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Judaísmo e cristianismo·Torá e Bíblia·33 min de leitura

As histórias dos livros do Antigo Testamento - a dependência da Assíria no reinado de Acaz até o nascimento de Jesus no contexto do domínio romano

Capa do texto “As histórias dos livros do Antigo Testamento - a dependência da Assíria no reinado de Acaz até o nascimento de Jesus no contexto do domínio romano”

Obra: Moisés recebendo as Tábuas da Lei, do artista Luca Cambiaso, século XVI, Stadel Museum Desenho a pena, tinta e giz sobre papel

As histórias dos livros do Antigo Testamento

O Reino do Sul, Judá, a dependência da Assíria no reinado de Acaz

Após a destruição do Reino de Israel, no norte, o Reino de Judá permaneceu independente. Sua sobrevivência, porém, ocorreu em condições difíceis, sob a constante pressão do Império Assírio.

Segundo a narrativa bíblica, Judá já havia se tornado dependente da Assíria durante o reinado de Acaz. Quando os reis de Israel e da Síria tentaram obrigá-lo a participar de uma coalizão contra os assírios, Acaz pediu ajuda a Tiglate-Pileser III. A Assíria interveio militarmente, derrotou Damasco e enfraqueceu Israel, mas Judá passou a pagar tributos e tornou-se, na prática, um reino vassalo do império.

Judá continuou existindo, mas permaneceu sob forte influência assíria. Durante o reinado de Ezequias, surgiu uma tentativa de recuperar maior independência. Ezequias promoveu reformas internas e deixou de pagar tributos à Assíria, o que provocou a reação do rei Senaqueribe.

Em 701 a.C., o exército assírio invadiu Judá, conquistou cidades e cercou Jerusalém. Ezequias buscou Javé e recebeu a garantia do profeta Isaías de que Jerusalém seria preservada. O relato afirma que uma intervenção divina atingiu o exército assírio, obrigando Senaqueribe a retornar para sua terra.

Embora Jerusalém tenha sobrevivido, Judá sofreu perdas territoriais e econômicas e continuou submetido, em diferentes graus, à influência e ao poder da Assíria. A sobrevivência do reino durante esse período resultou, portanto, de uma combinação de diplomacia, pagamento de tributos, adaptação à condição de vassalo e, em determinados momentos, resistência militar.

Durante aproximadamente um século após a destruição do Reino de Israel, Judá conseguiu manter sua dinastia, sua capital em Jerusalém e suas instituições religiosas, enquanto a Assíria dominava grande parte do Oriente Próximo. A situação só começou a mudar com o enfraquecimento e posterior colapso do Império Assírio, no final do século VII a.C.

A destruição do Reino de Israel – O domínio do Império Neoassírio – Ezequias, rei de Judá, quer romper ou reduzir a submissão de Judá à Assíria – Os assírios destroem cidades de Judá e cercam Jerusalém; Jerusalém não é tomada – Manassés e Amon sucedem Ezequias – A queda do Império Assírio – A influência egípcia na região – A Babilônia passa a ocupar o lugar anteriormente exercido pela Assíria – A destruição de Jerusalém por Nabucodonosor II – O rei Joaquim é levado para a Babilônia juntamente com membros da elite política, militar e religiosa do reino – Zedequias passa a governar Judá como rei vassalo da Babilônia

Durante o século VIII a.C., o Reino de Judá encontrava-se inserido na esfera de poder do Império Neoassírio, que havia se transformado na principal potência política e militar do Oriente Próximo. A expansão assíria havia alcançado o Levante e, em 722 a.C., culminara na conquista de Samaria e na destruição do Reino de Israel. Com a queda do Reino do Norte, Judá passou a ocupar uma posição delicada diante da Assíria, tendo de reconhecer a supremacia do império e adaptar sua política às exigências de seus soberanos.

Ezequias tornou-se rei de Judá por volta de 715 a.C., em um contexto marcado pelo predomínio assírio. Durante boa parte de seu reinado, Judá permaneceu submetido à influência política e militar da Assíria. Entretanto, a situação começou a se modificar após a morte de Sargão II, em 705 a.C. A sucessão provocou instabilidade em diversas regiões submetidas ao domínio assírio, e vários povos aproveitaram o momento para tentar recuperar maior autonomia. Ezequias parece ter percebido nessa mudança uma oportunidade para reduzir ou romper a submissão de Judá à Assíria.

Segundo 2 Reis 18, Ezequias deixou de servir ao rei da Assíria e adotou uma política de resistência. A preparação para um eventual confronto não se limitou à esfera militar. O rei fortaleceu as defesas de Jerusalém, organizou seus recursos e procurou assegurar o abastecimento de água da cidade. Uma das principais medidas associadas a esse período foi a construção do chamado túnel de Ezequias, destinado a conduzir para dentro de Jerusalém as águas da fonte de Giom. A obra aumentava a capacidade da capital de resistir a um eventual cerco. Ao mesmo tempo, Ezequias procurou estabelecer alianças com outros grupos e reinos que também se opunham ao domínio assírio.

A tentativa de resistência, entretanto, provocou uma reação militar. Em 701 a.C., Senaqueribe, sucessor de Sargão II, lançou uma grande campanha contra as regiões ocidentais do império, incluindo Judá. O exército assírio avançou pelo território judaíta, conquistando diversas cidades fortificadas. A própria inscrição de Senaqueribe, conhecida como o Prisma de Senaqueribe, afirma que numerosas cidades de Judá foram submetidas e que Ezequias ficou confinado em Jerusalém. A tradição bíblica também descreve uma campanha devastadora, registrando a conquista de cidades fortificadas e o cerco da capital.

