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REReflexões
e Espiritualidade
Cristianismo·Bíblia, Novo Testamento·4 min de leitura

Por que os Evangelhos receberam nomes diferentes de seus autores?

Capa do texto “Por que os Evangelhos receberam nomes diferentes de seus autores?”

Obra: Os Quatro Evangelistas, artista Abraham Bloemaert, 1612-1615, Princeton University Art Museum, Estados Unidos - a pintura retrata Mateus, Marcos, Lucas e João reunidos em torno de seus textos, acompanhados dos símbolos tradicionais dos evangelistas

Por que os Evangelhos receberam nomes diferentes de seus autores?

Os Evangelhos receberam os nomes Mateus, Marcos, Lucas e João não porque esses autores assinaram suas obras, mas porque, desde o início, circulavam de forma anônima e só mais tarde foram associados a nomes específicos pela tradição cristã primitiva (a partir do século II).

No mundo antigo, era comum textos religiosos ou filosóficos não trazerem assinatura direta, especialmente quando o foco era a mensagem e não a figura do escritor. No caso dos Evangelhos, eles nasceram dentro de comunidades cristãs, a partir de tradições orais e escritas sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, sendo moldados segundo as necessidades pastorais e teológicas de cada grupo.

Por volta do final do século II, a Igreja já reconhecia quatro Evangelhos como autoridade, e escritores como Papias de Hierápolis (início do séc. II), citado por Eusébio, associaram cada um deles a figuras conhecidas: Mateus teria sido um dos doze apóstolos, autor de um evangelho “em língua hebraica” (provavelmente aramaico). Marcos seria o intérprete de Pedro, registrando o que este pregava. Lucas teria sido companheiro de Paulo e autor também de Atos dos Apóstolos. João seria o “discípulo amado” e testemunha ocular.

Essas atribuições tinham dois objetivos principais: garantir autoridade apostólica – vinculando os evangelhos a apóstolos ou a seus colaboradores diretos, fortalecendo sua credibilidade; e distinguir versões diferentes, já que havia outros escritos sobre Jesus circulando (como evangelhos apócrifos), era importante identificar quais eram “os quatro” reconhecidos pela Igreja.

A crítica textual moderna mostra que a maioria desses evangelhos provavelmente foi escrita entre 65 e 100 d.C., por autores cristãos anônimos profundamente enraizados nas tradições orais e na vida litúrgica de suas comunidades. Os nomes tradicionais refletem mais uma atribuição eclesial posterior do que uma assinatura original.

Mateus, Marcos e Lucas contam, muitas vezes, as mesmas histórias, porém com algumas diferenças. E existem passagens que são idênticas, o que caracteriza uma dependência textual entre esses evangelhos.

O chamado “problema sinótico” refere-se à questão de como explicar as semelhanças e diferenças entre os três primeiros evangelhos do Novo Testamento – Mateus, Marcos e Lucas – conhecidos como evangelhos sinóticos, termo derivado do grego syn-optikos, “ver juntos”, pois podem ser colocados lado a lado em colunas e comparados em termos de conteúdo, sequência e vocabulário. Ao analisá-los, nota-se que uma grande parte do material é compartilhada, como narrativas do batismo de Jesus, seu ministério na Galileia, milagres, parábolas, a entrada em Jerusalém, os eventos da paixão e a ressurreição. Cerca de 76% do conteúdo de Marcos reaparece em Mateus e Lucas, muitas vezes com correspondência verbal muito próxima no grego original e em ordem semelhante. No entanto, cada evangelista também preserva material exclusivo, com diferenças de estilo literário, detalhes narrativos e ênfases teológicas, por exemplo, Mateus destaca Jesus como cumprimento das profecias judaicas, Lucas enfatiza a universalidade da salvação e Marcos apresenta uma narrativa mais breve e intensa.

O problema central é determinar qual evangelho foi escrito primeiro, como ocorreu a possível dependência literária entre eles e por que, apesar das semelhanças, existem divergências significativas. A hipótese mais aceita hoje é a das “duas fontes”, segundo a qual Marcos teria sido o primeiro a ser escrito, sendo utilizado por Mateus e Lucas juntamente com outra fonte hipotética, chamada Q (Quelle, “fonte” em alemão), que conteria principalmente ditos de Jesus. Além dessas duas fontes comuns, Mateus e Lucas teriam também material próprio, identificado como “M” e “L”. Outra proposta, mais antiga e tradicional, conhecida como hipótese agostiniana, defende que Mateus teria sido o primeiro, seguido por Marcos, que o resumiu, e depois Lucas, que utilizou ambos. Há ainda a hipótese de Farrer–Goulder, que mantém a prioridade de Marcos, mas sugere que Lucas também conhecia e usou Mateus, dispensando a necessidade da fonte Q. Por fim, alguns estudiosos propuseram que as semelhanças se devem principalmente à tradição oral comum e a coleções escritas de ditos e narrativas, sem dependência literária direta, embora essa explicação tenha dificuldade em justificar as coincidências verbais tão exatas.