Os primeiros deuses da história
Os primeiros deuses da história
A mais antiga menção a uma divindade que chegou até nós encontra-se na tradição literária associada à Epopeia de Gilgamesh, uma das obras mais antigas da literatura conhecida. Seus registros mais antigos foram escritos em caracteres cuneiformes sobre tabletes de argila na Mesopotâmia, com versões e tradições textuais que remontam ao final do terceiro e ao início do segundo milênio a.C. A obra apresenta uma concepção de mundo na qual os deuses interferem diretamente no destino dos seres humanos, estabelecendo uma relação entre o poder divino, a vida, a morte e os limites da condição humana.
A narrativa apresenta Gilgamesh, rei da cidade de Uruk, na tradição suméria, conhecido por sua força extraordinária, ambição e comportamento tirânico e autoritário. Diante dos excessos do rei, os deuses criam Enkidu, um homem de natureza selvagem, destinado inicialmente a confrontá-lo. O encontro, entretanto, não produz o conflito esperado. Depois de enfrentarem-se, Gilgamesh e Enkidu tornam-se amigos inseparáveis e passam a realizar juntos diversas aventuras. A relação entre os dois constitui um dos elementos centrais da narrativa, pois é justamente a morte de Enkidu que provoca em Gilgamesh uma profunda transformação.
Quando Enkidu morre, Gilgamesh é confrontado de maneira brutal com a realidade da morte. A experiência desperta nele um intenso medo da própria mortalidade. O rei, que até então parecia possuir força suficiente para enfrentar homens e até mesmo seres sobrenaturais, percebe que nenhum poder humano é capaz de impedir a morte. A partir desse momento, sua busca deixa de estar relacionada apenas à glória, ao poder ou às façanhas heroicas e passa a concentrar-se na tentativa de descobrir um meio de escapar do destino comum a todos os seres humanos.
Movido por esse temor, Gilgamesh empreende uma longa e perigosa jornada em busca de Utnapishtim, personagem que, segundo a tradição da epopeia, havia sobrevivido ao grande dilúvio e recebido dos deuses o privilégio da imortalidade. Gilgamesh espera descobrir com ele o segredo que lhe permita também vencer a morte. Entretanto, sua busca fracassa. Embora encontre Utnapishtim e tenha acesso ao conhecimento relacionado à sobrevivência e à imortalidade, Gilgamesh não consegue tornar-se imortal. Ao final, é obrigado a aceitar aquilo que procurava superar: a condição mortal do ser humano.
A importância da Epopeia de Gilgamesh, portanto, não está apenas na presença dos deuses em sua narrativa, mas também na maneira como a relação entre divindade e humanidade é apresentada. Os deuses possuem poderes superiores aos humanos e interferem nos acontecimentos, mas a própria existência humana permanece submetida a limites que nem mesmo um grande herói consegue ultrapassar.
Séculos mais tarde, outra importante concepção sobre a origem dos deuses e do cosmos aparece na Teogonia, de Hesíodo, poeta grego que viveu entre o final do século VIII e o início do século VII a.C. A obra é anterior à consolidação da filosofia como forma sistemática de investigação da realidade. Diferentemente da narrativa de Gilgamesh, centrada na busca humana pela superação da morte, a Teogonia procura explicar genealogicamente a origem do cosmos e a sucessão das divindades que passam a governá-lo.
No princípio da narrativa de Hesíodo encontra-se o Caos, concebido como uma realidade primordial a partir da qual surgem outras entidades fundamentais. Dele aparecem Gaia, a Terra; Tártaro, associado às profundezas do mundo; Eros, força primordial relacionada ao amor e à potência de geração; Érebo, associado às trevas; e Nyx, a Noite. Nesse contexto, Gaia representa uma realidade primordial mais definida e estável em contraste com o estado inicial de indeterminação representado pelo Caos. A partir dessas primeiras entidades desenvolve-se uma complexa genealogia divina que explica a formação progressiva do cosmos.
Entre as divindades primordiais encontra-se Urano (Ouranos), a personificação do Céu, que surge de Gaia. Urano une-se a Gaia e gera numerosas divindades, entre elas os Titãs, os Ciclopes e os Hecatônquiros. Entretanto, Urano impede que alguns de seus filhos venham plenamente à luz, mantendo-os ocultos no interior de Gaia. A situação provoca o sofrimento e a revolta da Terra, que passa a procurar uma forma de libertar seus filhos e romper o domínio de Urano.
Gaia então convoca seus filhos para que se levantem contra Urano. Cronos (Kronos), o mais jovem dos Titãs, aceita realizar a revolta. Armado com uma foice, Cronos ataca e mutila seu pai, separando o Céu da Terra. Esse episódio simboliza uma transformação fundamental na organização do cosmos: o Céu e a Terra deixam de permanecer unidos, abrindo espaço para a constituição de uma ordem cósmica mais diferenciada. A partir da separação entre Urano e Gaia, a genealogia divina prossegue e novas gerações de seres sobrenaturais passam a ocupar o universo.
Cronos assume então o poder e passa a governar ao lado de sua irmã Reia (Rhea). Dessa união nascem os principais deuses que posteriormente formarão o núcleo da religião olímpica: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Poseidon e Zeus. Cronos, entretanto, teme que a mesma situação que havia provocado a queda de Urano se repita com ele. Uma profecia anuncia que um de seus próprios filhos poderá destroná-lo. Para impedir que isso aconteça, Cronos devora os filhos assim que eles nascem.
Reia consegue, porém, proteger o último filho, Zeus, escondendo-o em Creta. Em seu lugar, entrega a Cronos uma pedra envolvida em panos, que ele engole acreditando tratar-se do recém-nascido. Zeus cresce secretamente e, posteriormente, retorna para enfrentar seu pai. A partir desse momento inicia-se uma grande guerra entre as duas gerações divinas: de um lado, os Titãs, liderados por Cronos; de outro, os deuses olímpicos, liderados por Zeus.
O conflito termina com a vitória de Zeus e de seus aliados. Os Ciclopes e os Hecatônquiros, libertados por Zeus, contribuem para a derrota dos Titãs. Depois da vitória, os antigos deuses são confinados no Tártaro, enquanto Zeus assume a posição de soberano entre os deuses. A vitória de Zeus não representa apenas a substituição de uma divindade por outra, mas a instauração de uma nova ordem cósmica. O universo, que inicialmente se encontrava em um estado primordial e posteriormente passou por sucessivas disputas entre gerações divinas, adquire finalmente uma estrutura organizada sob o domínio dos deuses olímpicos.
A Teogonia apresenta, desse modo, uma explicação mitológica para a origem e a organização do cosmos. O universo não aparece como uma realidade criada de uma única vez por um deus transcendente, mas como resultado de uma sucessão de gerações divinas, uniões, nascimentos, conflitos e substituições de poder. O Caos dá lugar a entidades primordiais; Gaia e Urano originam novas gerações; Cronos substitui Urano; e, finalmente, Zeus derrota os Titãs e estabelece a ordem olímpica.
Na Epopeia de Gilgamesh e na Teogonia encontramos uma característica das antigas religiões: a tentativa de compreender a existência humana e a estrutura do universo por meio de narrativas nas quais o mundo divino, o mundo natural e o destino dos seres humanos permanecem estreitamente relacionados.