Os hebreus, os persas e suas religiões

Deportação de habitantes de Laquis pelos assírios – representa as conquistas militares e as deportações que marcaram a história dos antigos hebreus, Palácio de Senaqueribe, Nínive, hoje no Museu de Londres
Os hebreus, os persas e suas religiões
Os hebreus eram um pequeno povo pertencente aos povos semitas, descendentes de Sem, filho de Noé. Eram pastores nômades que viviam ao sul da Mesopotâmia e posteriormente se transferiram para a Palestina, no vale do rio Jordão. Devido a inúmeras secas, por volta de 1800 a.C., migraram para o Egito, onde permaneceram escravizados por cerca de 300/ 400 anos. Depois retornaram e se estabeleceram novamente na Palestina. Com a morte de Salomão, em 926 a.C., ocorreu o Cisma Hebraico e o fim da monarquia, dividindo o povo em doze tribos: o reino de Judá, liderado por Reoboão, com duas tribos, e o reino de Israel, de Jeroboão, com dez tribos. Fragilizado, o reino de Israel foi dominado pelos assírios em 722 a.C., enquanto o reino de Judá foi dominado pelos babilônios em 587 a.C., permanecendo no exílio por cerca de 50 anos, até que os persas conquistaram as terras dos babilônios e libertaram os judeus. Em 330 a.C., os macedônios, sob Alexandre, o Grande, dominaram todo o Império Persa, o Egito e a Mesopotâmia, e posteriormente os romanos assumiram o controle político e econômico, iniciando, em 70 a.C., uma perseguição aos hebreus.
Existiu um vínculo entre a religião dos primeiros hebreus e a de seus antepassados imediatos, os cananeus, sendo que os hebreus adotaram o nome de sua deidade nacional, El, dos antigos habitantes de Canaã. A literatura bíblica associa Yahweh (Jeová) a El (Gênesis 14, 18-20; 33, 20; Êxodo 6, 3). Alguns deuses de origem cananeia, como Baal e Asherah, também eram louvados pelos hebreus antigos. No entanto, por meio de um pacto com os patriarcas, os hebreus passaram a cultuar um único Deus, Javé (Jeová), estabelecendo assim o monoteísmo e o salvacionismo como base de sua religião.
A Pérsia situava-se a leste da Mesopotâmia, em um extenso planalto que corresponde atualmente ao Irã, localizado entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio. Essa civilização estabeleceu-se no território que também fora povoado pelos medos, uma das tribos de origem ariana que migraram da Ásia Central para o planalto iraniano por volta de 2000 a.C. Os persas praticavam o masdeísmo, ou zoroastrismo, como é conhecido atualmente, sendo esta religião pioneira no conceito de monoteísmo. Seus princípios básicos afirmam a existência de duas forças em constante luta: o bem e o mal. O deus do bem é Ormuz-Mazda, que não é representado por imagens e tem como símbolo o fogo, enquanto o deus do mal é Ahriman, representado por uma serpente. O masdeísmo pregava, ainda, a existência da vida após a morte, e os devotos deviam praticar o bem e a justiça para que Ormuz fosse vitorioso e o bem prevalecesse sobre o mal. Os princípios do masdeísmo foram compilados pelo profeta Zaratrusta (628-551 a.C.) no Avesta, livro sagrado que reúne orações, hinos, rituais, instruções, práticas e leis; entre suas seções, destacam-se os Gathas, dezessete hinos atribuídos a Zaratrusta, e o Pahlavi, parte literária do livro.
A religião persa como influência na formação do mito salvador, da “doutrina do fim do mundo”, e da “ressurreição dos corpos”
O zoroastrismo exerceu influência nas tradições judaica, cristã e islâmica. Desenvolvida a partir dos ensinamentos atribuídos a Zaratustra (Zoroastro), essa tradição apresentava uma forte concepção dualista, marcada pela luta cósmica entre o bem, representado por Ahura Mazda, o “Senhor Sábio”, e o mal, personificado por Angra Mainyu, o “Espírito Hostil”. Ao contrário de sistemas cíclicos de tempo, como se vê em outras culturas antigas, a visão zoroastriana estruturava a história como uma linha com início, meio e fim, o que permitia conceber um momento de maior tensão e conflito, onde as emoções e ações atingem seu ápice histórico marcado pela vinda de um redentor.
No centro dessa expectativa estava a figura do Saoshyant, cujo nome significa “aquele que trará benefício ou salvação”. Ele surgiria no fim dos tempos para derrotar definitivamente as forças do mal, ressuscitar os mortos – evento conhecido como Frashokereti –, purificar o mundo com fogo e renovar toda a criação, restaurando-a ao estado perfeito original. O Saoshyant não era visto apenas como um líder político, mas como um agente de redenção cósmica, mediador entre o divino e a humanidade.