Jerusalém, contudo, não foi tomada. A narrativa de 2 Reis 18-19 apresenta o cerco como o momento decisivo do confronto. Segundo o relato bíblico, Ezequias recorreu a Javé, enquanto o profeta Isaías anunciava que a cidade seria poupada. O exército assírio acabou abandonando o cerco, embora as circunstâncias exatas desse recuo permaneçam objeto de discussão entre historiadores. O episódio, portanto, não deve ser entendido como uma derrota militar da Assíria. Senaqueribe havia devastado grande parte de Judá, mas não conseguiu conquistar Jerusalém nem depor Ezequias.

Ezequias permaneceu no trono até aproximadamente 687 a.C. e foi sucedido por seu filho Manassés. O longo reinado de Manassés, situado entre aproximadamente 687 e 642 a.C., ocorreu sob condições muito diferentes das enfrentadas por seu pai. A Assíria havia recuperado sua autoridade sobre o Levante, e Judá voltou a ocupar uma posição subordinada dentro da estrutura imperial. A narrativa de 2 Reis apresenta Manassés de maneira negativa, acusando-o de restabelecer ou promover práticas cultuais consideradas ilegítimas pela tradição religiosa que posteriormente deu forma ao texto bíblico.

Após a morte de Manassés, seu filho Amom assumiu o trono, mas governou por pouco tempo. Amom foi assassinado e, posteriormente, seu filho Josias tornou-se rei de Judá, por volta de 640 a.C. O reinado de Josias coincidiu com uma transformação do equilíbrio político do Oriente Próximo. O Império Neoassírio, que durante mais de um século havia dominado grande parte da região, começou a perder força. Revoltas internas, dificuldades administrativas e a ascensão de novos poderes contribuíram para seu enfraquecimento. Em 612 a.C., uma coalizão formada por medos e babilônios conquistou Nínive, a capital assíria. Embora alguns remanescentes assírios ainda tenham continuado a resistir durante alguns anos, o antigo império estava próximo de desaparecer.

O colapso assírio criou um vazio de poder no Levante. Egito e Babilônia passaram a disputar a influência sobre a região, enquanto os antigos territórios submetidos à Assíria procuravam adaptar-se à nova realidade. Em 609 a.C., o faraó Neco II marchou em direção ao norte com o objetivo de apoiar os remanescentes assírios em sua luta contra os babilônios. Josias, rei de Judá, tentou impedir o avanço egípcio e encontrou-se com as forças de Neco em Megido. O confronto terminou com a morte de Josias.

Sua morte representou uma ruptura na história de Judá. Seu projeto político e religioso foi interrompido, e o reino entrou em um período de crescente instabilidade. O Egito conseguiu exercer influência sobre Judá por algum tempo, mas essa situação seria rapidamente modificada pela ascensão definitiva da Babilônia. Em 605 a.C., Nabucodonosor II, então príncipe herdeiro e comandante do exército babilônico, derrotou as forças egípcias na batalha de Carquemis. A vitória marcou uma mudança decisiva no equilíbrio de poder do Oriente Próximo. A Babilônia passou a ocupar o lugar anteriormente exercido pela Assíria, estabelecendo sua autoridade sobre grande parte do Levante.

Judá passou, assim, da esfera de influência egípcia para a dominação babilônica. A submissão, porém, não foi permanente. O reino voltou a se rebelar contra o novo poder imperial, desencadeando uma série de acontecimentos que levariam à destruição de Jerusalém. Em 597 a.C., Nabucodonosor II lançou uma campanha contra Judá e conquistou Jerusalém. O rei Joaquim, também chamado Jeconias ou Conias, foi levado para a Babilônia juntamente com membros da elite política, militar e religiosa do reino. Em seu lugar, Nabucodonosor colocou Zedequias, que passou a governar Judá como rei vassalo da Babilônia.

A situação permaneceu instável durante os anos seguintes. Zedequias acabou se rebelando contra Nabucodonosor, provavelmente contando com a expectativa de receber auxílio egípcio. A revolta provocou uma nova intervenção militar babilônica. O exército de Nabucodonosor avançou contra Judá e iniciou o cerco de Jerusalém. Dessa vez, ao contrário do que havia ocorrido durante a campanha de Senaqueribe, a capital não conseguiu resistir.

Em 586 a.C., Jerusalém foi conquistada e destruída pelos babilônios. O Templo de Salomão, centro religioso e simbólico do reino de Judá, foi incendiado. As muralhas e outras estruturas da cidade foram devastadas, e parte significativa da população foi deportada para a Babilônia. Zedequias tentou fugir, mas foi capturado pelos babilônios. Seus filhos foram mortos diante dele, seus olhos foram vazados e ele foi levado para a Babilônia. Com a destruição de Jerusalém e do Templo, o Reino de Judá perdeu sua autonomia política e entrou em uma nova etapa de sua história, marcada pelo exílio babilônico.

A sequência desses acontecimentos revela uma importante transformação política do antigo Oriente Próximo. O Reino de Israel havia desaparecido diante da expansão assíria em 722 a.C.; décadas depois, Judá tentou aproveitar a crise do poder assírio para recuperar maior autonomia, mas sofreu a devastadora campanha de Senaqueribe em 701 a.C. Jerusalém sobreviveu naquele momento, permitindo que a monarquia judaíta continuasse existindo. Mais tarde, porém, o próprio Império Neoassírio entrou em colapso e foi substituído pela hegemonia babilônica. Judá, que havia sobrevivido à ameaça assíria, acabou submetido à Babilônia e, após novas rebeliões, Jerusalém e seu Templo foram destruídos em 586 a.C.

A história do pequeno reino judaíta foi condicionada pela sucessão de grandes impérios: primeiro a Assíria, depois o Egito e, finalmente, a Babilônia. A destruição de Jerusalém em 586 a.C. não representou apenas uma derrota militar. Ela constituiu uma ruptura política, religiosa e cultural de enorme importância, pois colocou em questão a própria continuidade da monarquia davídica, provocou o exílio de parte da população e obrigou as tradições de Judá a reinterpretarem sua história, sua relação com Javé e o significado da destruição do Templo.

