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Judaísmo e cristianismo·Torá e Bíblia·42 min de leitura

As histórias dos livros do Antigo Testamento - Da criação a travessia do Mar Vermelho

Capa do texto “As histórias dos livros do Antigo Testamento - Da criação a travessia do Mar Vermelho”

Grande Pergaminho de Isaías, 125 a.C., um dos Manuscritos do Mar Morto, encontrado nas cavernas de Qumran, em 1947, Museu de Israel. Escrito em hebraico sobre pergaminho, contém os 66 capítulos do livro de Isaías

As histórias dos livros do Antigo Testamento

A criação do universo; a conclusão da criação; a criação de Adão e o Éden; a criação de Eva; a tentação e a queda; o julgamento divino e a expulsão do Éden

A Bíblia inicia sua narrativa afirmando que, no princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra encontrava-se sem forma e vazia, envolta em trevas, enquanto o Espírito de Deus pairava sobre as águas. A partir desse cenário primordial, Deus organiza o universo por meio de sua palavra criadora. No primeiro dia, faz surgir a luz e a separa das trevas, estabelecendo a alternância entre o dia e a noite. No segundo dia, cria o firmamento para separar as águas superiores das inferiores, chamando essa expansão de céu. No terceiro dia, reúne as águas em mares, fazendo aparecer a terra seca e cobrindo-a de vegetação, ervas e árvores frutíferas.

No quarto dia, Deus cria o Sol, a Lua e as estrelas para governarem o dia e a noite, servindo também como sinais para as estações, os dias e os anos. No quinto dia, cria os peixes e todas as criaturas marinhas, bem como as aves que voam pelos céus. No sexto dia, cria os animais terrestres e, por fim, o ser humano, homem e mulher, à sua imagem e semelhança, concedendo-lhes domínio sobre toda a criação e ordenando que se multiplicassem e enchessem a terra. Concluída a obra da criação, Deus descansa no sétimo dia, abençoando-o e santificando-o.

Em seguida, o livro de Gênesis apresenta um relato mais detalhado da criação da humanidade. Deus forma o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o fôlego da vida, tornando-o um ser vivente. Depois planta um jardim no Éden, um lugar de abundância e beleza, onde coloca o homem para cultivá-lo e guardá-lo. No centro do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus permite que o homem coma livremente dos frutos de todas as árvores, mas proíbe que coma do fruto da árvore do conhecimento, advertindo que, no dia em que o fizesse, morreria.

Ao perceber que não era bom que o homem permanecesse sozinho, Deus traz diante dele todos os animais para que lhes desse nome, demonstrando sua autoridade sobre a criação. Contudo, entre todas as criaturas não se encontrou uma companheira adequada para ele. Então Deus faz o homem cair em profundo sono, retira uma de suas costelas e, a partir dela, forma a mulher, apresentando-a ao homem como sua companheira. O casal vivia em perfeita harmonia com Deus e entre si, estando ambos nus, sem experimentar vergonha.

A paz do jardim é interrompida quando a serpente se aproxima da mulher e questiona a ordem divina. Ela convence Eva de que o fruto proibido não causaria a morte, mas abriria seus olhos e a tornaria semelhante a Deus, conhecedora do bem e do mal. Seduzida pela promessa de sabedoria, Eva toma do fruto e come, oferecendo-o também a Adão, que igualmente o come. Imediatamente, os olhos de ambos se abrem, e eles percebem que estão nus. Tomados pela vergonha, costuram folhas de figueira para fazer cintas e procuram esconder sua condição.

Quando ouvem a voz de Deus caminhando pelo jardim, Adão e Eva escondem-se entre as árvores. Deus chama Adão e o interroga sobre sua desobediência. O homem atribui a culpa à mulher, enquanto Eva responsabiliza a serpente. Em resposta, Deus pronuncia as consequências da transgressão. A serpente é amaldiçoada, condenada a rastejar e a viver em permanente inimizade com a descendência da mulher. Sobre a mulher recaem o aumento das dores do parto e as dificuldades que marcariam sua relação com o homem. Ao homem é anunciado que a terra produzirá plantas com folhas e hastes espinhosas, exigindo trabalho árduo para obter alimento. A partir daquele momento, o sustento dependeria do suor de seu rosto, até que retornasse ao pó, pois dele havia sido formado.

Antes de expulsá-los do jardim, Deus faz para Adão e Eva vestes de pele, substituindo as frágeis folhas que haviam confeccionado. Em seguida, declara que o ser humano havia passado a conhecer o bem e o mal e que não poderia permanecer no Éden e comer também da árvore da vida, vivendo eternamente em sua condição de pecado. Por isso, expulsa o casal do jardim e coloca querubins e uma espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida. A partir desse momento, Adão passa a cultivar a terra fora do Éden, inaugurando uma nova etapa da história humana, marcada pelo trabalho, pela mortalidade e pela ruptura da comunhão perfeita que existia entre Deus e a humanidade no princípio.

Caim e Abel; o homicídio e a condenação de Caim; a genealogia de Caim; os descendentes de Lameque e o desenvolvimento da civilização; o nascimento de Sete; a genealogia setita; a figura de Enoque; e Matusalém, Lameque e Noé

Após a expulsão do Jardim do Éden, Adão e Eva iniciam a história da humanidade fora do paraíso. Seu primeiro filho recebeu o nome de Caim, e, posteriormente, nasceu Abel. Os dois irmãos seguiram ocupações distintas: Caim tornou-se lavrador, cultivando a terra, enquanto Abel dedicou-se à criação de rebanhos. Em determinado momento, ambos ofereceram sacrifícios a Deus. Caim apresentou parte dos frutos da terra, ao passo que Abel ofereceu as primícias de seu rebanho e a gordura dos animais. O texto bíblico afirma que Deus atentou para a oferta de Abel, mas não para a de Caim, fato que despertou neste profundo ressentimento e inveja.

Percebendo a ira de Caim, Deus o advertiu de que o pecado estava à sua porta e que cabia a ele dominá-lo. Apesar da advertência, Caim convidou o irmão para ir ao campo e ali o assassinou, tornando-se o primeiro homicida da narrativa bíblica. Quando Deus perguntou pelo paradeiro de Abel, Caim respondeu com a célebre pergunta: "Acaso sou eu o guardador do meu irmão?". Como consequência de seu crime, foi amaldiçoado e condenado a tornar-se errante e fugitivo sobre a terra. Temendo ser morto por quem o encontrasse, recebeu de Deus um sinal protetor para que ninguém o matasse em vingança. Em seguida, retirou-se da presença do Senhor e passou a habitar na terra de Node, a leste do Éden.

A narrativa prossegue apresentando a descendência de Caim. Seu filho foi Enoque, em homenagem ao qual Caim edificou uma cidade, considerada a primeira cidade mencionada na Bíblia. A genealogia continua com Irade, Meujael, Metusael e Lameque. Este último destaca-se por introduzir a poligamia, tomando para si duas esposas, Ada e Zilá.