Diversos elementos dessa tradição contribuíram para moldar o mito do salvador em outras culturas: a concepção de que a história se encaminha para um fim no qual o mal será eliminado e a justiça prevalecerá; a crença na ressurreição universal; a ideia de um julgamento final que separará definitivamente justos e ímpios; e a noção de purificação cósmica. Durante o período do exílio babilônico e, sobretudo, sob o domínio persa, ideias como o juízo final, a ressurreição corporal e a atuação de uma figura messiânica com função cósmica penetraram na literatura judaica, como se observa em passagens do livro de Daniel e nos apocalipses judaicos do período intertestamentário.
Também a religião persa teve um papel decisivo na formação de muitas ideias sobre o fim do mundo (escatologia), influenciando o judaísmo do período pós-exílico, o cristianismo primitivo e até concepções islâmicas.
Na tradição iraniana, o mundo não é visto como eterno e cíclico, mas como o campo de batalha de uma luta cósmica entre duas forças opostas: Ahura Mazda (Senhor Sábio), princípio do bem, e Angra Mainyu (ou Ahriman), princípio do mal. Essa oposição não é apenas moral, mas também metafísica, pois envolve toda a estrutura do cosmos e a história da criação. O universo foi concebido como tendo um início no tempo, um curso limitado e um desfecho definitivo, ideia que contrasta com muitos mitos mesopotâmicos e hindus de tempo circular.
Segundo a doutrina zoroastriana clássica, a história do mundo se desenrola em quatro eras de três mil anos cada (12 mil anos no total). Durante o último período, o mal atinge seu auge, mas é finalmente derrotado pelo Messias escatológico, chamado Saoshyant (“o que traz o benefício”), figura salvadora que ressuscitará os mortos, julgará a humanidade e inaugurará a renovação universal (Frashokereti). Nessa renovação, o mundo será purificado pelo fogo e pelo metal derretido, que destruirá toda impureza e sofrimento, preservando apenas os justos. O tempo, então, se transformará em eternidade, e o mal será extinto para sempre.
Essas concepções persas introduziram elementos que não existiam ou eram pouco desenvolvidos nas crenças israelitas anteriores ao exílio babilônico, tais como linearidade da história com começo, meio e fim definitivos; dualismo ético-cósmico, onde forças personificadas do bem e do mal combatem até um clímax final; juízo final e separação eterna entre justos e ímpios; ressurreição corporal universal, não apenas sobrevivência espiritual; figura messiânica que atua no fim dos tempos como salvador; e purificação cósmica e recriação de um mundo perfeito.
Durante o domínio persa (séculos VI–IV a.C.), especialmente na época do Império Aquemênida, os judeus retornados do exílio na Babilônia tiveram contato com essas ideias, que parecem ter se incorporado à escatologia apocalíptica que floresce nos livros tardios do Antigo Testamento (como Daniel) e, mais tarde, no judaísmo apocalíptico intertestamentário. Essa herança chega ao cristianismo primitivo na noção do Juízo Final, do retorno glorioso de Cristo e da nova criação. No Islã, ela reaparece no conceito do Mahdi e do Dia da Ressurreição (Yawm al-Qiyamah).
Ainda, exerceu influência na formulação da doutrina da ressurreição dos corpos que, mais tarde, seria incorporada pelo judaísmo do período pós-exílico e, por consequência, pelo cristianismo e pelo islamismo. No pensamento zoroastriano, a história do mundo não é vista como um ciclo interminável, mas como uma linha com início, desenvolvimento e fim, marcada por uma luta cósmica entre as forças do bem e do mal. Essa concepção culmina com a renovação definitiva do mundo, no qual toda a criação será purificada pelo fogo sagrado e transformada em uma realidade perfeita e incorruptível. Nesse momento, segundo a tradição, todos os mortos ressuscitarão, tendo seus corpos restaurados e reunidos às suas almas, não para retornarem a uma vida semelhante à atual, mas para participarem de uma existência sem doença, sofrimento ou morte. Durante o período persa, após o exílio babilônico, os judeus entraram em contato com essas ideias, e é nesse contexto que, em textos tardios do Antigo Testamento, como Daniel 12, 2, surge de forma clara a crença na ressurreição corporal: “muitos dos que dormem no pó da terra despertarão”. Assim, a contribuição iraniana não se limitou à noção de que o corpo voltaria à vida, mas incluiu também a perspectiva de um ato divino final capaz de reparar toda a injustiça, reunindo corpo e alma para uma existência eterna em um mundo purificado e plenamente reconciliado com o bem.