Josias reforma o Templo, descobre o livro da Lei, e promove uma grande reforma religiosa

Segundo a narrativa bíblica, Josias, rei de Judá, promoveu uma ampla reforma religiosa durante seu reinado. O relato apresentado principalmente em 2 Reis 22-23 descreve o rei como responsável por uma transformação das práticas religiosas de Judá. O texto bíblico afirma que, durante trabalhos de restauração realizados no Templo de Jerusalém, o sumo sacerdote Hilquias encontrou o chamado “Livro da Lei” e o entregou ao escrivão Safã, que posteriormente o apresentou ao rei. Ao ouvir a leitura do livro, Josias teria reconhecido a gravidade da situação religiosa de Judá e iniciado uma série de medidas destinadas a restaurar a aliança com YHWH.

Ainda de acordo com a narrativa deuteronomista, Josias ordenou a retirada e a destruição de objetos, imagens e símbolos relacionados a outras divindades, além da eliminação de santuários e práticas religiosas existentes fora de Jerusalém. O relato descreve também o combate a sacerdotes e cultos considerados ilegítimos, bem como a purificação do próprio Templo. A reforma aparece, portanto, na narrativa bíblica como uma grande campanha de purificação religiosa destinada a eliminar a idolatria e restabelecer o culto exclusivo a YHWH.

Do ponto de vista histórico, é plausível que Josias tenha promovido importantes mudanças no culto de Judá. Uma reforma religiosa centrada em Jerusalém e no culto a YHWH também poderia funcionar como instrumento de centralização política e integração territorial.

A reforma de Josias pode ter sido parte de um processo de transformação e centralização de uma tradição religiosa já existente, e não o início do culto a YHWH.

A reforma de Josias pode ser entendida como um processo de centralização religiosa e política, no qual o Templo de Jerusalém assumiu uma posição cada vez mais predominante. A concentração do culto em Jerusalém diminuía a autonomia dos santuários locais e fortalecia a autoridade do rei, do sacerdócio ligado ao Templo e da própria capital. A eliminação de cultos concorrentes também contribuía para a construção de uma identidade religiosa mais uniforme em torno de YHWH.

Assim, é possível distinguir dois níveis de interpretação. Na narrativa bíblica, Josias aparece como o rei que encontrou a Lei, reconheceu a infidelidade religiosa de Judá e restaurou a aliança com YHWH, eliminando a idolatria e centralizando o culto em Jerusalém. Na análise histórica, a reforma pode ser interpretada como um processo de reorganização religiosa ocorrido em um contexto de transformações políticas, provavelmente envolvendo a centralização do culto, o fortalecimento de Jerusalém.

A província babilônica de Yehud

A província babilônica de Yehud surgiu após a conquista de Jerusalém pelo Império Neobabilônico e a destruição do Reino de Judá. Ela é fundamental para compreender a transformação política, social e religiosa que ocorreu entre o final do século VI e o período posterior ao exílio.

Em 586 a.C. o rei Nabucodonosor II conquistou Jerusalém, destruiu o Templo e encerrou a autonomia política do Reino de Judá. Parte da população foi deportada para a Babilônia, especialmente membros das elites políticas, religiosas e administrativas. O território de Judá, entretanto, não foi completamente abandonado. A administração babilônica reorganizou a região como uma província imperial, conhecida em fontes posteriores pelo nome de Yehud.

A designação Yehud deriva do antigo nome hebraico de Judá (Yehudah) e aparece em formas administrativas e epigráficas relacionadas ao período persa. Durante o domínio babilônico, a região deixou de existir como reino independente. Jerusalém, que anteriormente funcionara como capital de uma monarquia, perdeu sua condição de centro político de um Estado autônomo. A administração provincial passou a estar subordinada às autoridades imperiais. A conquista, contudo, não significou o desaparecimento da população judaíta. Uma parcela permaneceu na região, enquanto outra foi deslocada para a Babilônia. Passaram a existir comunidades judaítas tanto no território de Judá quanto na Mesopotâmia.

Do ponto de vista religioso, a destruição de Jerusalém e do Templo provocou uma ruptura considerável. O Templo havia ocupado uma posição central na vida religiosa e política de Judá, e sua destruição colocou em questão instituições e concepções que estavam associadas à identidade do reino. A perda da monarquia, do território e do santuário central exigiu novas formas de preservação da identidade coletiva. Nesse contexto, tradições, leis, genealogias, narrativas sobre o passado e práticas religiosas passaram a adquirir importância ainda maior.

Os textos bíblicos interpretam a destruição de Jerusalém e o exílio como consequência da infidelidade de Judá a YHWH, especialmente da prática de cultos considerados ilegítimos. Essa interpretação teológica tornou-se uma das principais formas pelas quais os acontecimentos foram posteriormente compreendidos e transmitidos. Historicamente, entretanto, a queda de Judá deve ser situada no contexto mais amplo da expansão do Império Neobabilônico, de suas campanhas militares e da disputa pelo controle do Levante.

A situação mudou depois da queda do Império Neobabilônico. Em 539 a.C., o rei persa Ciro II conquistou a Babilônia e incorporou seus territórios ao Império Aquemênida. A antiga região de Judá passou então a integrar o sistema administrativo persa, e Yehud tornou-se uma província do Império Persa. Foi sobretudo nesse período que a designação Yehud se tornou particularmente bem documentada e que Jerusalém começou a recuperar gradualmente sua importância política e religiosa.

Yehud representa a passagem de Judá de um reino independente para uma unidade provincial submetida aos grandes impérios do Oriente Próximo. A destruição do Estado judaíta pelos babilônios não significou o fim da tradição de Judá; ao contrário, o período de dominação imperial e de reorganização posterior constituiu uma etapa para a transformação da antiga religião e para a formação das estruturas religiosas e identitárias que caracterizariam o judaísmo do período do Segundo Templo.

