Os infernos mencionados na Bíblia

Obra: O inferno, artista Fra Angelico, 1431, Museu de San Marco, Florença
Os infernos mencionados na Bíblia
A palavra “inferno” vem do latim infernus, que significa “o que está embaixo” ou “os inferiores”, referindo-se ao mundo subterrâneo. Esse termo é de origem romana e foi usado nas traduções latinas da Bíblia, em especial na Vulgata de Jerônimo (século IV), para verter diferentes palavras hebraicas e gregas relacionadas ao destino dos mortos.
Nos textos hebraicos originais do Antigo Testamento, não aparece a palavra infernus nem uma ideia idêntica ao inferno cristão. Assim, o “inferno” como palavra e conceito não fazia parte do vocabulário original hebraico. É uma construção que surge do encontro entre a tradição bíblica judaica e a linguagem grega e latina, recebendo depois desenvolvimentos na teologia cristã.
Os quatro “infernos” referidos na Bíblia são o Sheol, o Hades e o Tártaro, e Geena.
O termo usado no Antigo Testamento era Sheol, que designava o lugar sombrio aonde iam todos os mortos, justos e ímpios, sem distinção moral. O Sheol não era um local de punição eterna, mas uma espécie de reino da morte, silencioso e distante da vida. O texto de Gênesis 37, 34-35 diz: “Então Jacó rasgou as suas vestes, pôs saco sobre os seus lombos e lamentou a seu filho muitos dias. E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; recusou, porém, ser consolado, e disse: Porquanto com choro hei de descer ao meu filho até a sepultura. Assim o chorou seu pai.”
Outro texto, em Números 16, 30-33, os líderes israelitas questionam a autoridade de Moisés e a mediação sacerdotal de Arão, desafiando a ordem estabelecida por Deus. O texto diz que Deus se manifesta para julgar os rebeldes, e a consequência é morte imediata e punição no mundo dos mortos: “Se o Senhor criar um novo, e abrir a terra, e engolir os que são seus, então sabereis que se rebelaram contra o Senhor. E aconteceu que, como terminou de falar todas essas palavras, a terra se abriu debaixo deles, e engoliu a eles e às suas famílias, e todos os que pertenciam a Corá, e desceram vivos ao Sheol; e a terra fechou-se sobre eles, e eles pereceram do meio da congregação.” Aqui aparece explicitamente o termo Sheol, indicando que os castigos não se limitam à morte física, mas envolvem a descida ao lugar dos mortos, simbolizando a separação da comunidade dos vivos.
A palavra Sheol aparece 65 vezes na Bíblia Hebraica. Como dito, é o lugar dos mortos, a “região subterrânea” para onde descem tanto os justos quanto os ímpios. No hebraico bíblico mais antigo, não há distinção moral no destino: todos vão ao Sheol, independentemente da conduta.
O capítulo 28 do livro de 1 Samuel apresenta uma narrativa que trata da relação entre Saul, o rei de Israel, e a morte iminente do profeta Samuel. Saul, temendo os filisteus e enfrentando um futuro sombrio em batalha, percebe que Deus não lhe responde mais por meio de profetas ou sonhos. Angustiado, busca orientação espiritual de qualquer maneira possível. Como havia proibido a prática de necromancia – prática de magia envolvendo a suposta comunicação com os mortos, seja através da evocação de seus espíritos ou da reanimação de seus corpos, para obter informações, adivinhação ou transmitir mensagens –, ele mesmo entra em desespero e decide consultar uma médium em En-Dor, conhecida por invocar os mortos. Disfarçado, Saul vai até ela durante a noite, pedindo que traga à sua presença o espírito de Samuel, o profeta que havia sido seu guia e conselheiro espiritual. A médium, surpresa, ao ver que se trata de Saul, invoca o espírito de Samuel. Para o espanto de Saul, Samuel aparece e reprova a decisão do rei de buscar ajuda em necromancia. Samuel revela que Deus se afastou de Saul por sua desobediência e que o reino seria tirado dele, entregando-o aos inimigos. Além disso, prediz que Saul e seus filhos morreriam na batalha contra os filisteus no dia seguinte. O capítulo termina com Saul retornando para casa, fraco e aterrorizado, e os filisteus se aproximando para o confronto decisivo. O episódio marca o fim da orientação divina para Saul e prenuncia o colapso de seu reinado.
