Podemos medir visitas e cliques para melhorar o acervo? A escolha é sua e pode ser alterada a qualquer momento em “Preferências de medição”.

REReflexões
e Espiritualidade
Religiões antigas·8 min de leitura

Xamanismo, a forma primeira da religião

Capa do texto “Xamanismo, a forma primeira da religião”

Xamanismo, a forma primeira da religião

O xamanismo pode ser compreendido como um conjunto de crenças, práticas e técnicas de caráter mágico, ritual e que se relaciona com êxtase, destinadas a estabelecer formas de contato com aquilo que se concebem como mundo espiritual ou realidade sobrenatural. Embora seja associado a determinadas populações do norte asiático, o fenômeno xamânico apresenta manifestações em diferentes contextos culturais. Por essa razão, não é possível situá-lo historicamente ou geograficamente como uma tradição religiosa única, originada em determinado lugar e posteriormente difundida para outras regiões. O termo “xamanismo” é, antes, uma categoria utilizada para reunir práticas que apresentam determinadas características semelhantes, embora tenham surgido em sociedades distintas e assumido formas particulares em cada contexto.

Mircea Eliade, em seu estudo sobre o tema, relacionou o xamanismo às chamadas técnicas arcaicas do êxtase, observadas entre tungues, povos do nordeste da Sibéria, iacutes, mongóis, turco-tártaros e outras populações da Ásia. Nessas tradições, o elemento fundamental não era necessariamente a existência de uma doutrina religiosa sistematizada, mas a capacidade atribuída ao xamã de alcançar estados extraordinários de consciência e, por meio deles, estabelecer contato com realidades consideradas sobrenaturais. O xamã desempenhava, assim, uma função intermediária entre o mundo cotidiano e o universo habitado por espíritos, divindades, ancestrais, mortos e outros seres sobrenaturais.

Desde épocas remotas, práticas que posteriormente foram identificadas ou interpretadas como xamânicas estiveram ligadas aos vários aspectos da vida comunitária. Antropólogos e historiadores das religiões observaram nelas procedimentos relacionados à cura, à adivinhação, à proteção contra forças consideradas perigosas, à interpretação de sonhos, à comunicação com espíritos e à realização de ritos destinados a restabelecer algum tipo de equilíbrio entre o indivíduo, a comunidade e o mundo sobrenatural. Algumas dessas práticas apresentavam características animistas, na medida em que reconheciam agência espiritual em animais, plantas, fenômenos naturais e outros elementos do mundo. Entretanto, não se deve concluir, a partir disso, que o xamanismo constitua uma religião originária ou uma religião primordial da humanidade. Não existe evidência suficiente para afirmar que tenha havido uma única religião xamânica da qual as demais tradições religiosas teriam derivado.

A diversidade das manifestações xamânicas é justamente um dos aspectos que impedem sua redução a um sistema religioso uniforme. Cada sociedade desenvolveu seus próprios ritos, concepções cosmológicas, entidades sobrenaturais e formas de iniciação. Mesmo dentro de uma mesma comunidade, determinadas práticas podiam variar conforme as circunstâncias, as necessidades individuais ou coletivas e a função desempenhada pelo xamã.

Durante os rituais, o xamã podia entrar em estados de transe e manifestar comportamentos considerados extraordinários, invocando espíritos associados a animais, plantas, ancestrais, mortos ou outras entidades. O ritual podia envolver objetos específicos, vestimentas, máscaras, tambores, instrumentos musicais e diferentes elementos simbólicos. Em determinadas tradições, o próprio corpo do xamã era considerado instrumento de comunicação com o mundo espiritual, enquanto em outras participavam também assistentes ou membros da comunidade.

A obtenção desses estados alterados de consciência podia ocorrer por diferentes meios. Batidas repetitivas de tambor, cantos, danças, jejuns, isolamento, sonhos e determinadas plantas de propriedades psicoativas podiam fazer parte das técnicas utilizadas para produzir a experiência extática. O objetivo não era simplesmente provocar uma alteração da consciência, mas alcançar uma condição considerada capaz de permitir o deslocamento ou a percepção de realidades que permaneciam inacessíveis no estado ordinário.

