveriam olhar para sobreviver.
Em conjunto, essas histórias constroem uma narrativa na qual a saída do Egito é apenas o início de um processo. Os israelitas são libertados, conduzidos pelo deserto, submetidos a provas, organizados como comunidade e preparados para ocupar Canaã.
Ao mesmo tempo, as narrativas apresentam repetidamente um conflito entre Moisés e o povo, entre diferentes grupos de liderança e entre a vontade de Deus e a resistência dos israelitas.
A geração que experimentou o êxodo é progressivamente substituída por uma nova geração, que será conduzida por Josué à terra prometida. A narrativa não descreve apenas uma viagem pelo deserto, mas apresenta uma transformação de uma comunidade de escravos em um povo organizado em torno de uma aliança, de leis, de instituições religiosas e de uma identidade própria.
Moisés e a sua geração não entram em Canaã; Josué, o sucessor de Moisés; a conquista da cidade de Jericó; Javé apoia as vitórias dos israelitas; a linhagem das doze tribos de Jacó; a tribo de Levi não recebe terras; os filhos de José recebem terras
A narrativa bíblica prossegue mostrando que Moisés e a geração que havia saído do Egito não entram em Canaã. Depois dos episódios de rebeldia, das dificuldades no deserto e da falta de confiança diante do relato dos espias, a narrativa estabelece que aquela geração deveria morrer durante os quarenta anos de peregrinação. Moisés também não recebe autorização para entrar na terra prometida. Embora continue conduzindo o povo até as proximidades de Canaã, ele apenas contempla a terra de longe, do monte Nebo, antes de morrer. A liderança passa então para Josué, filho de Num, apresentado como o sucessor escolhido para conduzir a nova geração na entrada e ocupação da terra.
Josué assume a liderança. Sua autoridade é uma continuidade da missão de Moisés. Javé promete estar com Josué assim como esteve com Moisés e ordena que ele seja forte e corajoso. A travessia do rio Jordão marca a passagem entre o período do deserto e a entrada em Canaã. Assim como o mar havia sido aberto durante a saída do Egito, o Jordão é apresentado como uma barreira que Javé permite ao povo atravessar. A nova geração, portanto, entra na terra sob a liderança de Josué e com a expectativa de que Javé cumpra as promessas feitas aos antepassados.
A primeira grande conquista narrada é a de Jericó. A cidade aparece como uma das primeiras barreiras encontradas pelos israelitas. Entretanto, a narrativa não apresenta a vitória como resultado exclusivamente da força militar de Israel. Josué recebe instruções específicas: durante vários dias, os israelitas deveriam marchar ao redor da cidade, acompanhados pelos sacerdotes e pela arca da aliança. No sétimo dia, depois de circularem pela cidade, os sacerdotes tocam as trombetas e o povo grita. Nesse momento, as muralhas de Jericó desabam. A narrativa atribui, portanto, a vitória à intervenção de Javé, que combate em favor de Israel.
A ideia de que Javé apoia as vitórias de Israel aparece repetidamente nas narrativas da conquista. As vitórias militares são interpretadas como consequência da presença e da ação de Deus junto ao povo. Quando Israel obedece, Javé concede vitórias; quando ocorre desobediência, surgem derrotas e dificuldades. Essa relação fica particularmente evidente no episódio de Ai, quando os israelitas são derrotados depois de uma transgressão relacionada aos objetos destinados à destruição.
Depois da grande vitória sobre Jericó, Josué enviou alguns homens para espionar a cidade de Ai. Os exploradores retornaram dizendo que a cidade era pequena e que não seria necessário enviar todo o exército. Josué então enviou cerca de três mil homens para atacá-la.
Os israelitas foram derrotados pelos habitantes de Ai, e a derrota surpreendeu Josué, porque, segundo a narrativa, Javé havia prometido estar com Israel.
Josué então procurou compreender a razão da derrota. Javé revelou que Israel havia cometido uma transgressão: alguém havia tomado objetos que, após a conquista de Jericó, deveriam ser destinados à destruição ou separados para Javé. O responsável foi identificado como Acã, da tribo de Judá.
Depois disso, Javé novamente permitiu que Israel atacasse Ai. Dessa vez, Josué elaborou uma estratégia militar, colocando uma parte do exército em emboscada atrás da cidade. Os israelitas conseguiram atrair os homens de Ai para fora da cidade e depois a conquistaram.
A organização das tribos também ocupa lugar importante na narrativa. Os israelitas são apresentados como descendentes dos doze filhos de Jacó, cujos nomes dão origem às doze tribos de Israel: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. Entretanto, a organização das tribos na narrativa bíblica apresenta uma particularidade. Embora José seja contado entre os filhos de Jacó, seus dois filhos, Efraim e Manassés, recebem posteriormente uma posição própria entre as tribos. Por isso, quando a distribuição territorial é considerada, José aparece representado por duas tribos.
A tribo de Levi constitui outra exceção. Os levitas não recebem um território tribal contínuo como as demais tribos. Sua função está relacionada ao serviço religioso e ao cuidado das estruturas sagradas. A narrativa afirma que a herança de Levi é o próprio Javé e que os levitas receberiam cidades distribuídas entre os territórios das outras tribos, juntamente com áreas destinadas aos seus animais.