Ciro II, rei persa, derrota os babilônios e Yehud passa a ser uma província persa

Em 539 a.C., o rei persa Ciro II conquistou a Babilônia, derrotando o Império Neobabilônico e incorporando seus territórios ao crescente Império Aquemênida. O território que havia pertencido ao antigo Reino de Judá e que, após a destruição de Jerusalém, estivera sob domínio babilônico passou a integrar a estrutura administrativa do Império Persa. A transformação de Judá em uma província persa não significou a restauração do antigo reino. A monarquia davídica não foi restabelecida, e Yehud permaneceu subordinada ao poder imperial persa. Jerusalém, entretanto, recuperou progressivamente sua importância, sobretudo como centro religioso e administrativo da comunidade judaíta. A política imperial persa também permitiu maior liberdade para que diferentes povos preservassem suas tradições religiosas e instituições locais, embora permanecessem submetidos à autoridade do rei persa.

Na tradição bíblica, Ciro ocupa uma posição importante. O livro de Isaías apresenta o rei persa de maneira excepcional, chegando a chamá-lo de “ungido” de YHWH, por ter desempenhado um papel decisivo na libertação dos exilados e na restauração de Jerusalém. O livro de Esdras, por sua vez, associa Ciro à autorização para o retorno de grupos judaítas e à reconstrução do Templo de Jerusalém. Essas narrativas interpretam a ascensão persa não apenas como uma mudança política, mas como parte da ação de YHWH na história de seu povo.

O período persa foi fundamental para a reorganização da comunidade judaíta após o exílio. A reconstrução do Templo de Jerusalém, a reorganização da comunidade em torno de instituições religiosas e a preservação e sistematização de antigas tradições contribuíram para a formação de uma nova configuração religiosa. A experiência do exílio, seguida pela reorganização de Yehud sob domínio persa, tornou-se assim um dos momentos decisivos no processo histórico que conduziria à formação do judaísmo do período do Segundo Templo.

Ciro II permite a volta dos exilados para Jerusalém e permite a autonomia do culto

Após conquistar a Babilônia em 539 a.C., Ciro permitiu que diferentes comunidades anteriormente deportadas pelos babilônios reorganizassem suas vidas e retornassem aos seus territórios de origem. No caso dos judeus, a tradição bíblica apresenta Ciro como aquele que autorizou o retorno dos exilados a Jerusalém e a reconstrução do Templo de Jerusalém. O objetivo não era restaurar a independência política de Judá, mas reintegrar a população e suas instituições religiosas à nova ordem imperial.

A reorganização de Jerusalém ocorreu, portanto, dentro da estrutura administrativa persa. O antigo reino de Judá não foi restaurado como Estado independente; seu território passou a constituir a província de Yehud, submetida à autoridade do Império Aquemênida. A comunidade judaíta recebeu espaço para reconstruir o Templo, reorganizar o sacerdócio e restabelecer o culto a Yahweh, mas continuou politicamente subordinada ao poder persa.

Essa política tinha uma preocupação administrativa. Ao permitir que os povos submetidos preservassem ou recuperassem seus cultos, templos e instituições tradicionais, o Império Persa podia favorecer a estabilidade das províncias e obter a cooperação das elites locais. A religião, nesse contexto, não precisava ser destruída para que o poder imperial fosse mantido; ao contrário, instituições religiosas locais podiam ser incorporadas à ordem imperial e funcionar como elementos de organização social e de legitimidade do governo.

No caso de Yehud, a reconstrução do Templo de Jerusalém significou, a recuperação do principal centro religioso judaíta e a reorganização da comunidade sob a autoridade persa.

Parte dos exilados retornam para Jerusalém, constroem o Templo e as muralhas da cidade

Após a conquista da Babilônia pelo rei persa Ciro II, em 539 a.C., iniciou-se um novo período para a comunidade judaíta. Segundo a narrativa bíblica, Ciro autorizou os judeus exilados na Babilônia a retornar a Jerusalém e permitiu a reconstrução do Templo de Yahweh. O decreto de Ciro é apresentado no início do livro de Esdras, que afirma que o rei persa teria ordenado a reconstrução do Templo e permitido que os exilados que desejassem retornar levassem consigo os utensílios sagrados que haviam sido retirados de Jerusalém por Nabucodonosor (Esdras 1, 1-11). O relato também apresenta Ciro como instrumento da vontade de Yahweh, afirmando que Deus teria despertado o espírito do rei persa para promover a reconstrução do santuário.

O retorno, entretanto, não envolveu todos os judeus que viviam na Babilônia. Segundo Esdras, uma parte da comunidade, sob a liderança de Sesbazar e posteriormente de Zorobabel, retornou a Jerusalém. Os repatriados reconstruíram inicialmente o altar e restabeleceram os sacrifícios, antes de iniciar a reconstrução do Templo. O processo encontrou resistência de populações locais e sofreu períodos de interrupção. Os livros de Ageu e Zacarias apresentam os profetas incentivando Zorobabel, governador de Yehud, e Josué, o sumo sacerdote, a retomar os trabalhos de reconstrução. O Templo foi finalmente concluído durante o reinado de Dario I, por volta de 516 a.C., tornando-se o chamado Segundo Templo (Esdras 3-6; Ageu 1-2; Zacarias 1-8).

A reconstrução do Templo representou muito mais do que a recuperação de um edifício destruído pelos babilônios. O santuário constituía o centro da vida religiosa judaíta e sua reconstrução permitiu a retomada dos sacrifícios, das cerimônias religiosas e das atividades sacerdotais. Jerusalém começava, assim, a recuperar sua posição como centro religioso da comunidade de Yehud.