Dos descendentes de Lameque surgem importantes atividades da civilização primitiva. Jabal tornou-se o ancestral dos que habitam em tendas e criam rebanhos; Jubal foi considerado o pai dos músicos que tocam lira e flauta; e Tubalcaim destacou-se como o primeiro artesão a trabalhar o bronze e o ferro. Também é mencionada Naamá, irmã de Tubalcaim. Apesar desses avanços culturais e tecnológicos, a violência permanece como característica marcante da linhagem de Caim. Lameque vangloria-se de haver matado um homem por tê-lo ferido e proclama que, se Caim seria vingado sete vezes, ele seria vingado setenta e sete vezes, revelando uma escalada da violência iniciada com o assassinato de Abel.

Após a morte de Abel e o afastamento de Caim, Adão e Eva tiveram outro filho, chamado Sete. Eva declarou que Deus lhe concedera um novo descendente em lugar de Abel, morto por Caim. A linhagem de Sete passa a ocupar posição central na narrativa bíblica, pois dela descenderão Noé e Abrão. O texto afirma ainda que Sete teve um filho chamado Enos e que, em seus dias, "começou-se a invocar o nome do Senhor", indicando um renovado desenvolvimento da vida religiosa entre os seres humanos.

É apresenta a genealogia dos descendentes de Sete, estruturada segundo um padrão repetitivo: cada patriarca gera seu sucessor, vive muitos anos, tem outros filhos e filhas e, por fim, morre. A sequência inicia-se com Adão, seguido por Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Matusalém, Lameque e Noé.

Entre todos os descendentes de Sete, Enoque ocupa lugar singular. Diferentemente dos demais patriarcas, sobre ele não se afirma que morreu. O texto declara que Enoque "andou com Deus" durante trezentos anos e que, depois disso, Deus o tomou para si. Essa breve observação transformou Enoque em uma das figuras mais enigmáticas da tradição bíblica e deu origem, nos séculos posteriores, a numerosas tradições judaicas e cristãs acerca de sua ascensão ao céu e de sua sabedoria.

Outro personagem de destaque é Matusalém, apresentado como o homem de maior longevidade da Bíblia, vivendo novecentos e sessenta e nove anos. Seu filho Lameque tornou-se pai de Noé, atribuindo-lhe esse nome com a esperança de que ele trouxesse alívio ao trabalho e ao sofrimento decorrentes da maldição lançada sobre a terra após a queda de Adão. Com o nascimento de Noé, encerra-se a genealogia dos descendentes de Sete e inicia-se uma nova etapa da narrativa bíblica, que culminará no relato da corrupção da humanidade e no dilúvio universal.

A corrupção da humanidade; o dilúvio e a aliança com Noé; os descendentes de Noé; Ninrode e os primeiros reinos; a construção da Torre de Babel; a confusão das línguas; a genealogia de Sem; Ur e a família de Abrão; e o chamado e as promessas feitas por Deus a Abrão

À medida que a população humana crescia sobre a terra, também aumentavam a violência e a corrupção moral. O livro de Gênesis afirma que os pensamentos e as intenções do coração humano eram continuamente inclinados para o mal. A injustiça e a perversidade espalharam-se de tal maneira que a terra se encheu de violência. Diante desse cenário, Deus decidiu julgar a humanidade por meio de um grande dilúvio, preservando apenas Noé, descrito como homem justo e íntegro entre seus contemporâneos, juntamente com sua família.

Seguindo as instruções divinas, Noé construiu uma grande arca, na qual entraram sua esposa, seus três filhos – Sem, Cam e Jafé –, suas noras e representantes de todas as espécies de animais. Após quarenta dias e quarenta noites de chuva, as águas cobriram a terra, destruindo toda a vida existente fora da arca. Quando o dilúvio terminou, Deus estabeleceu uma aliança com Noé e seus descendentes, prometendo nunca mais destruir toda a humanidade por meio das águas. Como sinal dessa aliança, colocou o arco-íris nas nuvens.

Depois do dilúvio, a humanidade recomeça a partir dos três filhos de Noé. O capítulo conhecido como "Tabela das Nações" (Gênesis 10) apresenta a origem dos diversos povos do mundo antigo segundo a tradição bíblica. Os descendentes de Jafé estabeleceram-se principalmente nas regiões ao norte e a oeste do Crescente Fértil, sendo associados aos povos da Ásia Menor, das ilhas do Mediterrâneo e de partes da Europa. Os descendentes de Cam ocuparam o Egito, a Núbia, Canaã e outras regiões da África e do Oriente Próximo. Já os descendentes de Sem estabeleceram-se na Mesopotâmia, na Síria e na Península Arábica, tornando-se os ancestrais dos povos semitas, entre os quais os hebreus.

Entre os descendentes de Cam destaca-se Ninrode, descrito como poderoso caçador e fundador de um dos primeiros grandes reinos da Mesopotâmia. Seu domínio teve início em Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar, região correspondente ao sul da Mesopotâmia. A tradição bíblica associa essa região ao desenvolvimento das primeiras cidades e dos grandes centros urbanos do antigo Oriente Próximo.

Em seguida, o livro de Gênesis relata que toda a humanidade falava uma única língua e utilizava as mesmas palavras. Ao migrarem para o Oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sinar e decidiram construir uma cidade com uma torre cujo topo alcançasse os céus. O objetivo era tornar célebre o próprio nome e impedir que fossem dispersos pela terra. Utilizando tijolos cozidos e betume como argamassa, iniciaram a construção daquele grande monumento, símbolo da unidade e da ambição humanas.

Deus, porém, ao ver a cidade e a torre, confundiu a linguagem dos construtores, fazendo com que deixassem de compreender uns aos outros. Como consequência, a obra foi interrompida e os povos dispersaram-se por toda a terra. A cidade recebeu o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de toda a humanidade.

Após a narrativa da Torre de Babel, o texto bíblico volta-se para a genealogia dos descendentes de Sem, estreitando progressivamente o foco até uma única família. A sequência genealógica passa por Arfaxade, Selá, Héber, Pelegue, Reú, Serugue, Naor e Terá, preparando o cenário para a história de Abrão.

Terá vivia na importante cidade de Ur dos Caldeus, localizada no sul da Mesopotâmia, às margens do rio Eufrates. Ur era um dos maiores centros urbanos do mundo antigo, destacando-se por sua prosperidade econômica, intenso comércio, monumental arquitetura e pelo culto ao deus-lua Nanna (Sin). Foi nesse ambiente marcado pela religião mesopotâmica que viveu Abrão, filho de Terá, juntamente com sua esposa Sarai e seu sobrinho Ló. Posteriormente, a família deixou Ur e estabeleceu-se em Harã, importante cidade situada no norte da Mesopotâmia, onde Terá, pai de Abrão, permaneceu até sua morte.