A ausência de um território próprio para Levi é compensada, na organização das tribos, pela distribuição dos descendentes de José. Ele havia recebido uma posição especial na narrativa, por causa da história contada no livro de Gênesis. Seus dois filhos, Efraim e Manassés, são adotados por Jacó e recebem uma bênção que os coloca em posição equivalente à de seus próprios filhos. Por isso, quando a terra é distribuída, os descendentes de José aparecem como duas tribos territoriais: Efraim e Manassés. Dessa maneira, mantém-se a estrutura das doze porções tribais, apesar de Levi não receber um território próprio.
A narrativa da entrada em Canaã, portanto, combina sucessão de liderança, conquista militar, intervenção divina e organização territorial. Moisés representa a geração que saiu do Egito e atravessou o deserto; Josué representa a nova geração que entra na terra. Jericó simboliza a primeira grande vitória da conquista, atribuída diretamente a Javé, enquanto a distribuição da terra estabelece a organização das tribos descendentes de Jacó. Levi assume uma função religiosa, e os descendentes de José, Efraim e Manassés, ocupam duas posições territoriais.
Os vizinhos de Canaã, a terra prometida; os conflitos com os israelitas; Josué morre e não surge nenhuma liderança unificadora; o contexto dos Juízes
Depois da entrada dos israelitas em Canaã, as narrativas bíblicas passam a apresentar a terra como uma região habitada por diversos povos e organizada em diferentes cidades e reinos. Os israelitas encontram entre seus vizinhos cananeus, amorreus, heteus, heveus, jebuseus, filisteus, moabitas, amonitas, edomitas e midianitas, entre outros grupos mencionados pelos textos bíblicos. Esses povos ocupavam diferentes regiões e mantinham relações políticas, econômicas e militares entre si.
Os conflitos com os habitantes de Canaã constituem um dos temas do livro de Josué. As narrativas descrevem batalhas, conquistas de cidades e a submissão de diferentes grupos. Em muitos desses relatos, as vitórias israelitas são interpretadas como resultado da intervenção de Javé. A guerra, nesses textos, não é apresentada apenas como uma disputa territorial; ela recebe uma interpretação religiosa, segundo a qual a ocupação da terra corresponde ao cumprimento de uma promessa feita por Javé aos antepassados de Israel.
Entretanto, a própria narrativa bíblica reconhece que a conquista não foi completa. Diversos povos permaneceram na região. O livro de Juízes começa em um contexto no qual diferentes grupos estrangeiros continuam vivendo entre os israelitas. Essa presença permanente dos vizinhos produz uma situação de convivência, competição, conflitos militares e influências religiosas.
Depois da morte de Josué, não surge imediatamente uma autoridade equivalente. O livro de Juízes não apresenta uma nova liderança nacional permanente capaz de governar todas as tribos de Israel. Em vez disso, diferentes líderes aparecem em momentos específicos para enfrentar determinadas ameaças. A tradição bíblica chama esses personagens de juízes, que são líderes militares, políticos e religiosos que surgem em situações de crise.
Quando uma ameaça externa surge, uma determinada tribo ou grupo pode mobilizar-se, e um líder pode reunir várias tribos para enfrentar o inimigo. Depois da vitória, porém, essa unidade tende a desaparecer. O período dos Juízes é marcado por uma estrutura tribal descentralizada.
As narrativas do livro de Juízes apresentam esse período segundo um ciclo que se repete diversas vezes. Israel abandona Javé e passa a seguir outros deuses; como consequência, sofre opressão de povos vizinhos. O povo então clama a Javé, que suscita um libertador. O juiz derrota o inimigo, e o povo experimenta um período de tranquilidade. Depois da morte do juiz, entretanto, os israelitas voltam a se afastar de Javé, iniciando novamente o ciclo de desobediência, opressão e libertação.
O período dos Juízes é também caracterizado por episódios de violência interna e desagregação social.
Os principais Juízes: Débora, Jefté, Gideão e Sansão
O livro de Juízes apresenta diferentes personagens que surgem em momentos de crise para libertar os israelitas da opressão de povos vizinhos. Esses personagens não formam uma sequência de governantes nacionais, mas exercem uma liderança temporária, associada a uma situação específica de conflito. Entre os principais estão Débora, Gideão, Jefté e Sansão.
Débora é apresentada como profetisa e juíza de Israel. Ela exerce sua liderança em um contexto de opressão provocada pelo rei cananeu Jabim, cujo comandante militar é Sísera. Débora convoca Baraque e transmite a ele a ordem de reunir um exército para enfrentar as forças de Sísera. O conflito ocorre junto ao ribeiro de Quisom, e os israelitas obtêm a vitória.
Sísera foge do campo de batalha e procura abrigo na tenda de Jael, mulher de Héber, o queneu. Jael recebe o comandante, mas posteriormente o mata enquanto ele dorme. Dessa maneira, a narrativa atribui a vitória não apenas à ação militar de Baraque, mas também à intervenção de Débora e à participação decisiva de Jael. O episódio termina com o cântico de Débora, que celebra a vitória de Israel e a ação de Javé em favor do povo.
Gideão aparece quando os israelitas sofrem ataques dos midianitas. A narrativa descreve uma situação de opressão na qual os israelitas precisam esconder sua produção agrícola dos inimigos. Gideão é chamado por um mensageiro de Javé enquanto está malhando trigo e recebe a missão de libertar Israel. Entretanto, Gideão demonstra insegurança e pede sinais para confirmar que Deus realmente está com ele.