A reorganização da comunidade continuou nas décadas seguintes. O livro de Esdras apresenta a chegada de Esdras a Jerusalém durante o reinado de Artaxerxes I, no século V a.C. Esdras é descrito como sacerdote e escriba especializado na Lei de Moisés. Segundo o relato bíblico, recebeu autorização real para ir a Jerusalém e organizar a comunidade de acordo com a Lei de Deus, além de exercer funções relacionadas à administração da justiça (Esdras 7, 1-26). Sua atuação está associada à reafirmação da identidade religiosa da comunidade e à observância da Lei.

Posteriormente, o livro de Neemias apresenta outro momento decisivo da reconstrução de Jerusalém. Neemias, funcionário da corte do rei persa Artaxerxes, recebeu autorização para retornar a Jerusalém depois de tomar conhecimento da situação precária da cidade. Segundo seu relato, as muralhas permaneciam destruídas e suas portas haviam sido consumidas pelo fogo. Neemias chegou a Jerusalém e organizou a reconstrução das fortificações, distribuindo os trabalhos entre diferentes grupos da população. Apesar da oposição de personagens como Sambalate, Tobias e Gesém, as muralhas foram reconstruídas em um período apresentado pelo texto como extraordinariamente curto, de cinquenta e dois dias (Neemias 1-6).

A reconstrução das muralhas possuía também um propósito simbólico. Uma Jerusalém novamente cercada por muralhas representava a recuperação da cidade depois da destruição babilônica e contribuía para sua reorganização como centro da comunidade judaíta. Jerusalém, porém, continuava integrada à estrutura administrativa do Império Aquemênida, e Neemias atuava justamente com autorização do rei persa.

A atuação conjunta de Neemias e Esdras, segundo a narrativa bíblica, marcou uma nova etapa na reorganização da comunidade. Enquanto Neemias aparece associado à reconstrução das muralhas e à reorganização administrativa e social de Jerusalém, Esdras é apresentado como responsável pela reafirmação da Lei e pela reorganização da vida religiosa. Em Neemias 8, Esdras lê publicamente o Livro da Lei diante da comunidade reunida em Jerusalém, e o povo é instruído sobre seu conteúdo. O episódio é apresentado como um momento de renovação da aliança e de reafirmação da identidade religiosa dos judeus.

A narrativa de Neemias prossegue descrevendo medidas destinadas à reorganização da cidade, incluindo o repovoamento de Jerusalém, a organização das funções sacerdotais e levíticas e a celebração da dedicação das muralhas (Neemias 11-12).

A narrativa bíblica interpreta esse processo em termos teológicos, apresentando a restauração de Jerusalém e do Templo como parte da ação de Yahweh na história de Israel. Do ponto de vista histórico, porém, o retorno dos exilados, a reconstrução do Templo e posteriormente das muralhas devem ser compreendidos como etapas distintas de uma longa reorganização da comunidade judaíta sob domínio persa. É nesse contexto que Jerusalém voltou gradualmente a ocupar uma posição central na vida religiosa e na identidade coletiva do povo judeu.

Os persas são derrotados pelos macedônios – Alexandre, o Grande; Alexandre morre e o território do Império é dividido – Judá fica sob o domínio dos Ptolomeus, e depois com dos Selêucidas

O domínio persa sobre Yehud terminou no contexto das conquistas de Alexandre III da Macedônia, Alexandre, o Grande. A expansão macedônica contra o Império Aquemênida começou em 334 a.C., quando Alexandre atravessou o Helesponto e entrou na Ásia Menor à frente de seu exército. Seu objetivo era derrotar o Império Persa e assumir o controle de seus territórios.

Em 334 a.C., Alexandre enfrentou o exército persa na batalha do rio Granico, na Ásia Menor. A vitória macedônica abriu caminho para a conquista de várias cidades da região e permitiu a Alexandre avançar em direção ao interior da Anatólia. No ano seguinte, em 333 a.C., ocorreu a batalha de Isso, na Cilícia. Alexandre derrotou o exército comandado pessoalmente pelo rei persa Dario III. Dario conseguiu escapar, mas sua derrota enfraqueceu sua posição. Alexandre, em vez de persegui-lo imediatamente, avançou para o sul, buscando controlar a costa oriental do Mediterrâneo.

Entre 332 e 331 a.C., Alexandre conquistou a Fenícia e avançou em direção ao Egito. Tiro, importante cidade fenícia, resistiu durante meses e acabou sendo tomada em 332 a.C. Depois disso, Alexandre dirigiu-se ao Egito, onde foi recebido como libertador do domínio persa e fundou a cidade de Alexandria, que posteriormente se tornaria um dos principais centros culturais do mundo helenístico.

Em 331 a.C., Alexandre retornou à Ásia e enfrentou novamente o exército de Dario III na batalha de Gaugamela, na Mesopotâmia. A vitória macedônica foi decisiva. Dario fugiu para o interior do Império, enquanto Alexandre ocupou Babilônia e, posteriormente, Susa, importantes centros políticos e econômicos do Império Aquemênida.

Em 330 a.C., Alexandre avançou para o coração do território persa e ocupou Persépolis, uma das principais capitais aquemênidas. Dario III continuou sua fuga, mas acabou assassinado por seus próprios subordinados. Com sua morte, Alexandre passou a ser reconhecido como o principal governante dos antigos territórios persas. Embora ainda houvesse resistência em algumas regiões orientais, o Império Aquemênida havia perdido sua estrutura política central.

A região da Síria-Palestina, incluindo o território de Yehud, passou então do domínio persa para o domínio macedônico. A conquista da região ocorreu no contexto da campanha de Alexandre pelo Levante, em 332 a.C., quando as forças macedônicas avançaram pela costa mediterrânea em direção ao Egito. Jerusalém e Yehud foram, desse modo, incorporadas à nova ordem política criada pelas conquistas de Alexandre.