Após a morte de Terá, Deus dirigiu-se a Abrão e ordenou-lhe que deixasse sua terra, sua parentela e a casa de seu pai para seguir em direção à terra que lhe seria mostrada. Em troca de sua obediência, Deus fez uma série de promessas: faria de Abrão uma grande nação, abençoaria seu nome, conceder-lhe-ia uma descendência numerosa e transformaria sua vida em instrumento de bênção para todas as famílias da terra. Também prometeu dar sua proteção aos que o abençoassem e julgar aqueles que o amaldiçoassem. Confiando na palavra divina, Abrão partiu de Harã em direção à terra de Canaã, iniciando a trajetória dos patriarcas e da história do povo de Israel.

A saída de Ur e a chegada a Canaã; a permanência em Canaã e a separação de Ló; Ló em Sodoma; o nascimento de Ismael; a renovação da aliança; o anúncio do nascimento de Isaque; a intercessão de Abraão por Sodoma; a perversidade de Sodoma; a destruição de Sodoma e Gomorra e o livramento de Ló; e o nascimento de Isaque

A história dos patriarcas tem início com Terá, pai de Abrão, que deixou a cidade de Ur dos Caldeus, no sul da Mesopotâmia, levando consigo sua família em direção à terra de Canaã. Acompanhavam-no seu filho Abrão, sua nora Sarai e seu neto Ló, filho de Harã. A viagem, contudo, foi interrompida quando o grupo chegou à cidade de Harã, no norte da Mesopotâmia, onde Terá permaneceu até sua morte. Somente após esse acontecimento Deus chamou Abrão para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, conduzindo-o à terra que lhe mostraria. Em obediência ao chamado divino, Abrão partiu de Harã aos setenta e cinco anos de idade, acompanhado de Sarai, de Ló, de seus servos e de todos os seus bens, estabelecendo-se na terra de Canaã.

Ao chegar a Canaã, Abrão percorreu diversas regiões, passando por Siquém, Betel e o Neguebe. Deus apareceu ao patriarca e prometeu entregar aquela terra à sua descendência, promessa que levou Abrão a erguer altares em adoração. Posteriormente, uma grande fome atingiu Canaã, obrigando-o a refugiar-se temporariamente no Egito. Após retornar, tanto Abrão quanto Ló haviam acumulado grandes riquezas em rebanhos e servos, tornando difícil a convivência entre seus pastores. Para evitar conflitos, Abrão propôs uma separação amigável, concedendo a Ló o direito de escolher a região onde desejasse habitar.

Ló escolheu a fértil planície do rio Jordão, estabelecendo-se nas proximidades da cidade de Sodoma. A região era conhecida por sua abundância de água e fertilidade. Entretanto, o texto bíblico ressalta que os habitantes de Sodoma eram extremamente perversos e viviam em constante rebelião contra Deus. Enquanto Ló passou a viver entre os habitantes da cidade, Abrão permaneceu em Canaã, onde Deus renovou sua promessa de lhe conceder uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu e os grãos de areia da terra.

Como Sarai permanecia estéril e ambos já eram idosos, ela ofereceu sua serva egípcia Agar para que Abrão tivesse um filho por meio dela, conforme os costumes da época. Agar concebeu e deu à luz Ismael. O nascimento do menino, porém, provocou tensões dentro da família, agravadas pelos conflitos entre Sarai e Agar. Apesar disso, Deus prometeu fazer de Ismael o pai de uma grande nação, embora declarasse que sua aliança principal seria estabelecida por meio do filho que ainda nasceria de Sara.

Mais tarde, Deus renovou sua aliança com Abrão, mudando seu nome para Abraão, que significa "pai de muitas nações", e o de Sarai para Sara. Instituiu também a circuncisão como sinal permanente da aliança entre Deus e seus descendentes. Nessa ocasião, anunciou que Sara, apesar de sua idade avançada, daria à luz um filho, por meio do qual seriam confirmadas todas as promessas da aliança.

Pouco tempo depois, três visitantes chegaram à tenda de Abraão. O patriarca ofereceu-lhes hospitalidade e, durante a refeição, um deles anunciou que, no ano seguinte, Sara teria um filho. Ao ouvir a promessa, Sara riu intimamente, considerando impossível gerar uma criança em sua velhice. O Senhor, porém, declarou que nada é impossível para Deus e confirmou que sua promessa seria cumprida.

Após a visita, Deus revelou a Abraão que o clamor contra Sodoma e Gomorra havia chegado até ele em razão da extrema perversidade de seus habitantes. Abraão intercedeu pelas cidades, perguntando se Deus as destruiria caso ali fossem encontrados cinquenta justos. Em sucessivas intercessões, reduziu esse número até dez, e Deus respondeu que pouparia as cidades se nelas fossem encontrados dez homens justos. Contudo, nem mesmo esse número foi encontrado.

Dois anjos dirigiram-se então a Sodoma, onde foram recebidos por Ló. Durante a noite, os homens da cidade cercaram sua casa, exigindo que os visitantes lhes fossem entregues para serem violentados. Diante dessa demonstração extrema de perversidade, os anjos anunciaram a destruição iminente da cidade e ordenaram que Ló reunisse sua família e fugisse sem olhar para trás.

Ao amanhecer, Ló, sua esposa e suas duas filhas foram conduzidos para fora da cidade. Enquanto fugiam, Deus fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra, destruindo completamente as cidades da planície. A esposa de Ló, porém, desobedeceu à ordem divina e olhou para trás, transformando-se em uma estátua de sal. Ló e suas duas filhas refugiaram-se nas montanhas, escapando do julgamento que atingiu as cidades.

Algum tempo depois, conforme a promessa divina, Sara concebeu e deu à luz um filho na velhice. Abraão deu-lhe o nome de Isaque, que significa "ele ri", recordando tanto o riso de incredulidade quanto a alegria provocada pelo cumprimento da promessa. O nascimento de Isaque marcou o início da linhagem da aliança estabelecida por Deus com Abraão, tornando-o o herdeiro das promessas divinas e o patriarca por meio do qual se desenvolveria a história do povo de Israel.

A fidelidade de Abraão, o sacrifício de Isaque, o seu casamento com Rebeca, e a sua família

Abraão é aquele que recebeu de Deus a promessa de que sua descendência seria numerosa e de que, por meio dele, seriam abençoadas todas as famílias da terra. Mesmo diante das dificuldades, Abraão continuou sua caminhada guiado pela fé. Deus estabeleceu uma aliança com ele e prometeu que Sara lhe daria um filho, embora ambos já fossem idosos. O nascimento de Isaque representou, portanto, o cumprimento de uma promessa que parecia humanamente impossível.

Quando Isaque ainda era jovem, Deus colocou Abraão à prova. Ele ordenou que Abraão levasse seu filho à terra de Moriá e o oferecesse em sacrifício. Isaque era o filho por meio do qual Deus havia prometido formar sua descendência e, mesmo assim, Abraão demonstrou disposição para obedecer à ordem divina.

Abraão levou Isaque consigo, juntamente com a lenha destinada ao sacrifício. Durante o caminho, Isaque percebeu que havia lenha e fogo, mas não havia um animal para ser oferecido. Ao perguntar ao pai onde estava o cordeiro para o holocausto, Abraão respondeu que Deus providenciaria o animal. Ao chegarem ao local determinado, Abraão preparou o altar, colocou a lenha e amarrou Isaque, preparando-se para oferecê-lo.