Entre esses sinais está o episódio do velo de lã: Gideão pede que o velo fique molhado enquanto o chão permanece seco e, depois, solicita o sinal inverso. A narrativa apresenta esses acontecimentos como confirmações da presença divina.
Depois disso, Gideão reúne um exército, mas Javé determina que o número de soldados seja reduzido para que a vitória não seja atribuída à força militar de Israel. Apenas trezentos homens participam do ataque contra os midianitas. Utilizando trombetas, cântaros e tochas, os israelitas provocam confusão no acampamento inimigo e conseguem derrotá-lo. A história de Gideão procura enfatizar que a vitória não depende da superioridade numérica de Israel, mas da intervenção de Javé.
Jefté é descrito como um guerreiro que havia sido rejeitado por seus irmãos e posteriormente é chamado para liderar os israelitas contra os amonitas. Antes da batalha, ele faz um voto a Javé: promete oferecer como sacrifício aquilo que primeiro sair de sua casa para recebê-lo, caso retorne vitorioso. Jefté vence os amonitas, mas, ao voltar para casa, quem sai ao seu encontro é sua única filha.
A narrativa descreve o sofrimento de Jefté diante do cumprimento do voto. Sua filha aceita a situação e pede apenas um período para lamentar sua virgindade juntamente com suas companheiras. O texto termina informando que Jefté cumpriu o voto que havia feito. A história funciona como um dos exemplos mais dramáticos da violência e da desordem presentes no período dos Juízes.
A história de Sansão começa antes mesmo de seu nascimento. Um mensageiro de Deus anuncia à sua mãe que ela terá um filho que será separado para Deus desde o ventre. Sansão será associado ao voto de nazireu, uma forma de consagração religiosa descrita na tradição israelita. Entre as características associadas ao nazireado estavam a abstinência de vinho e produtos da videira, a proibição de cortar o cabelo e a obrigação de evitar contato com cadáveres. No caso de Sansão, sua força extraordinária é simbolicamente relacionada à sua consagração e, sobretudo, à ação do espírito de Javé sobre ele.
A narrativa de Sansão é marcada por conflitos constantes com os filisteus. Ele realiza feitos extraordinários, como matar um leão, derrotar numerosos inimigos e romper amarras consideradas extremamente fortes. Entretanto, sua vida pessoal é marcada por impulsividade, conflitos amorosos e transgressões. O episódio mais conhecido é sua relação com Dalila, que descobre que a força de Sansão está relacionada ao seu cabelo não cortado.
Depois de descobrir o segredo, Dalila permite que os filisteus capturem Sansão. Seu cabelo é cortado, ele perde sua força e é levado prisioneiro.
No final da narrativa, Sansão recupera sua força depois que seu cabelo começa novamente a crescer. Durante uma celebração dos filisteus, ele é colocado entre as colunas do templo. Sansão ora a Javé e pede que lhe seja concedida força uma última vez. Então derruba as colunas, provocando a destruição do edifício e sua própria morte juntamente com muitos filisteus.
O desejo dos israelitas em terem um rei; a permissão de Deus para que tivessem um rei; Samuel unge Saul como rei
Durante o período dos Juízes, as tribos israelitas não possuíam um governo central permanente. Diferentes líderes surgiam em momentos de crise, mas, depois de suas mortes, a unidade alcançada durante os conflitos tendia a desaparecer. Esse sistema tribal descentralizado mostrava-se cada vez mais insuficiente diante dos conflitos com os povos vizinhos, especialmente com os filisteus. Surge, então, entre os israelitas, o desejo de possuir um rei que pudesse governá-los e conduzi-los nas guerras.
Os anciãos de Israel dirigem-se a Samuel, que exercia uma importante função de liderança religiosa e política, e apresentam seu pedido: querem um rei para governá-los “como têm todas as nações”. O desejo de estabelecer uma monarquia é compreensível diante das necessidades políticas e militares de Israel. Por outro lado, o texto demonstra certa resistência, pois entende que Israel deveria reconhecer Javé como seu verdadeiro rei.
Samuel fica descontente com o pedido e consulta Javé. A resposta divina, porém, é permitir que o povo tenha um rei. A narrativa afirma que o problema não está simplesmente em querer uma estrutura política organizada, mas na maneira como o povo formula seu pedido. Israel quer um rei para governá-lo e lutar por ele, como ocorre entre as outras nações. Javé ordena que Samuel atenda ao pedido, mas também determina que o povo seja advertido sobre as consequências da monarquia.
Samuel explica que um rei exercerá poder sobre a população e poderá requisitar filhos para o exército, trabalhadores para suas propriedades, filhas para diferentes serviços, terras, rebanhos e parte da produção agrícola. A monarquia, portanto, não é apresentada apenas como uma instituição destinada a proteger o povo. Ela também implica impostos, recrutamento, trabalho e concentração de poder nas mãos do governante. Mesmo depois dessa advertência, o povo insiste em seu desejo de possuir um rei.
A narrativa apresenta, então, Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim. Saul sai à procura das jumentas de seu pai, que haviam desaparecido e, durante essa busca, chega até Samuel. O encontro entre os dois é apresentado como parte da condução de Javé para que Saul seja escolhido como líder de Israel.
Samuel recebe uma orientação divina para reconhecer Saul como aquele que deveria governar Israel. Em seguida, realiza o gesto de ungi-lo com óleo, estabelecendo-o como escolhido para exercer a liderança. A unção possui um forte significado simbólico: o óleo derramado sobre a cabeça representa a separação do indivíduo para uma função especial e estabelece uma relação entre a escolha do rei e a autoridade de Deus.