A conquista macedônica não significou a independência de Yehud. A comunidade judaíta passou da autoridade do Império Aquemênida para a autoridade macedônica. O Templo de Jerusalém continuou funcionando, e as estruturas religiosas judaítas não foram eliminadas. O que mudou foi o poder político ao qual a região estava submetida. A morte de Alexandre, em 323 a.C., marcou uma nova transformação. Como ele não deixou um sucessor capaz de manter unido o vasto território conquistado, seus generais entraram em disputa pelo controle do império. Dessa disputa surgiram os principais reinos helenísticos, entre eles o reino dos Ptolomeus, com centro no Egito, e o reino dos Selêucidas, com centro na Síria e na Mesopotâmia.

A Palestina tornou-se posteriormente uma região disputada entre essas duas dinastias. Inicialmente, os Ptolomeus passaram a controlar a região, mantendo-a durante grande parte dos séculos III e início do II a.C. Mais tarde, em 200 a.C., os Selêucidas, sob Antíoco III, derrotaram os Ptolomeus na batalha de Panion e assumiram o controle da Palestina.

Essa sequência permite compreender que a história de Jerusalém não passou diretamente da Pérsia para o domínio selêucida. Entre esses dois momentos houve a conquista macedônica de Alexandre e, após sua morte, um período de domínio dos Ptolomeus sobre a Palestina. Essa distinção cronológica é fundamental para compreender os acontecimentos que posteriormente levariam à crise religiosa e política do período de Antíoco IV Epifânio e à Revolta dos Macabeus, no século II a.C.

Durante o período helenístico, a religião judaíta continuou centrada no Templo de Jerusalém, no sacerdócio e na observância da Lei, mas passou a conviver com a cultura grega. A helenização não significou uma conversão geral dos judeus: houve grupos que incorporaram elementos gregos e outros que defenderam com maior intensidade as tradições ancestrais. O conflito religioso mais grave ocorreu posteriormente sob Antíoco IV Epifânio, quando medidas de interferência no culto judaico provocaram a Revolta dos Macabeus.

Quanto ao relato bíblico, há uma particularidade importante: a Bíblia hebraica não possui uma narrativa contínua da conquista de Alexandre e do período ptolomaico. O principal livro bíblico relacionado aos acontecimentos posteriores é Daniel, especialmente os capítulos 7-12, que apresentam visões simbólicas sobre sucessivos impérios. Tradicionalmente, essas passagens foram associadas posteriormente aos acontecimentos do período helenístico, sobretudo à perseguição de Antíoco IV.

Os livros de 1 e 2 Macabeus, embora não façam parte da Bíblia hebraica, narram a perseguição religiosa promovida por Antíoco IV, a profanação do Templo de Jerusalém, a revolta liderada por Matatias e seus filhos, especialmente Judas Macabeu, e a posterior recuperação e rededicação do Templo.

Com a conquista de Alexandre, a religião judaíta permaneceu centrada no Templo de Jerusalém, no sacerdócio e na Lei de Moisés, mas passou a conviver com a crescente influência da cultura grega. Durante o domínio dos Ptolomeus e, posteriormente, dos Selêucidas, ocorreu um processo gradual de helenização, que atingiu costumes, língua, educação e instituições. Parte da população judaíta assimilou elementos da cultura grega, enquanto outros grupos procuraram preservar rigorosamente as tradições ancestrais. O conflito entre essas tendências tornou-se especialmente intenso no século II a.C., durante o governo de Antíoco IV Epifânio.

Os israelitas buscam a independência – Os macabeus/ asmoneus recuperam o domínio

No século II a.C., a crescente interferência selêucida na vida religiosa e política da Judeia provocou uma reação de grupos judaítas que defendiam a preservação das tradições ancestrais. O conflito se intensificou durante o governo de Antíoco IV Epifânio, a partir de 167 a.C., quando medidas de imposição cultural e religiosa atingiram o culto judaico e o Templo de Jerusalém. A reação deu origem à Revolta dos Macabeus, liderada inicialmente pelo sacerdote Matatias e, depois, por seu filho Judas Macabeu.

Os revoltosos conseguiram recuperar Jerusalém e retomar o controle do Templo em 164 a.C., que foi purificado e rededicado ao culto de Yahweh. Esse acontecimento deu origem à celebração da Festa de Hanukkah, ou Festa da Dedicação. A luta, entretanto, continuou por vários anos, pois os judeus ainda estavam submetidos à autoridade selêucida.

Após a morte de Judas Macabeu, a liderança passou a seus irmãos Jônatas e Simão. Através de uma combinação de luta militar e negociações políticas, os líderes macabeus foram ampliando progressivamente a autonomia da Judeia. Em 142 a.C., durante a liderança de Simão, os selêucidas reconheceram uma situação de autonomia que, na prática, marcou o estabelecimento da independência judaica. A dinastia fundada pelos descendentes de Simão ficou conhecida como dinastia asmoneia, nome derivado de Asmoneu, associado à família dos Macabeus.

A partir desse momento, a Judeia passou a ser governada por uma liderança judaica independente dos Selêucidas, e os asmoneus acumularam as funções de autoridade política e religiosa. O período asmoneu prolongou-se até 63 a.C., quando o general romano Pompeu conquistou Jerusalém e colocou a Judeia sob a influência de Roma.

O período da Revolta dos Macabeus é relatado nos livros de 1 e 2 Macabeus, que fazem parte da Bíblia católica e ortodoxa, mas não da Bíblia hebraica. Esses livros descrevem a perseguição religiosa promovida pelo rei Antíoco IV Epifânio, a profanação do Templo de Jerusalém e a resistência dos judeus que se recusaram a abandonar a Lei e as tradições de seus antepassados.