Quando estendeu a mão para sacrificar o filho, porém, um anjo do Senhor o chamou e impediu que o matasse. Abraão então viu um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos e o ofereceu em lugar de Isaque.

Depois desse acontecimento, Deus reafirmou sua promessa a Abraão, declarando que sua descendência seria numerosa e que, por meio dela, seriam abençoadas as nações. A narrativa reforça, assim, a importância da confiança de Abraão em Deus, mesmo diante de uma situação que colocava em risco justamente o filho por meio do qual a promessa deveria ser cumprida.

Posteriormente, Sara morreu, e Abraão providenciou um lugar para sepultá-la na terra de Canaã. Depois da morte de Sara, Abraão procurou uma esposa para Isaque. Como desejava que seu filho se casasse com uma mulher pertencente à sua parentela, enviou seu servo à região onde viviam seus familiares, na Mesopotâmia.

O servo de Abraão chegou a uma cidade e, junto a um poço, pediu a Deus um sinal para identificar a mulher escolhida para Isaque. Nesse momento, apareceu Rebeca, filha de Betuel e irmã de Labão. Ela ofereceu água ao servo e se dispôs a retirar água para os seus camelos, demonstrando hospitalidade e disposição para ajudá-lo. O servo reconheceu nesse acontecimento um sinal de que Deus havia conduzido sua viagem.

Rebeca aceitou acompanhar o servo e foi levada até Canaã. Quando chegou, encontrou Isaque no campo. Isaque recebeu Rebeca como esposa e, segundo o relato de Gênesis, passou a amá-la. O casamento de Isaque e Rebeca deu continuidade à família por meio da qual se desenvolveriam as promessas feitas anteriormente a Abraão.

Durante algum tempo, porém, Rebeca não conseguia ter filhos. Isaque orou a Deus por sua esposa, e Rebeca finalmente engravidou. A gravidez foi difícil, pois os filhos lutavam dentro dela. Ao consultar o Senhor, recebeu a explicação de que havia duas nações em seu ventre e que o mais velho serviria ao mais novo.

Rebeca deu à luz dois filhos. O primeiro nasceu avermelhado e coberto de pelos e recebeu o nome de Esaú. Em seguida, nasceu seu irmão, que segurava o calcanhar de Esaú, recebendo o nome de Jacó. Os dois irmãos apresentariam personalidades e trajetórias bastante diferentes.

Esaú tornou-se habilidoso na caça e era apreciado por Isaque, enquanto Jacó permanecia mais ligado à vida doméstica e era especialmente querido por Rebeca. A diferença entre os irmãos seria importante para o desenvolvimento da narrativa posterior, especialmente em relação ao direito de primogenitura e à bênção paterna.

A disputa entre os dois irmãos começaria ainda na juventude e envolveria o direito de primogenitura e, posteriormente, a bênção de Isaque. Jacó acabaria ocupando uma posição central na história de Israel, pois seus descendentes seriam identificados como as doze tribos de Israel.

Dessa maneira, a narrativa do Gênesis estabelece uma sequência na história dos patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. A promessa inicialmente feita a Abraão passa por Isaque e, posteriormente, alcança Jacó, cuja descendência dará origem às tribos de Israel.

Jacó, a primogenitura, a luta com Deus e seus filhos

A história de Jacó e Esaú prossegue com a disputa pelo direito de primogenitura. Embora Esaú fosse o filho mais velho, Jacó desejava obter a posição que tradicionalmente pertencia ao primogênito. Certo dia, Esaú voltou do campo cansado e encontrou Jacó preparando um ensopado. Faminto, pediu ao irmão que lhe desse um pouco da comida. Jacó, então, propôs uma troca: daria o alimento em troca do direito de primogenitura.

Esaú, considerando que estava prestes a morrer de fome, aceitou a proposta e vendeu a Jacó seu direito de primogenitura em troca do ensopado.

Posteriormente, Jacó também recebeu a bênção de seu pai, Isaque. Como Isaque já estava velho e quase não enxergava, Jacó, seguindo a orientação de sua mãe, Rebeca, apresentou-se diante do pai como se fosse Esaú e recebeu a bênção destinada ao filho mais velho. Quando Esaú descobriu o que havia acontecido, ficou revoltado e decidiu matar o irmão depois da morte de Isaque.

Temendo pela vida de Jacó, Rebeca o enviou para a região de Padã-Arã, onde viviam seus parentes. Jacó partiu e, durante sua viagem, chegou a um lugar onde passou a noite. Ali teve um sonho no qual viu uma escada que ligava a terra ao céu, com anjos subindo e descendo por ela. Deus apareceu a Jacó e reafirmou as promessas feitas anteriormente a Abraão e Isaque, prometendo-lhe uma grande descendência e assegurando que estaria com ele em sua jornada.

Jacó chegou à casa de Labão, irmão de sua mãe, e ali se apaixonou por Raquel, filha de Labão. Trabalhou durante sete anos para poder se casar com ela. Entretanto, Labão enganou Jacó e lhe entregou Lia, sua filha mais velha. Depois, Jacó também se casou com Raquel, passando a viver com as duas irmãs. Além delas, Jacó teve filhos com suas servas, Bila e Zilpa.

A família de Jacó cresceu rapidamente. Com Lia, nasceram Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom, além de Diná, sua filha. Com Bila, serva de Raquel, nasceram Dã e Naftali. Com Zilpa, serva de Lia, nasceram Gade e Aser. Finalmente, Raquel deu à luz José. Assim, antes do nascimento de Benjamim, Jacó já tinha onze filhos homens, além de sua filha Diná.

Depois de muitos anos vivendo com Labão, Jacó decidiu retornar à terra de Canaã. A viagem foi acompanhada pelo temor de reencontrar Esaú, pois ainda carregava consigo a lembrança do conflito entre os dois irmãos. Ao saber que Esaú vinha ao seu encontro acompanhado de quatrocentos homens, Jacó ficou angustiado e tomou medidas para proteger sua família e seus bens.

Naquela noite, Jacó atravessou o rio Jaboque e ficou sozinho. Então ocorreu um episódio misterioso, no qual Jacó lutou durante toda a noite com uma figura descrita no texto bíblico como um homem. A luta terminou apenas ao amanhecer. Quando percebeu que não conseguiria vencer Jacó, o homem tocou-lhe na articulação da coxa, deixando-o manco.

Mesmo ferido, Jacó não permitiu que a figura partisse sem antes receber sua bênção. Então perguntou seu nome. Em resposta, recebeu uma nova identidade: não seria mais chamado apenas de Jacó, mas de Israel, porque havia lutado com Deus e com os homens e havia prevalecido. O lugar onde o episódio aconteceu recebeu o nome de Peniel, porque Jacó afirmou ter visto Deus face a face e, ainda assim, ter sobrevivido.