Saul é apresentado publicamente diante do povo como aquele que deveria governá-lo. A escolha é acompanhada por sinais que confirmariam sua eleição.
Israel deseja uma monarquia semelhante à das outras nações, mas o primeiro rei é escolhido e ungido por determinação de Javé. A monarquia não surge, portanto, como uma instituição independente da tradição religiosa de Israel; ela é incorporada à narrativa como uma estrutura política que Deus permite e, inicialmente, legitima.
O estabelecimento de Saul como rei marca uma mudança na história narrada pelos livros de Samuel. Israel passa de uma organização predominantemente tribal, na qual diferentes juízes exerciam liderança temporária, para uma monarquia centralizada. Saul será responsável por reunir as tribos e enfrentar seus inimigos, especialmente os filisteus. Ao mesmo tempo, sua história mostrará que a instituição da monarquia não elimina os conflitos entre autoridade política e autoridade religiosa. A relação entre Saul, Samuel e Javé será fundamental para as narrativas seguintes e preparará o caminho para a ascensão de Davi e para o estabelecimento da dinastia davídica.
Samuel unge Saul e tem início o período monárquico
O povo de Israel pediu um rei para ser como as outras nações. Deus permitiu que Samuel ungisse Saul como o primeiro rei de Israel. Saul era da tribo de Benjamim, e seu reinado durou aproximadamente 40 anos.
Durante seu reinado, Saul unificou as tribos de Israel, organizou um exército permanente e obteve importantes vitórias contra os amonitas e os filisteus. Inicialmente, demonstrou humildade e dependência de Deus.
Com o tempo, porém, Saul passou a desobedecer às ordens de Deus. Dois episódios foram decisivos nesse processo. O primeiro ocorreu quando ofereceu um sacrifício sem esperar Samuel, conforme 1 Samuel 13, assumindo uma função que não lhe cabia. O segundo aconteceu durante a guerra contra os amalequitas, narrada em 1 Samuel 15, quando desobedeceu à ordem divina ao poupar o rei Agague e o melhor do rebanho. Diante dessas desobediências, Deus rejeitou Saul como rei.
Saul morreu na batalha do monte Gilboa contra os filisteus, conforme 1 Samuel 31. Ferido gravemente, lançou-se sobre sua própria espada para não ser capturado. Seus filhos Jônatas, Abinadabe e Malquisua também morreram nessa batalha.
O sucesso militar de Davi no exército de Saul; a ascensão de Davi; o casamento com Mical, filha de Saul; Davi era o melhor amigo de Jônatas, filho de Saul
Davi começou a ganhar destaque depois de derrotar Golias, o guerreiro filisteu. Depois disso, Saul o colocou em posição de liderança militar.
Davi passou a ter grande sucesso junto ao povo, e isso despertou ciúme e medo em Saul, porque Davi estava se tornando popular.
Samuel já havia ungido Davi secretamente como futuro rei – o favor divino é transferido para Davi. Portanto, mesmo antes de Davi ocupar o trono, havia uma tensão entre Saul e Davi, que Deus havia escolhido para suceder a Saul.
Mical, filha de Saul, apaixonou-se por Davi. Saul viu o casamento como uma oportunidade para colocar Davi em perigo e morrer. Ele pediu um preço de casamento envolvendo cem prepúcios de filisteus. Davi conseguiu o dobro e trouxe duzentos.
Davi e Mical se casaram.
Jônatas, filho de Saul e herdeiro natural do trono, tornou-se um grande amigo de Davi. Eles fizeram uma aliança de amizade e lealdade. Jônatas não tratou Davi como rival, mesmo sabendo que Davi provavelmente seria rei no futuro. Ele chegou a defender Davi diante de Saul e ajudou-o a escapar quando percebeu que seu pai pretendia matá-lo.
Davi tornou-se parte da família de Saul, ao mesmo tempo em que era o homem que Saul mais temia como futuro rei.
A perseguição de Saul a Davi
A perseguição de Saul a Davi transformou-se em uma verdadeira caçada política e militar. O motivo principal foi o medo e o ciúme de Saul diante do crescimento da popularidade de Davi e da percepção de que Deus estava com ele. Depois da vitória de Davi sobre Golias e de suas campanhas militares, Davi tornou-se muito popular entre o povo, fazendo com que Saul passasse a temer que ele viesse a tomar o reino.
Saul percebeu que não poderia simplesmente matar Davi sem provocar uma reação popular e, por isso, começou a utilizar estratégias para colocá-lo em perigo. Colocou Davi como comandante militar, esperando que ele morresse em combate. Depois, ofereceu suas filhas em casamento sob condições que exigiam que Davi enfrentasse os filisteus. No entanto, aconteceu o contrário: Davi continuou vencendo as batalhas e tornou-se ainda mais popular. Saul então deu sua filha Mical a Davi. Quando percebeu que Mical amava Davi e que o casamento não havia surtido o efeito de colocar Davi em perigo, sua hostilidade aumentou. Mical acabou ajudando Davi a fugir de sua própria casa, colocando uma imagem na cama para enganar os homens enviados por Saul.
Jônatas, filho de Saul e amigo de Davi, tentou convencer seu pai de que Davi não era seu inimigo. Por um momento, Saul concordou em não matar Davi, mas voltou a persegui-lo. Jônatas então fez uma aliança com Davi e o ajudou a descobrir se Saul realmente pretendia matá-lo.
