O sofrimento humano e a tradição cristã
A explicação para o sofrimento humano foi a maneira encontrada de dotar os seres humanos de livre-arbítrio. Se não houvesse mal, os humanos não poderiam escolher entre o bem e o mal; por conseguinte, não haveria livre-arbítrio. Isso, no entanto, é uma resposta pouco intuitiva que imediatamente levanta uma série de novas perguntas. O livre-arbítrio permite que os humanos escolham o mal? A visão clássica dos profetas da Bíblia é que há sofrimento porque o povo de Deus violou sua lei ou agiu contra sua vontade, e Deus o está fazendo sofrer para obrigá-lo a voltar para Ele e levar uma vida justa? Os profetas nunca afirmam o sofrimento do povo judeu como um princípio universal. As leis violadas, que tinham como objetivo preservar o bem-estar da sociedade, e que Deus fosse venerado e servido (o atendimento aos desejos de Deus produziria favor divino, enquanto a desobediência levaria a dificuldades). Os autores dos livros sapienciais também estavam convencidos de que o sofrimento vem de Deus como uma punição pelos pecados.
Há dois modos pelos quais a Bíblia explica o sofrimento: algumas vezes o sofrimento vem de Deus como punição pelo pecado; e algumas vezes vem dos seres humanos como consequência do pecado. Para alguns autores bíblicos, certas vezes o sofrimento é positivo. Deus, às vezes, faz o bem a partir do mal, um bem que não seria possível se o mal não existisse.
A ideia de que o sofrimento humano pode servir a propósitos divinos é apresentada no conjunto de histórias da Bíblia, que envolve o êxodo dos filhos de Israel fugindo da escravidão do Egito sob Moisés. Em algumas palavras das Escrituras o sofrimento é vivenciado de modo que Deus possa ser glorificado por ele. Em outras passagens, o sofrimento tem outras razões, e Deus consegue extrair o bem dele. O discípulo Paulo achava que só com sofrimento podia-se chegar a ser um verdadeiro apóstolo de Jesus. Assim, em vez de se queixar do sofrimento, Paulo exultava nele. O sofrimento podia fortalecer o caráter (Romanos 5, 3-5). Sentia que Deus criava o sofrimento para induzir humildade (2 Coríntios 12, 7-10). É a mensagem central da Bíblia: não é simplesmente apesar do sofrimento, mas por intermédio do sofrimento que Deus manifesta seu poder de salvação. Diferentes autores bíblicos têm diversas explicações: alguns acham algumas vezes vêm de Deus pela punição devido ao pecado (os profetas); outros pensam que a infelicidade é criada pelos seres humanos para agredir e oprimir outros (novamente os profetas); uns creem que Deus produz sofrimento para atingir seu objetivo redentor (as histórias de José e de Jesus); outros veem a dor e a infelicidade como um teste de Deus para verificar se seu povo permanecerá fiel a Ele mesmo quando não vale a pena (a história de Jó); e há os que dizem que simplesmente não se tem como saber por que há sofrimento no mundo (a poesia de Jó), ou porque é uma informação fora do alcance da racionalidade humana (Eclesiastes). Tudo o que se tem a fazer para se livrar do câncer, da pobreza, da guerra ou de outras coisas terríveis é se permitir dizer que não há tais coisas? Não penso que se possa estabelecer que não pode haver casos em que algum mal seja logicamente necessário para um bem maior. Qualquer versão do argumento do mal defende haver um fato quanto ao mal no mundo que impede logicamente a existência de Deus, entendido como um ser onipotente, onisciente e moralmente perfeito. Todavia, as versões do argumento, com frequência, diferem bastante e de forma significativa em relação a saber qual é o fato relevante. Nunca se compreenderá a verdadeira razão das doenças, da seca ou do terremoto se seus dogmas não forem levados em consideração.