O sofrimento e a crença em Deus
A questão de se o sofrimento impede a crença na existência de Deus é um produto do Iluminismo. A teodiceia iluminista e pós-iluminista deriva de um moderno conjunto de suposições sobre o mundo: por exemplo, que o mundo é um nexo fechado de causa e efeito e funciona mais ou menos mecanicamente segundo um conjunto de leis naturais que são, pelo menos, elementos confiáveis de previsão da atividade natural do mundo. Se o teísmo cristão for verdadeiro, estará garantido. E depois? Por que razão pensar que é importante? Por duas razões. Primeiro, uma objeção comum à crença cristã, pelo menos desde o Iluminismo, não tem sido à sua verdade, mas à sua racionalidade. Essa objeção é como se segue: “Não sei se a crença cristã é verdadeira, quem poderia saber? Mas sei que é irracional, ou não razoável, ou algo que uma pessoa sensata não poderia aceitar.” A ideia é que, mesmo não sendo verdadeira, não tem mesmo garantia para quem a aceita. Os seres humanos ferem, oprimem, torturam, atormentam, violam, estupram e assassinam os outros. Se houver um Deus responsável por todas as coisas horrendas que acontecem, pouco se pode fazer quanto a isso.
Há duas visões sobre o que os iluministas pensam da Bíblia: a de que é um livro muito humano, acerca de sua autoria e autoridade final, que em vez de vir das mãos de Deus, vem dos autores humanos, com diferentes visões, pontos de vista, tendências, ideias, gostos, desgostos e contextos. Outros pensam que a Bíblia é um livro divino, significando, na maioria dos casos, que em última instância é Deus que está por trás da autoria dos vários livros de profecia, história, poesia.
O sofrimento existe porque é necessário ter livre-arbítrio, do contrário todos seriam como robôs. Se o sofrimento diz respeito apenas ao livre-arbítrio, como explicar furacões, terremotos, e outras catástrofes naturais? E as doenças, as epidemias? O livre-arbítrio não é nem de longe tão importante para os autores bíblicos quanto é para as pessoas hoje. O argumento do livre-arbítrio pode explicar boa parte do mal, como o Holocausto, o racismo, os crimes de colarinho branco à corrupção governamental. Mas também deixa muita coisa de fora da equação.
Todas as crenças são produtos das faculdades cognitivas do ser? Como se sai o argumento do mal face aos argumentos a favor da existência de Deus? O primeiro aspecto é que os argumentos a favor da existência de uma divindade não contrariam o problema do mal. O mundo ficaria melhor sem a vasta maioria dos males? Algumas pessoas argumentariam, por exemplo, que a frustração que se tem ao tentar resolver um problema difícil é ultrapassada pela satisfação de chegar a uma solução e, portanto, que o mundo não seria melhor se não houvesse tais males.