A mudança do nome de Jacó para Israel possui grande importância na narrativa bíblica. A partir desse momento, Israel passa a ser não apenas o nome de um indivíduo, mas também o nome associado à futura nação formada por seus descendentes. Os filhos de Jacó tornar-se-ão os antepassados das tribos de Israel.

Depois do encontro com a figura misteriosa, Jacó finalmente se encontrou com Esaú. O reencontro, ao contrário do que Jacó temia, não terminou em violência. Esaú correu ao encontro do irmão, abraçou-o e ambos choraram. Dessa maneira, depois de muitos anos de separação, os dois irmãos conseguiram reconciliar-se.

Filho de Isaque e neto de Abraão, Jacó passou de um homem envolvido em disputas familiares para aquele que receberia o nome de Israel.

Labão, Jacó e a história de José

Depois de fugir da casa de seus pais, Jacó chegou à região onde vivia Labão, irmão de sua mãe, Rebeca. Labão, tio de Jacó, se tornaria posteriormente seu sogro. Ao chegar à casa de seu tio, Jacó conheceu Raquel, filha de Labão, por quem se apaixonou. Para poder se casar com ela, concordou em trabalhar para Labão durante sete anos.

Entretanto, depois de cumprido o período combinado, Labão enganou Jacó. Em vez de lhe entregar Raquel, deu-lhe Lia, sua filha mais velha. Quando Jacó percebeu o que havia acontecido, reclamou com Labão. O sogro explicou que, segundo o costume daquele lugar, a filha mais velha deveria se casar antes da mais nova. Jacó então também recebeu Raquel como esposa, comprometendo-se a trabalhar mais sete anos para Labão.

Ao longo dos anos, Jacó teve filhos com Lia, Raquel e com as servas das duas mulheres. Dessa família nasceriam os filhos que posteriormente seriam associados às doze tribos de Israel. Entre eles estava José, filho de Raquel, que ocupava uma posição especial no coração de Jacó.

Jacó teve, ao todo, doze filhos homens. Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom nasceram de Lia; Dã e Naftali nasceram de Bila; Gade e Aser nasceram de Zilpa; e José e Benjamim nasceram de Raquel. Além dos doze filhos, Jacó teve uma filha chamada Diná. A partir desses descendentes, desenvolver-se-ia a tradição das doze tribos de Israel.

José era ainda jovem quando começou a ter sonhos que chamaram a atenção de sua família. Em um deles, ele sonhou que estava no campo com seus irmãos, e os feixes de trigo que pertenciam aos irmãos se inclinavam diante do seu feixe. Em outro sonho, José viu o Sol, a Lua e onze estrelas se inclinando diante dele. Esses sonhos foram interpretados como uma indicação de que, no futuro, seus irmãos e até mesmo sua família se submeteriam a ele.

Os irmãos de José ficaram incomodados com esses sonhos. A situação era agravada pelo fato de Jacó demonstrar preferência por José. Como sinal de seu carinho especial, Jacó lhe deu uma túnica de muitas cores. Esse presente tornou ainda mais evidente a preferência do pai por José e aumentou o ressentimento dos seus irmãos.

Os irmãos passaram a sentir inveja e ódio de José, especialmente porque acreditavam que os sonhos indicavam que ele poderia ocupar uma posição superior à deles. Certo dia, quando os irmãos estavam cuidando dos rebanhos longe de casa, Jacó enviou José para verificar como eles estavam.

Quando os irmãos viram José se aproximando, começaram a planejar sua morte. Inicialmente, alguns deles pensaram em matá-lo e jogá-lo em uma cisterna, dizendo posteriormente ao pai que um animal selvagem o havia devorado. Rúben, entretanto, tentou impedir que José fosse morto e sugeriu que o colocassem em uma cisterna vazia, planejando posteriormente retirá-lo de lá.

Enquanto José estava na cisterna, os irmãos avistaram uma caravana de comerciantes que seguia em direção ao Egito. Judá sugeriu que, em vez de matar José, eles o vendessem como escravo. Os irmãos aceitaram a proposta e venderam José aos comerciantes.

Depois de venderem José, os irmãos pegaram sua túnica e a mergulharam no sangue de um animal. Em seguida, levaram a túnica até Jacó e perguntaram se ele a reconhecia. Ao vê-la, Jacó concluiu que José havia sido morto por alguma fera. Ele ficou abalado e lamentou a perda do filho durante muito tempo.

José, entretanto, não estava morto. Os comerciantes o levaram para o Egito e o venderam como escravo. Dessa maneira, aquele que havia sido o filho preferido de Jacó passou de uma posição privilegiada dentro da família para a condição de escravo em uma terra estrangeira.

A chegada de José ao Egito marca uma mudança decisiva na narrativa do Gênesis. Seus sonhos, que haviam provocado a inveja dos irmãos, começariam posteriormente a adquirir um significado diferente. José enfrentaria dificuldades, injustiças e a condição de escravo, mas sua trajetória no Egito acabaria desempenhando um papel fundamental na sobrevivência de sua própria família e na continuidade da história dos descendentes de Jacó.

José no Egito: Potifar, a esposa e a prisão

Depois de ser vendido pelos irmãos, José foi levado ao Egito e comprado por Potifar, um oficial do faraó e comandante da guarda. José passou a servir na casa de Potifar e, segundo o relato bíblico, demonstrou grande capacidade e responsabilidade. Com o tempo, conquistou a confiança de seu senhor, que lhe entregou a administração de sua casa e de todos os seus bens.

José era jovem e, segundo a narrativa de Gênesis, tinha uma aparência agradável. A esposa de Potifar passou a interessar-se por ele e tentou seduzi-lo. Ela o convidou para se deitar com ela, mas José recusou a proposta. Ele considerava que aceitar aquela relação seria uma grande injustiça contra Potifar, que havia confiado nele, e um pecado contra Deus.

A mulher de Potifar, porém, não desistiu. Dia após dia, insistia para que José cedesse aos seus desejos, mas ele continuava recusando. Em certa ocasião, quando José entrou na casa para realizar seu trabalho e não havia outros homens presentes, ela segurou suas roupas e tentou obrigá-lo a ficar com ela. José conseguiu escapar, deixando sua roupa nas mãos da mulher.

Diante da rejeição, a esposa de Potifar decidiu vingar-se de José. Ela chamou os homens da casa e afirmou que José havia tentado atacá-la. Para sustentar sua acusação, mostrou a roupa que ele havia deixado. Quando Potifar voltou para casa, ela repetiu a mesma história e acusou José de ter tentado abusar dela.

Potifar acreditou na acusação de sua esposa e ficou furioso. Como consequência, José foi levado para a prisão onde eram mantidos os presos do rei. Assim, aquele que havia conquistado uma posição de confiança na casa de Potifar passou novamente à condição de prisioneiro.

Mesmo na prisão, José continuou demonstrando responsabilidade e capacidade. O responsável pela prisão passou a confiar nele e entregou-lhe tarefas importantes. Dessa maneira, José conquistou novamente a confiança daqueles que estavam ao seu redor, apesar de estar privado de sua liberdade.