Segundo 1 Macabeus 1-2, Antíoco IV proibiu práticas fundamentais da religião judaica e determinou a adoção de costumes religiosos associados ao mundo helenístico. O Templo de Jerusalém foi profanado e dedicado a uma divindade pagã. Diante dessas medidas, o sacerdote Matatias iniciou a resistência, sendo sucedido por seu filho Judas Macabeu, que liderou a luta militar contra os Selêucidas.

Em 1 Macabeus 4, Judas e seus seguidores retomam Jerusalém e purificam o Templo, que havia sido profanado. O santuário é novamente dedicado ao culto de Yahweh.

A narrativa continua com as campanhas de Jônatas e Simão, irmãos de Judas. Eles ampliam a autonomia política da Judeia. Em 1 Macabeus 13, Simão é reconhecido como líder da comunidade e recebe funções de autoridade política, militar e religiosa.

O livro de 2 Macabeus apresenta acontecimentos semelhantes, mas concentra-se mais na questão religiosa do conflito. O martírio de judeus que se recusaram a violar a Lei, incluindo o episódio de Eleazar e o martírio de uma mãe e seus sete filhos, é utilizado para destacar a fidelidade à religião judaica diante da perseguição. O livro também enfatiza a importância do Templo, da oração pelos mortos e da esperança na ressurreição.

O livro de Daniel, embora situado literariamente em um período muito anterior, apresenta nos capítulos 7-12 visões sobre sucessivos impérios e sobre um governante que perseguiria o povo judeu e profanaria o santuário. Essas passagens são relacionadas, no contexto histórico de sua composição, aos acontecimentos do período de Antíoco IV Epifânio. Daniel interpreta esses acontecimentos dentro de uma perspectiva teológica, segundo a qual os poderes estrangeiros possuem domínio temporário, enquanto Deus permanece soberano sobre a história.

Assim, 1 e 2 Macabeus fornecem o relato histórico-religioso mais direto da Revolta dos Macabeus, enquanto Daniel oferece uma interpretação profética e apocalíptica do conflito.

Os 100 anos sob o controle dos Macabeus e dos Asmoneus

O período dos Macabeus e dos Asmoneus corresponde aproximadamente a um século da história judaica, situado entre a revolta contra o domínio selêucida, iniciada no século II a.C., e a incorporação da Judeia à esfera de poder romano, no século I a.C. Esse período representou uma das etapas mais importantes da história judaica do Segundo Templo, pois marcou a passagem de uma situação de dependência política em relação aos grandes impérios helenísticos para a formação de um Estado judaico independente. Ao mesmo tempo, foi um período marcado por transformações políticas, religiosas e sociais, bem como pelo surgimento ou fortalecimento de grupos judaicos que posteriormente desempenhariam papel importante na história do judaísmo do período romano.

A crise que desencadeou a revolta ocorreu em 167 a.C., durante o reinado de Antíoco IV Epífanes, soberano do Império Selêucida. As políticas relacionadas ao culto, às práticas religiosas e à observância da Lei foram percebidas por setores da população como uma ameaça à identidade religiosa judaica. A situação provocou uma reação que ultrapassou os limites de uma disputa interna e se transformou em uma revolta armada contra a autoridade selêucida.

Em 164 a.C. Judas Macabeu conseguiu recuperar Jerusalém e retomar o controle do Templo. O santuário, que havia sido afetado pelas políticas religiosas de Antíoco IV, foi purificado e novamente dedicado ao culto judaico. A vitória, entretanto, não significou o fim imediato do conflito. A resistência continuou durante vários anos, enquanto os líderes macabeus procuravam ampliar sua autonomia e consolidar a posição dos judeus diante das autoridades selêucidas.

Judas morreu em 160 a.C., mas sua morte não encerrou a luta. Seus irmãos Jônatas e, posteriormente, Simão deram continuidade ao movimento. A partir desse momento, a natureza da revolta começou a sofrer uma transformação importante. O movimento que inicialmente havia sido desencadeado sobretudo pela oposição às interferências na religião judaica passou a adquirir uma dimensão política mais ampla. A luta já não se limitava à defesa do culto e da observância da Lei, mas envolvia também a conquista de autonomia, o controle do território e a formação de instituições políticas próprias. Dessa maneira, a resistência contra os selêucidas evoluiu gradualmente para um projeto de autonomia política judaica.

Jônatas desempenhou papel fundamental nesse processo. Em meio às disputas internas do próprio Império Selêucida, soube utilizar as rivalidades entre diferentes pretendentes ao trono para ampliar a posição política dos judeus. Em 152 a.C., conseguiu ser reconhecido como sumo sacerdote, acumulando autoridade religiosa e política.

Após a morte de Jônatas, seu irmão Simão assumiu a liderança e conseguiu consolidar ainda mais a autonomia judaica. Em 142 a.C., a Judeia alcançou uma situação de independência em relação ao poder selêucida. A família dos hasmoneus, que havia surgido como liderança de uma revolta contra o domínio estrangeiro, passou a exercer funções de governo sobre um território politicamente autônomo. Com Simão, portanto, iniciou-se o período de governo que ficou conhecido como dinastia asmoneia.

O motivo da controvérsia foi a concentração das funções de rei e sumo sacerdote nas mãos dos governantes asmoneus. Tradicionalmente, as funções sacerdotais e políticas eram separadas, e a concentração de ambas em uma mesma autoridade provocou questionamentos entre diferentes setores da sociedade judaica. A legitimidade dos governantes passou, assim, a ser objeto de disputas que envolviam não apenas questões políticas, mas também interpretações da Lei, da tradição sacerdotal e da identidade religiosa de Israel.

Foi nesse contexto de transformações que ganharam importância diferentes grupos judaicos, entre eles os fariseus, os saduceus e os essênios. Esses grupos representavam diferentes interpretações da Lei, das tradições religiosas, do sacerdócio, da pureza e da organização da sociedade judaica. Os saduceus estavam estreitamente relacionados às elites sacerdotais e ao Templo, enquanto os fariseus desenvolveram uma tradição interpretativa própria da Lei e exerceram crescente influência social e religiosa. Os essênios, por sua vez, estão associados a comunidades que se afastaram ou se opuseram às estruturas religiosas e políticas predominantes.