A formação do xamã também podia estar associada a processos de transmissão familiar e iniciação ritual. Essa transmissão não significava, contudo, que o indivíduo se tornasse automaticamente um xamã. O reconhecimento pela comunidade dependia de uma experiência iniciática por meio da qual o candidato demonstraria possuir as capacidades atribuídas à função. A iniciação estabelecia, portanto, uma distinção entre aquele que apenas reivindicava poderes sobrenaturais e aquele que era efetivamente reconhecido pela comunidade como capaz de exercer a função xamânica.

Entre os manchus, algumas narrativas de iniciação descrevem provas extraordinárias pelas quais o candidato deveria passar. Uma delas consistia na passagem sobre brasas, sob a crença de que aquele que realmente dispusesse da proteção ou do auxílio dos espíritos poderia atravessar o fogo sem sofrer danos. Outra prova mencionada nas tradições consistia em mergulhar, durante o inverno, em buracos abertos no gelo. Essas provas devem ser compreendidas dentro do universo simbólico dessas sociedades, no qual resistência física, domínio do medo e contato com forças sobrenaturais estavam relacionados à legitimidade do futuro xamã.

O poder atribuído ao xamã podia ser considerado proveniente de um ser supremo, de divindades ou de outras entidades sobrenaturais. A iniciação, nesse sentido, não representava apenas um treinamento técnico, mas uma transformação do indivíduo. Em determinadas tradições, o candidato precisava experimentar simbolicamente a própria morte e o próprio renascimento, passando a existir em uma condição diferente daquela do indivíduo comum. Entre os esquimós, por exemplo, Mircea Eliade registra uma experiência iniciática na qual o neófito deveria contemplar ou visualizar o próprio esqueleto. Essa experiência estava relacionada a um longo processo de ascese física e contemplação mental, cujo objetivo era alcançar a capacidade de perceber a si mesmo como esqueleto. A imagem do próprio corpo reduzido aos ossos expressava simbolicamente uma ruptura com a condição anterior e uma transformação do indivíduo em alguém capaz de penetrar nas dimensões invisíveis da existência.

As narrativas relacionadas à formação dos xamãs também apresentam referências a comportamentos considerados extraordinários ou a perturbações experimentadas durante o processo iniciático. Entretanto, a figura do xamã não deve ser reduzida à de uma pessoa simplesmente caracterizada por comportamentos incomuns. Entre os iacutos, o ideal do xamã era o de um indivíduo sério, capaz de persuadir aqueles que estavam ao seu redor, sem ser presunçoso ou dominado pela cólera. A capacidade de exercer sua função dependia, portanto, não apenas da experiência extática, mas também de atributos reconhecidos socialmente pela comunidade. O xamã precisava possuir autoridade, capacidade de comunicação e credibilidade para desempenhar seu papel.

Entre os povos turcomanos, encontramos funções semelhantes associadas à figura do baqça, termo utilizado entre os kazak-quirguizes para designar o guardião das tradições religiosas. Sua atuação podia reunir diversas funções: cantor, poeta, músico, adivinho, sacerdote e curandeiro. Essa multiplicidade evidencia que, em sociedades tradicionais, as fronteiras entre diferentes funções religiosas, artísticas, terapêuticas e sociais não eram tão rígidas quanto nas sociedades modernas. O especialista ritual podia atuar simultaneamente como responsável pela preservação da memória coletiva, intérprete do mundo sobrenatural, músico, poeta e agente de cura.