Davi passou a viver como fugitivo. Ele foi para Nobe, onde recebeu ajuda do sacerdote Aimeleque; para Gate, território dos filisteus; para a caverna de Adulão; e para regiões desérticas e montanhosas de Judá. Davi começou a reunir ao seu redor um grupo de homens que chegou a cerca de 400. Assim, começou a formar uma força militar própria, embora ainda não estivesse reivindicando abertamente o trono.
Quando Saul descobriu que o sacerdote Aimeleque havia ajudado Davi, ordenou a morte dos sacerdotes de Nobe. Doegue, um edomita, executou a ordem. Saul passou a considerar não apenas Davi, mas também seus possíveis aliados como ameaças.
Em En-Gedi, Saul entrou na mesma caverna onde Davi estava escondido. Os homens de Davi quiseram matá-lo, mas Davi recusou-se a matar Saul. Apenas cortou secretamente uma parte do manto do rei. Mais tarde, mostrou o pedaço do manto a Saul e disse que poderia tê-lo matado.
Em Zife, quando Davi encontrou Saul dormindo no acampamento, pegou a lança e o jarro de água que estavam ao lado de Saul, mas novamente não o matou. Davi acreditava que não deveria assassinar o rei que havia sido ungido.
A perseguição terminou com a batalha do monte Gilboa. Os filisteus derrotaram Israel, e Saul e três de seus filhos morreram. Somente depois da morte de Saul é que Davi começou efetivamente a reinar, primeiro sobre Judá e, posteriormente, sobre todo Israel.
Davi se torna rei
Após Saul morrer no monte Gilboa, Davi foi proclamado rei sobre Judá, em Hebrom. Porém, as outras tribos de Israel seguiram Is-Bosete, filho de Saul, que foi feito rei sobre Israel por Abner, comandante do exército de Saul.
Israel ficou dividido, com Davi sendo rei de Judá, tendo Hebrom como capital, enquanto Is-Bosete era rei de grande parte das tribos de Israel, apoiado por Abner – Benjamim, Efraim, Aser, Gileade e Jezreel; Gileade e Jezreel não são tribos de Israel, mas regiões. Os dois grupos entraram em conflito, e a disputa se transformou em uma guerra prolongada entre os partidários de Is-Bosete e os de Davi.
A situação mudou quando Abner rompeu com Is-Bosete e decidiu apoiar Davi. Abner foi assassinado por Joabe – filho de Zeruia, e sobrinho e comandante militar de Davi –, e Is-Bosete também foi assassinado por dois de seus próprios homens, Baaná e Recabe.
Com a morte de Is-Bosete, os anciãos das tribos de Israel foram até Davi e o reconheceram como rei sobre todo Israel.
Esse conflito foi fundamental para a consolidação do reino unificado sob Davi.
Davi governa, leva a Arca da Aliança para Jerusalém, mas não constrói o Templo
Após a morte de Is-Bosete, Davi foi reconhecido como rei de todo Israel. Seu primeiro grande ato político foi conquistar Jerusalém, cidade até então controlada pelos jebuseus, e transformá-la em sua capital. A escolha foi estratégica, pois Jerusalém não pertencia originalmente a nenhuma das principais tribos e estava localizada entre o norte e o sul do reino.
Davi fortaleceu o poder militar e ampliou o território sob seu domínio, derrotando ou submetendo povos vizinhos, como filisteus, moabitas, edomitas e arameus. Jerusalém tornou-se também o principal centro religioso quando Davi transferiu para lá a Arca da Aliança, associando o poder político da monarquia ao culto de Javé.
Apesar de suas conquistas, seu governo foi marcado por crises internas. O episódio envolvendo Bate-Seba e Urias provocou forte condenação profética, e posteriormente surgiram graves conflitos dentro da própria família real. A revolta de seu filho Absalão chegou a ameaçar diretamente seu governo e obrigou Davi a fugir temporariamente de Jerusalém.
Nos últimos anos de sua vida, Davi enfrentou novas disputas políticas e sucessórias. A escolha de Salomão como seu sucessor foi consolidada pouco antes de sua morte.
A principal explicação para Davi não ter construído o Templo, é que ele afirma que Javé lhe disse que ele havia derramado muito sangue e participado de muitas guerras e, por isso, não seria ele quem construiria uma casa para o nome de Javé.
Salomão assume o reinado
Salomão assumiu o trono de Israel em meio a uma disputa sucessória. Nos últimos anos da vida de Davi, seu filho Adonias tentou proclamar-se rei, aproveitando a velhice e a fragilidade do pai. Ele reuniu partidários importantes, entre eles Joabe, comandante do exército, e o sacerdote Abiatar. Entretanto, o profeta Natã e Bate-Seba intervieram junto a Davi, lembrando-lhe que Salomão havia sido escolhido para sucedê-lo.
Davi então ordenou que Salomão fosse ungido rei pelo sacerdote Zadoque e pelo profeta Natã. A cerimônia ocorreu junto à fonte de Giom, em Jerusalém, e Salomão foi proclamado rei enquanto Davi ainda estava vivo.
Após a morte de Davi, Salomão consolidou seu poder eliminando ou afastando possíveis adversários. Adonias foi executado depois de tentar casar-se com Abisague, jovem que havia servido Davi em sua velhice, ato interpretado politicamente como uma pretensão ao trono. Joabe, que havia apoiado Adonias, também foi morto. O sacerdote Abiatar foi afastado de suas funções e enviado para Anatote, cidade localizada no território da tribo de Benjamim, próxima de Jerusalém, enquanto Zadoque passou a ocupar posição central no sacerdócio.