Foi nesse período que José entrou em contato com dois importantes funcionários do faraó que haviam sido presos: o copeiro-chefe e o padeiro-chefe. Ambos haviam ofendido o faraó e foram colocados na mesma prisão onde José estava.

Certa noite, o copeiro e o padeiro tiveram sonhos diferentes, e cada um ficou preocupado com o significado do próprio sonho. Na manhã seguinte, José percebeu a tristeza dos dois e perguntou o motivo. Eles responderam que haviam tido sonhos e não havia quem os interpretasse.

José afirmou que as interpretações pertenciam a Deus e pediu que eles lhe contassem os sonhos. A partir desse acontecimento, José começaria a demonstrar novamente a capacidade de interpretar sonhos.

A história de José, portanto, passa por uma sequência de acontecimentos marcada por mudanças: de filho preferido de Jacó a escravo no Egito; de escravo de Potifar a administrador de sua casa; e, depois de uma acusação falsa, de homem de confiança a prisioneiro. Mesmo assim, a narrativa bíblica apresenta José como alguém que continua demonstrando fidelidade, competência e confiança em Deus.

Por meio do copeiro, José teria a oportunidade de chegar até o próprio faraó e interpretar seus sonhos.

Os sonhos anunciavam que o Egito passaria por um período de grande prosperidade, seguido por uma longa e severa fome. José explicou ao faraó que haveria sete anos de abundância, durante os quais a terra produziria grandes colheitas, seguidos por sete anos de escassez, que atingiriam não apenas o Egito, mas também as regiões vizinhas.

Impressionado com a sabedoria de José, o faraó nomeou-o administrador de todo o Egito, colocando-o à frente da organização e do armazenamento dos alimentos. Durante os sete anos de fartura, José determinou que uma parte da produção das terras fosse recolhida e armazenada nas cidades. Dessa maneira, o Egito acumulou grandes reservas de trigo e de outros alimentos para enfrentar os anos de fome.

Quando chegaram os sete anos de escassez, a crise atingiu toda a região. As colheitas diminuíram, os alimentos tornaram-se cada vez mais difíceis de obter, e muitos povos começaram a procurar o Egito, que possuía reservas graças à administração de José. O faraó autorizou a venda dos mantimentos, e pessoas de diversas terras foram ao Egito em busca de comida.

A fome também atingiu Canaã, onde vivia Jacó com seus filhos. Sem alimentos suficientes, Jacó enviou seus filhos ao Egito para comprar mantimentos. Os irmãos de José desceram ao Egito sem saber que o homem responsável pela distribuição dos alimentos era justamente José, o irmão que haviam vendido muitos anos antes.

Ao chegarem diante de José, seus irmãos se curvaram perante ele, cumprindo-se, assim, aquilo que José havia visto em seus antigos sonhos. Entretanto, eles não o reconheceram, pois José havia passado muitos anos no Egito, adquirido uma posição de autoridade e assumido a aparência e os costumes de um importante administrador egípcio.

José, por sua vez, reconheceu seus irmãos. A partir desse encontro, começa uma nova etapa da narrativa: José passa a testar seus irmãos para descobrir se eles haviam mudado e, posteriormente, revela sua verdadeira identidade.

A história culminará na reconciliação da família e na ida de Jacó e de seus descendentes para o Egito. Dessa forma, a crise provocada pela fome acaba conduzindo a família de Jacó para o Egito, onde seus descendentes permanecerão durante várias gerações.

Os irmãos de José descem ao Egito; José recebe e acolhe os irmãos; Jacó, já idoso, vai para o Egito

A narrativa começa quando uma grande fome atinge Canaã e outras regiões do antigo Oriente Próximo. Jacó, que reside em Canaã com seus filhos, descobre que há alimentos disponíveis no Egito. Diante da escassez, ele envia dez de seus filhos ao Egito para comprar trigo, enquanto mantém Benjamim, filho de Raquel, sua esposa preferida e mãe de José, temendo que algo lhe acontecesse.

Os irmãos chegam ao Egito e comparecem diante de José, que havia se tornado uma autoridade importante na administração egípcia. Eles, entretanto, não o reconhecem. José, por sua vez, reconhece os irmãos, mas decide inicialmente não revelar sua identidade. Ele os interroga, acusa-os de serem espiões e exige que tragam ao Egito o irmão mais novo, Benjamim.

Depois de algumas idas e vindas entre Canaã e o Egito, os irmãos retornam levando Benjamim. É então que ocorre o reconhecimento e a reconciliação. José revela aos irmãos quem é, deixando-os aterrorizados. Ele, entretanto, não procura vingança. Afirma que, embora seus irmãos tivessem planejado fazer-lhe mal, sua chegada ao Egito acabou servindo para preservar a vida de muitas pessoas durante a fome. A narrativa transforma, assim, uma história de violência familiar em uma história de reconciliação e sobrevivência.

José manda então buscar Jacó e toda a família. Ele pede aos irmãos que retornem a Canaã e tragam o pai e suas famílias para o Egito, onde poderiam sobreviver aos anos de fome. Quando os irmãos retornam a Canaã, anunciam a Jacó que José está vivo. Durante muitos anos, Jacó acreditara que José estava morto e descobre que seu filho não apenas está vivo, mas ocupa uma posição de grande autoridade no Egito.

Jacó então decide partir para o Egito com toda a sua família. Antes da viagem, segundo a narrativa, ele oferece sacrifícios a Deus em Berseba e recebe a confirmação divina de que não deveria temer a descida ao Egito. Deus promete acompanhá-lo e afirma que dele fará uma grande nação.

O deslocamento de Jacó para o Egito não é apresentado como uma migração provocada pela fome. Na perspectiva narrativa, ele também faz parte do desenvolvimento da promessa feita anteriormente a Abraão, Isaque e ao próprio Jacó.

Quando Jacó chega ao Egito, José vai ao encontro do pai. A narrativa descreve a emoção de Jacó diante desse reencontro. Em seguida, José apresenta sua família ao faraó. Jacó e seus filhos recebem autorização para permanecer no Egito e se estabelecer na região de Gósen, uma área associada à criação de animais – a região não é situada no relato bíblico.

A família de Jacó começa a se estabelecer no Egito. José garante que eles tenham condições de sobreviver durante a fome. A narrativa afirma que os israelitas recebem terras e passam a viver na região de Gósen.

Com o passar do tempo, a família de Jacó se estabelece no Egito, adquire propriedades e se torna numerosa e próspera.

Os descendentes de Jacó prosperam no Egito; o faraó os submete a construir cidades de armazenamento e a realizar trabalhos pesados; o nascimento de Moisés; a filha do faraó encontra e depois cria o menino

Depois da chegada de Jacó e de sua família ao Egito, os descendentes se multiplicaram e prosperaram. Durante várias gerações, a família de Jacó transformou-se em um grupo numeroso. Com o passar do tempo, surgiu no Egito um novo faraó, que, segundo a narrativa bíblica, não conhecia José nem tinha qualquer consideração pelo papel que ele havia desempenhado no passado. O crescimento da população israelita passou a ser visto pelas autoridades egípcias como uma ameaça.