Uma das características recorrentes atribuídas às tradições xamânicas é a possibilidade de ascensão aos céus ou de deslocamento para diferentes regiões do universo sobrenatural. Em muitas dessas cosmologias, o universo era concebido como estruturado em diferentes níveis, associados ao céu, à terra e ao mundo subterrâneo. O xamã seria capaz de atravessar essas regiões por meio do êxtase ritual, estabelecendo contato com divindades, espíritos, mortos e outros seres sobrenaturais. Essa capacidade de viajar entre diferentes planos conferia ao xamã uma posição singular dentro da comunidade, pois ele não seria apenas alguém que acreditava na existência do mundo sobrenatural, mas alguém que afirmava possuir os meios para conhecê-lo diretamente.

A relação entre o xamanismo e as concepções sobre a morte é particularmente importante. Por meio das experiências extáticas, o xamã podia ser concebido como alguém que conhecia os caminhos percorridos pelos mortos e as regiões que constituíam o mundo além da existência terrena. Sua suposta capacidade de viajar ao mundo dos mortos permitia-lhe atuar como mediador entre vivos e mortos, orientar espíritos, realizar ritos funerários e explicar aquilo que aconteceria depois da morte. Nessa perspectiva, imagens de ascensão celeste, descida aos mundos subterrâneos, encontros com seres sobrenaturais e viagens da alma poderiam ter desempenhado um papel importante na formação de determinadas representações religiosas sobre o destino dos mortos.

Entretanto, é necessário evitar a generalização de qualquer experiência extática como necessariamente xamânica. Existiam magias e técnicas de êxtase que não pertenciam à estrutura propriamente xamânica. Entre elas estavam determinadas práticas relacionadas à magia dos guerreiros e técnicas extáticas vinculadas a experiências religiosas de transe, êxtase e alteração da consciência associadas a cultos de divindades femininas ligadas à fertilidade, à fecundidade, à agricultura, à sexualidade e aos ciclos da natureza. Isso demonstra que o êxtase religioso não constitui, por si só, um elemento suficiente para definir uma tradição como xamânica. Diferentes sociedades poderiam desenvolver experiências de transe, possessão, visão ou êxtase sem que essas práticas apresentassem necessariamente a estrutura característica do xamanismo.

Essa distinção é fundamental para compreender o lugar do xamanismo na história das religiões. O fenômeno não deve ser apresentado como uma religião primitiva universal da qual todas as demais formas religiosas teriam evoluído. Tampouco é possível pressupor que todas as sociedades humanas tenham passado por uma etapa obrigatória de xamanismo. O que se observa é a existência, em diferentes sociedades, de especialistas religiosos capazes de desempenhar funções de mediação entre a comunidade e o universo sobrenatural, utilizando técnicas específicas para alcançar estados de consciência considerados capazes de proporcionar essa comunicação. As semelhanças entre essas práticas permitem estabelecer comparações, mas as diferenças culturais impedem que sejam reduzidas a uma única tradição histórica.

O xamanismo, portanto, pode ser compreendido como uma das mais antigas e diversificadas formas de relação ritual com o mundo sobrenatural documentadas pela antropologia e pela história das religiões. Sua importância está menos na existência de uma doutrina comum do que na recorrência de determinados elementos: a figura do especialista ritual, a experiência extática, a comunicação com espíritos e divindades, a cura, a adivinhação, a mediação entre vivos e mortos e a concepção de que o universo possui diferentes níveis que podem ser atravessados ou acessados em determinadas condições. Esses elementos assumiram configurações distintas conforme cada sociedade e seu próprio sistema simbólico.

Os estudos de Mircea Eliade tiveram papel importante na construção moderna da interpretação do fenômeno. Entre suas obras dedicadas à experiência religiosa encontram-se O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase e O Sagrado e o Profano, além de numerosos outros trabalhos sobre religiões, mitos, símbolos e experiências religiosas. Suas interpretações contribuíram para colocar a experiência extática e a figura do especialista religioso no centro da análise do xamanismo. Ao mesmo tempo, o estudo contemporâneo das religiões exige considerar a diversidade histórica e cultural das sociedades envolvidas, evitando transformar uma categoria analítica moderna em uma suposta religião universal dos primórdios da humanidade.