As tensões internas se intensificaram durante e depois do governo de Salomé Alexandra. Após sua morte, em 67 a.C., seus filhos Hircano II e Aristóbulo II entraram em conflito pela sucessão e pelo controle do reino. A disputa dinástica não permaneceu restrita aos membros da família governante. Diferentes grupos da sociedade judaica tomaram posições distintas no conflito, transformando a questão sucessória em uma disputa política de maiores proporções. A crise enfraqueceu a unidade interna do reino e abriu espaço para a intervenção de uma potência externa que vinha ampliando rapidamente sua presença no Mediterrâneo oriental: Roma.

A disputa pelo trono entre os irmãos asmoneus Hircano II e Aristóbulo II

Após a morte de Salomé Alexandra, em 67 a.C., seus filhos Hircano II, que havia sido sumo sacerdote, e Aristóbulo II entraram em conflito pelo poder. Aristóbulo acabou prevalecendo, mas Hircano, apoiado pelo idumeu Antípatro, procurou ajuda externa. A disputa chegou até Pompeu, general romano que naquele momento expandia a influência de Roma no Oriente.

A intervenção romana ocorreu em um momento no qual a República Romana já havia estabelecido uma posição dominante em grande parte do mundo helenístico. Hircano II e Aristóbulo II procuraram apoio externo em meio à disputa pelo poder, e a rivalidade entre os dois acabou oferecendo aos romanos a oportunidade de intervir nos assuntos da Judeia. Em 63 a.C., o general romano Pompeu chegou à região e tomou Jerusalém. A partir desse momento, a autonomia conquistada pelos Macabeus e consolidada pelos Asmoneus entrou em uma nova fase. A Judeia não foi imediatamente transformada em uma simples província romana, mas passou a estar submetida à tutela e à influência de Roma.

A Palestina passa a ser controlada por Roma

A partir do século I a.C., Roma começou a estabelecer progressivamente seu domínio sobre as diferentes regiões da Palestina. Em 63 a.C., Pompeu conquistou Jerusalém e incorporou a Judeia à esfera de poder romano, encerrando a independência política que os asmoneus ainda mantinham. A partir desse momento, a Judeia passou a ser submetida à tutela romana, embora conservasse inicialmente certa autonomia local.

A Samaria, que já possuía uma história política distinta da Judeia, também passou a integrar a esfera romana nesse processo de reorganização territorial. Posteriormente, em 37 a.C., Herodes, o Grande, apoiado por Roma, tornou-se rei da Judeia e passou a governar um território que incluía, em diferentes momentos, Judeia, Samaria e Galileia. Seu reinado representou uma nova etapa da presença romana, pois Herodes governava como rei cliente de Roma, mantendo instituições locais, mas subordinado aos interesses e à autoridade romana.

Após a morte de Herodes, em 4 a.C., seu reino foi dividido entre seus filhos. A Galileia e a Pereia ficaram sob o governo de Herodes Antipas, enquanto a Judeia e a Samaria foram inicialmente entregues a Arquelau. Em 6 d.C., após a deposição de Arquelau, Judeia e Samaria passaram a ser administradas diretamente por Roma, tornando-se parte da província da Judeia. A Galileia, contudo, permaneceu sob o governo de Herodes Antipas até sua deposição em 39 d.C., continuando durante esse período como um reino cliente de Roma.

O nascimento de Jesus no contexto do domínio romano

O nascimento de Jesus deve ser compreendido no contexto das transformações políticas e sociais que marcaram a Palestina no final do século I a.C. Desde a intervenção de Pompeu, em 63 a.C., Roma havia estabelecido sua influência sobre a Judeia, encerrando a independência política dos asmoneus. Posteriormente, em 37 a.C., Herodes, o Grande, assumiu o trono com o apoio de Roma e tornou-se rei da Judeia, governando um território que incluía, em diferentes períodos, a Judeia, a Samaria e a Galileia. Embora mantivesse instituições e tradições judaicas, Herodes dependia politicamente de Roma e exercia seu poder dentro da ordem estabelecida pelo Império.

É nesse cenário que os evangelhos de Mateus e Lucas situam o nascimento de Jesus. Mateus afirma que Jesus nasceu em Belém da Judeia durante o reinado de Herodes, o Grande, enquanto Lucas relaciona seu nascimento ao contexto do governo romano e ao recenseamento associado a Quirino. A combinação dessas referências apresenta dificuldades cronológicas que são objeto de debate entre os estudiosos. De modo geral, porém, o nascimento de Jesus é situado aproximadamente entre 6 e 4 a.C., sendo comum considerar que tenha ocorrido antes da morte de Herodes, em 4 a.C.

O contexto político era marcado, portanto, pela presença de Roma, pela autoridade da dinastia herodiana e pelas expectativas judaicas relacionadas à restauração de Israel. A Judeia encontrava-se submetida a uma potência estrangeira, enquanto diferentes grupos judaicos interpretavam de maneiras diversas a relação entre a tradição religiosa, o poder político e a dominação romana. Nesse ambiente, a expectativa pela intervenção de Deus na história, pela restauração de Israel e pela chegada de um governante legitimamente escolhido adquiria particular importância.

A infância e juventude de Jesus transcorreram durante um período em que a Palestina ainda estava sendo reorganizada dentro da estrutura política romana. Após a morte de Herodes, o território seria dividido entre seus sucessores, e, em 6 d.C., Judeia e Samaria passariam à administração direta de Roma. A Galileia, por sua vez, permaneceria sob a autoridade de Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande. Esse contexto político, social e religioso constituiria o cenário no qual Jesus posteriormente desenvolveria sua atividade pública.