Uma vez consolidado no poder, Salomão é apresentado como um rei sábio e próspero. Segundo a narrativa, em Gibeão, Javé apareceu a Salomão em sonho e lhe ofereceu aquilo que desejasse. Em vez de pedir riqueza ou longa vida, Salomão pediu sabedoria para governar o povo. Javé lhe concedeu sabedoria e, além disso, riquezas e prestígio.
O governo de Salomão foi marcado por uma centralização administrativa e política. O reino foi dividido em distritos responsáveis pelo fornecimento de alimentos e recursos para a corte. Salomão estabeleceu alianças diplomáticas, especialmente por meio de casamentos com mulheres estrangeiras, e ampliou suas relações comerciais com diferentes povos e regiões.
A principal realização de seu governo foi a construção do Templo de Jerusalém. Utilizando materiais e conhecimentos fornecidos, segundo a narrativa bíblica, pelo rei Hirão de Tiro, Salomão construiu um grande santuário para Javé e transferiu para ele a Arca da Aliança. O Templo tornou-se o principal centro religioso de Israel e Jerusalém consolidou-se como centro político e religioso do reino.
Entretanto, o governo também apresentou aspectos negativos. As grandes construções, a manutenção da corte e os projetos do rei exigiam pesados impostos e trabalho obrigatório. Além disso, Salomão acumulou muitas esposas estrangeiras e permitiu ou patrocinou cultos dedicados a outras divindades. Segundo a narrativa, isso provocou a condenação de Javé.
Como consequência, o texto afirma que o reino seria dividido após a morte de Salomão. Seu filho Roboão conservaria apenas uma parte do reino, enquanto as tribos do norte formariam um reino separado.
Roboão assume o Reino do Sul – Judá, e Jeroboão o Reino do Norte – Israel
Após a morte de Salomão, seu filho Roboão assumiu o trono e foi a Siquém para ser reconhecido como rei pelas tribos de Israel. Jeroboão, que havia vivido fora do país após entrar em conflito com Salomão, retornou e passou a representar as tribos do norte. O povo pediu a Roboão que diminuísse os pesados impostos e o trabalho obrigatório impostos durante o governo de seu pai.
Roboão consultou os conselheiros mais velhos, que recomendaram uma atitude conciliadora. Entretanto, ele preferiu seguir o conselho dos jovens que haviam crescido com ele e respondeu, afirmando que aumentaria ainda mais o peso sobre o povo. Diante disso, as tribos do norte recusaram-se a reconhecer sua autoridade e proclamaram Jeroboão como rei.
Assim ocorreu a divisão do antigo reino unido. Roboão permaneceu governando Judá, no sul, tendo Jerusalém como capital, enquanto Jeroboão passou a governar o Reino de Israel, formado principalmente pelas tribos do norte.
Para impedir que seus súditos continuassem indo a Jerusalém para celebrar as festas religiosas, Jeroboão estabeleceu centros de culto em Betel e Dã. Segundo a narrativa bíblica, foram colocadas nesses locais imagens de bezerros, o que posteriormente foi apresentado pelos autores bíblicos como uma grave forma de idolatria.
A divisão entre Judá e Israel marcou o início de dois reinos independentes e rivais. A partir desse momento, a história bíblica passa a acompanhar separadamente os reis do Reino do Sul, Judá, e os reis do Reino do Norte, Israel, cujos destinos políticos e religiosos se desenvolveram de maneira distinta.
Os santuários em Dã e em Betel
Depois da divisão dos reinos, Jeroboão enfrentou um problema político e religioso: Jerusalém continuava localizada no território do Reino de Judá. Se a população do Reino de Israel continuasse realizando peregrinações à cidade para participar das grandes celebrações religiosas, isso poderia fortalecer os vínculos com o reino rival e, consequentemente, ameaçar a independência política do norte.
Para enfrentar essa situação, a tradição bíblica afirma que Jeroboão estabeleceu os centros de culto em Betel, ao sul do Reino de Israel, e em Dã, ao norte. Esses locais eram estrategicamente importantes porque permitiam que a população realizasse suas práticas religiosas sem precisar viajar até Jerusalém. Assim, os dois santuários contribuíam para a consolidação da identidade do novo reino.
A narrativa relata que Jeroboão colocou imagens de bezerros ou touros nos dois santuários. A interpretação bíblica posterior apresenta o episódio de maneira negativa, associando-o à idolatria e ao afastamento da religião. As oito dinastias em 200 anos no reino de Israel.
O Reino de Israel, formado após a divisão da antiga monarquia unificada, por volta do século X a.C., teve uma história política marcada por instabilidade. O reino conheceu sucessivas mudanças de famílias reinantes. Em aproximadamente dois séculos de existência independente, desde a separação política após a morte de Salomão até a conquista assíria de Samaria, em 722/720 a.C., o reino passou por diversas dinastias e golpes de Estado. Por isso, costuma-se afirmar que Israel teve cerca de oito dinastias ou casas governantes, embora a contagem possa variar dependendo da forma como se classificam determinados reinados.