Temendo que os israelitas se tornassem numerosos demais e pudessem se unir aos inimigos do Egito em caso de guerra, o faraó decidiu submetê-los a trabalhos forçados. Os israelitas foram obrigados a construir cidades de armazenamento e a realizar trabalhos pesados. Apesar da opressão, porém, continuaram a se multiplicar. Quanto mais eram oprimidos, mais numerosos se tornavam, o que aumentou ainda mais o temor dos egípcios.

Diante disso, o faraó adotou uma medida ainda mais cruel. Ele ordenou às parteiras hebreias, chamadas Sifrá e Puá, que, quando ajudassem as mulheres israelitas durante o parto, matassem todos os meninos recém-nascidos, deixando vivas apenas as meninas. As parteiras, contudo, não obedeceram à ordem do faraó. Elas permitiram que os meninos sobrevivessem. Quando foram interrogadas pelo faraó sobre a razão de não terem cumprido sua determinação, responderam que as mulheres hebreias eram diferentes das egípcias e davam à luz antes que as parteiras chegassem.

O faraó então tornou pública uma ordem ainda mais abrangente: todo menino hebreu que nascesse deveria ser lançado no rio Nilo, enquanto as meninas poderiam permanecer vivas. É nesse contexto de perseguição que começa a história do nascimento de Moisés.

Um homem da tribo de Levi casou-se com uma mulher também pertencente à tribo de Levi. O casal teve um filho, e a mãe percebeu que a criança era saudável. Durante três meses, conseguiu escondê-lo para protegê-lo da ordem do faraó. Quando já não podia mais mantê-lo escondido, tomou uma cesta de papiro, revestiu-a com betume e piche para torná-la impermeável, colocou o menino dentro dela e a deixou entre os juncos, à margem do rio Nilo.

A irmã do menino permaneceu à distância, observando para descobrir o que aconteceria com ele. Nesse momento, a filha do faraó desceu ao rio para se banhar e, acompanhada de suas servas, viu a cesta entre os juncos. Mandou que uma de suas servas a trouxesse. Ao abrir a cesta, encontrou dentro dela um menino que estava chorando. A princesa percebeu que se tratava de uma criança pertencente aos hebreus, mas sentiu compaixão por ele e decidiu criá-lo.

A irmã do menino aproximou-se então da filha do faraó e perguntou se deveria chamar uma mulher hebreia para amamentar a criança. A princesa concordou. A menina chamou justamente a sua mãe, e do menino, embora a narrativa apresente essa identidade inicialmente sem revelá-la à filha do faraó. A própria mãe recebeu a tarefa de amamentar e cuidar da criança durante seus primeiros anos.

Quando o menino cresceu, sua mãe o levou à filha do faraó, que o adotou como filho. Foi então que recebeu o nome de Moisés, associado na narrativa ao fato de ter sido tirado das águas. Assim, aquele que deveria ter sido morto por causa da ordem do faraó foi preservado justamente dentro da própria casa do faraó.

Moisés se revolta com a opressão a um israelita e mata o opressor; se refugia em Midiã; Moisés se casa com a filha de Jetro, Zípora; Moisés encontra uma sarça ardente no deserto; Javé se revela a Moisés e diz que ele deve libertar os israelitas do Egito; Moisés e Arão vão até o faraó, e em nome de Javé, apresentam uma exigência que desafia diretamente a autoridade egípcia: que o faraó permita que os israelitas deixem o Egito

Embora tivesse tido a sua infância no Egito e de sua criação ter sido na casa do faraó, Moisés não era indiferente à situação de sua origem, e incomodava-se, visto que os hebreus estavam submetidos a trabalhos forçados e a uma dura opressão. Em determinado momento, ao presenciar um egípcio agredindo um hebreu, Moisés intervém e, tomado pela revolta, mata o egípcio. Depois, esconde o corpo na areia, tentando ocultar o que havia feito.

No dia seguinte, Moisés presencia uma discussão entre dois hebreus e tenta intervir. Um deles, porém, questiona sua autoridade e pergunta se ele pretendia matá-lo como havia matado o egípcio. Moisés percebe, então, que seu ato havia se tornado conhecido. Quando o faraó toma conhecimento do acontecimento e procura matá-lo, Moisés foge do Egito para escapar da punição.

Ele refugia-se na terra de Midiã – sua localização não pode ser determinada com precisão, provavelmente no atual noroeste da Arábia Saudita e sul da Jordânia e da península do Sinai. Ali, junto a um poço, encontra as filhas de um sacerdote de Midiã, que haviam ido buscar água para dar de beber ao rebanho de seu pai. Moisés as ajuda quando alguns pastores tentam afastá-las e, por causa desse gesto, é levado para a casa de seu pai, chamado Reuel ou Jetro na tradição bíblica. Moisés passa a viver entre os midianitas e se casa com Zípora, uma das filhas de Jetro. Com ela, constitui uma família e passa a trabalhar como pastor do rebanho de seu sogro.

É durante esse período de vida no deserto que ocorre a experiência que transforma o destino de Moisés. Enquanto conduz o rebanho pelo deserto, chega à região do monte Horebe, e percebe que uma sarça está em chamas, e que não é consumida pelo fogo. Intrigado, aproxima-se para observar.

Quando Moisés se aproxima da sarça, Javé se revela a ele. Deus o chama pelo nome, e Moisés responde. A divindade ordena que ele não se aproxime mais e que retire as sandálias dos pés, pois o lugar em que está é considerado sagrado. Javé então se apresenta como o Deus de seus antepassados, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.

A revelação continua, Javé afirma ter visto a aflição dos israelitas no Egito, ouvido seus clamores e conhecido seus sofrimentos. Por isso, declara que desceu para libertá-los da opressão egípcia e conduzi-los para uma terra fértil e abundante. Moisés, entretanto, não recebe apenas a promessa de que Deus libertará o povo: ele próprio é escolhido para participar dessa missão. Javé ordena que volte ao Egito e conduza os israelitas para fora da terra onde estão escravizados.

Moisés reage com hesitação. Ele questiona sua própria capacidade e pergunta quem é ele para comparecer diante do faraó e retirar os hebreus do Egito. Javé garante que estará com ele. Moisés também pergunta o que deverá dizer aos israelitas quando eles quiserem saber qual é o nome da divindade que o enviou. É nesse contexto que aparece a revelação do nome divino associada à fórmula “Eu sou o que sou” relacionada ao nome Javé.

Apesar das garantias divinas, Moisés continua apresentando objeções. Ele teme que os hebreus não acreditem nele e afirma que não possui facilidade para falar. Javé, então, concede sinais que deverão confirmar sua missão, e no caminho para o Egito, encontra Arão, seu irmão, que o acompanha.

A mãe de Moisés e Arão era chamada Joquebede (em hebraico, Yokheved), filha de Levi. Arão, porém, já havia nascido antes da ordem do faraó que determinava a morte dos meninos hebreus recém-nascidos, razão pela qual não foi atingido pelo decreto.