O versículo 19 de 1 Samuel 28 diz que Saul e os filhos estarão com Samuel, já morto, mostrando que o lugar no pós morte é o mesmo para justos e injustos: “E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; e o arraial de Israel o Senhor entregará na mão dos filisteus.”
No livro de Jó, 7, 9: “Assim como a nuvem se desfaz e passa, aquele que desce à sepultura jamais voltará a subir", expressa a ideia de que a morte é um fim definitivo, sem retorno à vida terrena.
O profeta Daniel, em seu livro, no capítulo12, 2 diz: “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.”, traduzindo a ideia de ressurreição e vida eterna para os justos e bons, e punição para os ímpios e maus. A tradição judaico-cristã afirma que Daniel viveu no século VI a.C., tendo sido levado cativo para a Babilônia por volta de 605 a.C., quando Nabucodonosor II derrotou Jeoaquim, rei de Judá; nessa época surgia a ideia da ressurreição dos mortos justos e bons.
No Novo Testamento, cujos textos conhecidos estão no grego, utilizou-se Hades para traduzir Sheol hebraico.
Na mitologia grega, o Hades era o reino subterrâneo destinado a todos os mortos, governado pelo deus de mesmo nome, irmão de Zeus e Poseidon. Não se tratava de um inferno de punição eterna como na tradição cristã, mas de um lugar sombrio e silencioso onde todas as almas eram recebidas após a morte, separadas do mundo dos vivos. No Hades, havia subdivisões que refletiam a vida e as ações dos indivíduos: os Campos Elísios eram reservados aos virtuosos e heróis, oferecendo um lugar de paz e felicidade; as regiões de Asfódelos abrigavam as almas comuns, neutras, que não recebiam nem recompensa nem castigo; e o Tártaro, uma parte profunda e tenebrosa, destinava-se à punição dos injustos e daqueles que desobedeciam aos deuses. A administração do submundo envolvia juízes como Minos, Éaco e Radamanto, que avaliavam as ações das almas, e criaturas como Cérbero, o cão de três cabeças, que guardava a entrada, impedindo a fuga dos mortos. Assim, o Hades funcionava como um mundo organizado para a vida após a morte, onde cada alma tinha seu lugar, seja de recompensa, neutralidade ou castigo.
Em Atos dos Apóstolos 2, 29, Pedro, discursando no Dia de Pentecostes, usa o túmulo de Davi para provar que ele não havia subido aos céus: “Pedro está usando o túmulo de Davi, que ainda estava em Jerusalém, para provar que Davi não havia subido aos céus.”
No Evangelho de Lucas 16, 19-31, onde Jesus conta a parábola de um homem rico e do mendigo Lázaro, já há uma elaboração do Hades: “Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno (Hades), ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além de tudo isto, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, ele lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco serão persuadidos, ainda que algum dos mortos ressuscite.” Aqui, o Hades não é um lugar, que como o Sheol, não há punições ou recompensas; o rico vai para o tormento, e Lázaro para o consolo junto a Abraão.
Geena, palavra grega, aparece 12 vezes nos Evangelhos e no livro de Tiago, sempre associado à ideia de condenação final. O termo vem do hebraico Gê-Hinnom, ou "Vale de Hinom", um vale ao sul de Jerusalém (Ge Ben-Hinnom, “Vale do Filho de Hinom”, conforme Josué 15, 8 e Jeremias 7, 31. No período do Antigo Testamento, o local era associado a práticas idólatras, inclusive sacrifícios de crianças a Moloque (2 Reis 23,10 e Jeremias 7, 31). Mateus 18, 9 diz que é melhor entrar na vida com um olho do que ser lançado na Geena de fogo. Marcos 9, 43 traz a ideia de ser melhor perder um membro do corpo do que ir para a Geena, “onde o fogo não se apaga”. Lucas 12, 5 diz para temer aquele que pode lançar no fogo da Geena.
Na Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), os profetas Jeremias – Jeremias 7, 30-33 e 19, 6 – e Isaías – Isaías 30, 33 e 66, 24 – não usam o termo Geena (geenna em grego, que só aparece no Novo Testamento). Porém, eles falam do Vale de Hinom (Ge-Hinnom), que é justamente a origem do conceito de Geena como lugar de juízo e destruição. No Antigo Testamento a pena acontece em vida, não em um futuro (na morte), e quase sempre a punição é coletiva e não individual.