A primeira dinastia foi fundada por Jeroboão I, que liderou a separação das tribos do norte contra Roboão, filho de Salomão. Jeroboão estabeleceu uma nova estrutura política e religiosa para o reino, procurando evitar que seus súditos continuassem dependentes de Jerusalém. Seu governo foi sucedido por seu filho, Nadabe, mas a dinastia teve vida curta. Nadabe foi assassinado por Baasa, que assumiu o trono e eliminou os membros da família de Jeroboão. Esse padrão – a derrubada de uma família real pela força e a destruição de seus possíveis herdeiros – tornou-se recorrente na história política do Reino de Israel.
Baasa fundou uma nova dinastia e governou aproximadamente 24 anos, (período aproximado de 909 a 886 a.C.). Seu filho Elá o sucedeu, mas também foi assassinado. O responsável pelo golpe foi Zinri, um oficial militar que eliminou Elá e toda a família de Baasa. Entretanto, Zinri conseguiu permanecer no poder apenas por poucos dias. O exército, que estava em campanha, proclamou seu comandante, Onri, como rei. Cercado e sem apoio suficiente, Zinri morreu durante a tomada da cidadela (palácio fortificado) da cidade de Tirza, que era então a capital do Reino de Israel, onde se havia refugiado.
Onri consolidou seu poder e fundou uma nova capital em Samaria. Seu filho Acabe deu continuidade à dinastia e é lembrado tanto por sua importância política quanto pelos conflitos religiosos narrados na tradição bíblica. Acabe estabeleceu alianças com os fenícios e casou-se com Jezabel, filha do rei de Tiro e Sidom. Essas relações fortaleceram a posição internacional de Israel, mas também provocaram fortes conflitos religiosos, especialmente nas narrativas associadas ao profeta Elias.
A casa de Onri, porém, tornou-se alvo de uma violenta revolução liderada por Jeú. A narrativa bíblica apresenta Jeú como instrumento de julgamento contra a família de Acabe. Ele promoveu uma série de assassinatos políticos, eliminando membros da casa real e assumindo o trono. O período coincidiu com a crescente presença do Império Assírio no Levante, e Jeú aparece em fontes assírias como um governante que prestou tributo ao rei Salmanasar III.
A dinastia de Jeú foi uma das mais duradouras do Reino de Israel (aproximadamente de 841 a 747 a.C.). Seus descendentes governaram por cinco gerações: Jeú, Jeoacaz, Jeoás, Jeroboão II e Zacarias. Durante o reinado de Jeroboão II, Israel experimentou um período de expansão territorial e prosperidade econômica. O reino recuperou áreas perdidas e desenvolveu atividades comerciais e agrícolas. No entanto, a prosperidade não significava estabilidade social. Os profetas Amós e Oseias criticaram as desigualdades, a corrupção e as práticas religiosas que consideravam incompatíveis com a justiça e a fidelidade a Deus.
A morte de Zacarias encerrou a dinastia de Jeú. Ele foi assassinado por Salum, que ocupou o trono por apenas um mês antes de ser morto por Menaém. A partir desse momento, o Reino de Israel entrou em uma fase ainda mais instável. Menaém conseguiu manter-se no poder por aproximadamente 10 anos (752 a 742 a.C.), mas precisou enfrentar a crescente pressão da Assíria. Para garantir seu governo, pagou pesado tributo ao rei assírio Tiglate-Pileser III.
Após Menaém, seu filho Pecaías assumiu o trono, governou por 2 anos, mas foi assassinado por Peca, um oficial militar. Peca governou aproximadamente entre 752/740 e 732 a.C., tentou formar alianças regionais contra a Assíria, mas sua política terminou em desastre. O império respondeu militarmente, conquistando partes do território israelita e reduzindo o poder do reino. Posteriormente, Peca foi assassinado e substituído por Oseias, o último rei de Israel.
Oseias tornou-se rei em um período em que Israel já se encontrava politicamente enfraquecido e submetido à influência assíria. Inicialmente, continuou pagando tributo, mas depois tentou buscar apoio externo, no Egito, para se libertar da dominação da Assíria. A reação assíria foi decisiva. O reino foi invadido, Samaria foi cercada e, depois de alguns anos, conquistada. A queda da capital, tradicionalmente situada em 722/720 a.C., marcou o fim do Reino de Israel.
A sucessão de golpes e dinastias terminou apenas com a intervenção de uma força muito maior do que qualquer facção interna: o Império Assírio. A conquista de Samaria encerrou a existência independente do Reino de Israel e alterou a história das populações da região.
O rei Acabe se casa com Jesebel, princesa fenícia, e promove o culto a Baal e Aserá
O rei Acabe, governante do Reino do Norte de Israel, casou-se com Jezabel, filha de Etbaal, rei de Sidom, estabelecendo uma aliança política com os povos fenícios. Segundo a narrativa bíblica, Jezabel promoveu em Israel o culto a Baal e a Aserá, divindades veneradas nas regiões fenícias e cananeias.
Acabe permitiu a construção de um templo e de um altar dedicado a Baal em Samaria, sua capital, e o culto a essas divindades passou a receber apoio da corte. Essa política religiosa provocou forte oposição dos profetas ligados ao culto exclusivo de Javé, especialmente Elias.
Os 400 anos de reinado no reino de Judá
O Reino de Judá existiu por cerca de quatro séculos, desde a divisão do antigo reino unido após a morte de Salomão, por volta do século X a.C., até a conquista de Jerusalém pelos babilônios, em 586 a.C. Durante esse período, foi governado pela dinastia davídica, que, segundo a tradição bíblica, permaneceu no poder de forma contínua.