Moisés retorna ao Egito, e antes de se apresentar ao faraó, reúne-se com os anciãos dos hebreus e transmite a mensagem que recebeu de Javé. Eles reconhecem a ação da divindade e passam a depositar esperança na promessa de libertação.

Moisés e Arão comparecem diante do faraó. Em nome de Javé, apresentam uma exigência que desafia diretamente a autoridade egípcia: que o faraó permita que os hebreus deixem o Egito para prestar culto ao seu Deus no deserto. O faraó, porém, não aceita a exigência, e reage com resistência. A partir desse momento, inicia-se o confronto entre Moisés e o faraó, que constitui o núcleo da narrativa do Êxodo e conduz aos acontecimentos das pragas do Egito, à libertação dos israelitas e à saída do povo em direção ao deserto.

As pragas do Egito; Deus endurece o coração do faraó; a morte de todos os primogênitos, exceto os primogênitos israelitas; a marcação das casas dos israelitas; a Páscoa judaica; Deus abre o mar Vermelho para a passagem do povo; o faraó envia o seu exército que é destruído

O conflito entre Moisés e o faraó constitui o centro da narrativa das pragas do Egito. Depois de receber de Deus a missão de libertar os israelitas, filhos de Jacó – Israel – da escravidão, Moisés dirige-se ao faraó juntamente com Arão e exige que ele permita que o povo deixe o Egito. O faraó, porém, recusa-se a atender ao pedido. Diante dessa resistência, Javé decide enviar uma série de pragas sobre o Egito, com o objetivo de demonstrar seu poder e obrigar o faraó a libertar os israelitas.

Javé comunica previamente a Moisés aquilo que irá acontecer e lhe transmite as instruções que deverão ser seguidas. Moisés, por sua vez, transmite a mensagem ao faraó e, em várias ocasiões, realiza os gestos determinados por Deus. Arão também participa dessas ações, utilizando o cajado conforme as instruções recebidas. Dessa maneira, a narrativa apresenta Moisés e Arão como intermediários entre Javé e o faraó: eles anunciam as exigências de Deus e executam os sinais que desencadeiam as pragas.

As pragas sucedem-se umas às outras e atingem progressivamente o território egípcio. A água é transformada em sangue, surgem grandes quantidades de rãs, insetos e outras calamidades, doenças atingem pessoas e animais, o granizo destrói plantações, os gafanhotos devoram o que havia restado das colheitas e uma escuridão cobre o Egito. Cada uma dessas pragas aumenta a pressão sobre o faraó e demonstra, segundo a narrativa, a incapacidade do poder egípcio de impedir a ação de Javé.

O faraó resiste repetidamente. Em alguns momentos, ele parece disposto a permitir que os israelitas partam, especialmente quando a praga se torna insuportável. No entanto, quando a calamidade termina, ele volta atrás em sua decisão e continua recusando-se a libertar o povo. A narrativa explica essa resistência não apenas pela obstinação do próprio faraó, mas também pela ação de Javé, que endurece o seu coração. Dessa forma, a resistência do governante egípcio passa a fazer parte do próprio desenvolvimento do plano divino.

O endurecimento do coração do faraó possui, portanto, uma função importante na narrativa. Por um lado, caracteriza o faraó como um governante obstinado, incapaz de reconhecer a autoridade de Javé e disposto a manter os israelitas sob seu domínio. Por outro, permite que as pragas se sucedam e que o poder de Javé seja manifestado de maneira cada vez mais extraordinária. A narrativa afirma, assim, que os acontecimentos não são apenas uma disputa entre Moisés e o faraó, mas um confronto entre a autoridade de Javé e o poder do governante do Egito.

Moisés e Arão desempenham o papel de mensageiros e executores das ordens divinas, enquanto o faraó permanece como aquele que resiste à libertação. A cada nova praga, a tensão aumenta, até chegar ao momento decisivo em que a última calamidade: a morte dos primogênitos do Egito. Durante a noite, o primogênito de cada família egípcia morreria, desde o filho do próprio faraó até o primogênito dos escravos e dos animais. Os israelitas, porém, receberiam instruções específicas para proteger suas casas.

Moisés ordena que cada família israelita prepare um cordeiro. O animal deveria ser abatido e seu sangue colocado nas partes verticais da porta, uma de cada lado, e na parte horizontal superior, da porta da casa. Essa marca serviria como sinal para que o destruidor passasse adiante e não atingisse aquela residência. Assim, enquanto a morte atingiria os primogênitos egípcios, as casas dos israelitas marcadas pelo sangue seriam poupadas.

É nesse contexto que a narrativa apresenta a instituição da Páscoa (Pessach). Os israelitas deveriam comer o cordeiro assado, acompanhado de pães sem fermento e ervas amargas, estando preparados para partir. A Páscoa passa, então, a ser celebrada como memorial da passagem de Javé pelo Egito e, sobretudo, da libertação dos israelitas da escravidão.

Durante a noite, acontece a última praga. Todos os primogênitos do Egito morrem, incluindo o primogênito do faraó. Diante dessa tragédia, o faraó finalmente cede. Ele chama Moisés e Arão e ordena que os israelitas deixem o Egito. O povo, então, reúne seus pertences e parte rapidamente, levando também a massa do pão antes que ela pudesse fermentar.

A saída dos israelitas transforma-se em uma marcha. O povo deixa o Egito acompanhado de seus rebanhos e de seus bens. A narrativa descreve a presença de Deus conduzindo os fugitivos: durante o dia, uma coluna de nuvem os orientava pelo caminho e, durante a noite, uma coluna de fogo iluminava sua marcha. Assim, a libertação não é apresentada apenas como uma fuga da escravidão, mas como uma caminhada conduzida e protegida por Deus.

Entretanto, depois de permitir a saída dos israelitas, o faraó muda novamente de decisão. Ele percebe que havia perdido uma grande quantidade de trabalhadores e resolve persegui-los. Reúne seu exército, incluindo carros de guerra e cavaleiros, e parte em perseguição ao povo. Os israelitas, enquanto isso, chegam diante do mar Vermelho, ou, o mar dos Juncos. De um lado está o mar; do outro, aproxima-se o exército egípcio.

Diante dessa situação, os israelitas ficam aterrorizados e começam a questionar Moisés. Então, por ordem de Deus, Moisés estende sua mão sobre o mar.

Um forte vento sopra durante a noite e as águas se dividem, formando um caminho por onde os israelitas podem passar. O povo atravessa o mar em terra seca, enquanto as águas permanecem como uma espécie de muralha de cada lado.

O exército egípcio decide seguir os israelitas pelo caminho aberto no meio das águas. Os carros e os soldados entram no leito do mar, mas encontram dificuldades para avançar. Quando os israelitas já estão em segurança do outro lado, Deus ordena novamente que Moisés estenda a mão. As águas retornam ao seu lugar, cobrindo os carros, os cavaleiros e todo o exército do faraó. Os egípcios que haviam entrado no mar são destruídos, e os israelitas permanecem a salvo.