No Antigo Testamento, o Vale de Hinom surge como símbolo do juízo de Deus contra o próprio povo de Judá, que quebrou a aliança e se entregou à idolatria. Jeremias denuncia que eles levantaram altares no Tofete, dentro desse vale, para sacrificar seus filhos e filhas a Moloque, prática abominável que jamais foi ordenada pelo Senhor. Por causa disso, o profeta anuncia que aquele lugar não seria mais chamado de Vale de Hinom, mas sim de Vale da Matança, onde haveria morte e destruição como consequência da infidelidade do povo à aliança.
No Novo Testamento, Jesus retoma esse mesmo símbolo e, agora usando o termo Geena, dirige-o contra os líderes religiosos de Israel, que haviam se desviado da justiça, da misericórdia e da fidelidade a Deus. No capítulo 23 de Mateus, Ele acusa os escribas e fariseus de hipocrisia, dizendo que, apesar de guardarem a aparência da religião, estavam espiritualmente corrompidos e afastados da vontade divina. Por isso, Jesus declara: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação da Geena?”
Assim, o que em Jeremias era o Vale de Hinom, palco da infidelidade de Judá e do castigo anunciado, em Jesus se torna Geena, figura escatológica de condenação para aqueles que, mesmo conhecendo a aliança e a Lei, persistem em rejeitar a vontade de Deus. A trajetória do termo mostra a continuidade: da realidade histórica de um vale de idolatria e sangue até sua transformação em imagem do juízo final reservado aos que não cumprem a aliança.
Existem tanto informações textuais antigas quanto evidências arqueológicas que apontam para o Vale de Hinom (Ge-Hinnom) como um local real em Jerusalém, que depois deu origem ao conceito de Geena, usado no Novo Testamento (séc. I) e na literatura rabínica mais antiga (Talmude, Midrashim, Targum). Porém, a primeira formulação clara do conceito de “Geena como inferno eterno”, como nós o conhecemos hoje, foi do rabino David Kimhi, no século XIII. A Bíblia Hebraica somente fala do Vale de Hinom (Ge-Hinnom) como local real de idolatria.
O Tártaro na mitologia grega é apresentado como um dos elementos primordiais do cosmos, ao lado de Caos, Gaia e Eros, descrito por Hesíodo como um abismo profundo e sombrio, situado muito abaixo do Hades, tão distante deste quanto a terra está distante do céu. Desempenha o papel de prisão e lugar de punição. Após a Titanomaquia, a guerra entre os deuses olímpicos e os titãs, Zeus derrotou os titãs e os lançou no Tártaro, onde permaneceram aprisionados, guardados pelos Hecatônquiros, os gigantes de cem braços. Além dos titãs, alguns mortais que desafiaram os deuses também foram condenados a esse abismo para sofrer tormentos eternos, como Sísifo, condenado a rolar uma pedra montanha acima sem jamais concluí-la; Íxion, preso a uma roda em chamas que girava incessantemente; e Tântalo, que ficava diante de água e frutos inalcançáveis, sempre faminto e sedento.
Diferente do Hades, que era o reino dos mortos em geral, o Tártaro é reservado para punição exemplar, funcionando como instrumento da justiça divina e cósmica.
No Novo Testamento, o verbo grego tartaróō é usado em 2 Pedro 2, 4 para descrever o destino dos anjos caídos: “Porque, se Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno (Tártaro), os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;”. Para entender o episódio de os anjos terem sido lançados no inferno, é necessário ir para o livro apócrifo de 1 Enoque: no texto, os anjos conhecidos como Vigilantes, liderados por Semjaza, desobedeceram a Deus ao descer à Terra, tomar esposas humanas e revelar conhecimentos proibidos à humanidade. Esses anjos ensinaram feitiçaria, astrologia, fabricação de armas e outros segredos que corromperam a vida dos homens, provocando violência e pecado. Diante dessa transgressão, Deus decidiu intervir, enviando o arcanjo Uriel para informar Enoque sobre o julgamento que se aproximava, enquanto os arcanjos Rafael, Gabriel e Miguel se preparavam para executar a sentença divina. Os líderes dos anjos caídos foram então aprisionados em abismos sombrios, mantidos em prisões subterrâneas até o dia do Juízo Final, em um lugar de tormento e escuridão que os impediria de continuar corrompendo a Terra.