O reino teve Jerusalém como capital e o Templo como principal centro religioso. Ao longo de sua história, Judá alternou períodos de estabilidade e prosperidade com crises políticas, guerras e submissão a grandes potências estrangeiras.
Os momentos de maior estabilidade ocorreram quando o reino conseguiu preservar sua autonomia, fortalecer Jerusalém e estabelecer relações diplomáticas favoráveis com os povos vizinhos. Entre esses períodos destacam-se parte dos reinados de Asa, Jeosafá, Uzias e Josias, embora cada um tenha enfrentado também dificuldades.
As principais crises começaram logo após a divisão do antigo reino unido, quando Judá e Israel passaram a disputar territórios e influência. Nos séculos seguintes, Judá enfrentou invasões e pressões de potências estrangeiras. Uma das primeiras grandes crises ocorreu durante o reinado de Roboão, quando o faraó Sisaque invadiu Judá e saqueou Jerusalém.
No século VIII a.C., o reino enfrentou a crescente expansão da Assíria. Durante o reinado de Ezequias, Senaqueribe invadiu Judá, conquistou diversas cidades e cercou Jerusalém, embora a cidade não tenha sido tomada. Essa foi uma das maiores ameaças à sobrevivência do reino.
No século VII a.C., a queda do Império Assírio provocou uma nova instabilidade na região. Judá ficou entre as disputas do Egito e da Babilônia. O rei Josias morreu em combate contra o faraó Neco, em Megido, iniciando um período de forte enfraquecimento político.
A crise final ocorreu no início do século VI a.C., quando Judá se tornou subordinado à Babilônia. Revoltas contra Nabucodonosor II provocaram sucessivas campanhas militares. Jerusalém foi conquistada uma primeira vez em 597 a.C., quando parte da elite foi deportada, e definitivamente em 586 a.C., quando a cidade e o Templo foram destruídos e uma parcela significativa da população foi levada para a Babilônia.
Alguns reis foram apresentados pela tradição bíblica como fiéis a Javé, enquanto outros foram condenados por promover ou tolerar cultos a outras divindades.
Entre os reis mais importantes destacam-se Ezequias e Josias, associados a reformas religiosas que buscaram fortalecer o culto exclusivo a Javé e centralizar as práticas religiosas em Jerusalém. Apesar dessas tentativas, os autores bíblicos afirmam que a idolatria e a injustiça continuaram presentes no reino.
Nos séculos finais, Judá ficou sob crescente pressão de grandes impérios. Primeiro sofreu a influência assíria e, posteriormente, tornou-se subordinado à Babilônia. Após sucessivas revoltas contra o domínio babilônico, Jerusalém foi conquistada por Nabucodonosor II, o Templo foi destruído e parte significativa da população foi deportada para a Babilônia.
A expansão da Assíria e a coalisão de reinos anti-Assíria
A partir do século IX a.C. e, sobretudo, durante os séculos VIII e VII a.C., os reis assírios ampliaram progressivamente seus domínios por meio de campanhas militares, imposição de tributos e conquista direta de territórios.
Com a expansão, diversos reinos da região buscaram formar coalizões para resistir ao poder assírio. Israel, Damasco e outros Estados vizinhos participaram, em diferentes momentos, de alianças destinadas a conter ou enfrentar a Assíria. Uma das principais crises envolvendo Judá ocorreu quando reinos da Síria e de Israel tentaram formar uma aliança anti-assíria e pressionaram o rei Acaz, de Judá, a participar.
Acaz recusou-se a aderir à coalizão. Em resposta, os reis Rezim, de Damasco, e Peca, de Israel, atacaram Judá, no episódio conhecido como Guerra Siro-Efraimita. Diante da ameaça, Acaz procurou auxílio do rei assírio Tiglate-Pileser III. A intervenção assíria destruiu o poder de Damasco e enfraqueceu o Reino de Israel.
A tentativa de resistir coletivamente à expansão assíria acabou contribuindo para o aumento da influência da própria Assíria na região. A política de alianças e revoltas contra o império continuaria a marcar a história dos reinos de Israel e Judá, culminando, no Reino do Norte, com a conquista de Samaria pelos assírios em 722-720 a.C.
Em 722 a.C. a capital Samaria é destruída – O rei Oséias decide romper com o domínio assírio
No final do século VIII a.C., o Reino de Israel, no norte, encontrava-se sob o domínio do Império Assírio. O rei Oséias inicialmente aceitou a condição de vassalo e pagou tributos à Assíria. Posteriormente, porém, decidiu romper essa submissão e buscou apoio externo, especialmente do Egito, para resistir ao poder assírio.
O rei assírio Salmaneser V reagiu à tentativa de rebelião, prendeu Oséias e iniciou o cerco de Samaria, capital do Reino de Israel. A cidade resistiu durante cerca de três anos. Após a queda de Samaria, por volta de 722-720 a.C., os assírios conquistaram o reino e deportaram parte significativa de sua população para outras regiões do Império.
A tradição bíblica interpreta a destruição do Reino do Norte como consequência da infidelidade religiosa de Israel, especialmente do culto a outras divindades e da rejeição às advertências dos profetas.
Com a destruição de Samaria, o Reino de Israel deixou de existir como Estado independente, enquanto o Reino de Judá, ao sul, continuou existindo por mais de um século, embora sob crescente pressão das grandes potências da região.