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REReflexões
e Espiritualidade
Reflexões·5 min de leitura

O livre-arbítrio

“Um homem de repente se transforma em um pedófilo, e começa a colecionar pornografia infantil e assediar crianças. Condenado por suas atitudes, ele pôde optar entre a prisão ou um programa de reabilitação para viciados em sexo e, obviamente, optou pelo programa. Mas se mostrou incapaz de controlar seus impulsos. Na noite anterior a sua prisão, ele deu entrada no pronto socorro de um hospital e pediu uma ressonância de seu cérebro. Resultado: um tumor de tamanho considerável localizado em uma parte do cérebro responsável por regular o comportamento social que por sua vez inclui o controle de impulsos sexuais. Logo depois da cirurgia de remoção do tumor o comportamento pedófilo desapareceu. Algum tempo depois, o comportamento inadequado ressurgiu e uma nova ressonância confirmou a recidiva do câncer. Portanto, fica a pergunta: onde está o livre arbítrio?”

            Relato do livro de David Lewis, Impulse, de 2013.

 

A ideia de livre-arbítrio foi criada para fundamentar as maneiras de ver o mal e o pecado. Surgiu com o debate entre Santo Agostinho e o monge britânico Pelágio, e com seu amigo Evódio, no século IV. Agostinho de Hipona conceituou o livre-arbítrio na relação entre Deus e o homem, a quem caberia a opção de aceitar a bondade divina ou então viver no mal.

Segundo Étiene Gilson, pesquisador da filosofia medieval, o entendimento de Agostinho foi de que o livre arbítrio era a causa do mal, porque o homem, como é dotado de liberdade de escolha, podia decidir por pecar ou não pecar. Assim, o livre-arbítrio coloca o homem à sua responsabilidade e à sua vocação de senhor de si mesmo. O homem é capaz de querer e de não querer. Não poderíamos agir bem senão mediante o mesmo arbítrio da vontade.

Eu escolho meus desejos determinística, aleatória ou livremente? Por que temos a sensação de que nós escolhemos?

Mas, o que se entende por realizar o mal? Seria o pensamento próprio e a persuasão alheia? Acaso por que a lei o proíbe? Ou a lei o proíbe porque é um mal? Ora, todo aquele que faz a outro o que não quer que se faça com ele, realiza o mal?

Porém, se for o mal tudo quanto os homens condenam, segue-se que há dois mil anos era um crime crer em Jesus Cristo e confessar essa fé. Então, não é mal tudo o que os homens condenam.

Em 1º Timóteo 6, 10 há a afirmação que “A raiz de todos os males é a ganância.” E essa ganância é a concupiscência (a cobiça de bens materiais e a luxúria carnal), e a concupiscência é a vontade depravada.

As paixões exercem sobre a mente humana seu cruel e tirânico domínio e perturbam o humor e as nossas vidas?

A natureza humana só é má porque as suas capacidades estão na desordem e na corrupção geradas pela decisão de pecar? Se há o mal é porque também houve a possibilidade de evitá-lo?

Somos livres para fazer nossas próprias escolhas ou fatores externos regem nosso destino?

Salmos 10, 15 afirma que “O princípio de todo o pecado é a soberba.”

Romanos 7, 19 diz “Não faço o bem que quero fazer, mas o mal que não quero.”

Então, o homem goza de livre-arbítrio, sem o qual não poderia viver retamente? Seria injusta a punição pelo pecado, e o prêmio, se não fosse o livre-arbítrio. Se a liberdade é para fazer o bem, como é que se faz o mal?

As religiões judaica, cristã e islâmica creem que tudo quanto existe procede de Deus; porém, Deus não é o autor do mal. Se os pecados procedem das almas que Deus criou, e as almas vêm de Deus, como não referir a Deus o pecado? – Nós nos perturbamos muito com essa questão.

Alguém poderia dizer que não seria difícil nem trabalhoso à onipotência divina ordenar todas as coisas que fez de tal modo que nenhuma criatura pudesse fazer o mal.

A visão filosófica determinística diz que o homem é destituído de liberdade de decidir e de influir nos fenômenos em que toma parte, portanto rejeita a ideia de que os homens têm algum livre-arbítrio. O indeterminismo defende que o livre arbítrio e a ação do agente sempre produzem o evento.

Baruch Spinoza disse: “as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições”; “não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito”; e “os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.

Arthur Schopenhauer escreveu: “cada um acredita de si mesmo a priori que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver (…). Mas a posteriori, por meio da experiência, ele descobre, para seu espanto, que não é livre, mas sujeito à necessidade, que apesar de todas as suas resoluções e reflexões, ele não muda sua conduta, e que do início ao fim da sua vida ele deve conduzir o mesmo caráter o qual ele mesmo condena.”

O filósofo cristão americano, Alvin Plantinga, escreveu: “Deus pode criar criaturas livres, mas Ele não pode causar ou determinar que façam apenas o que é certo. Pois se Ele o faz, então eles não são significativamente livres, afinal; eles não fazem o que é certo livremente. Para criar criaturas capazes de bem moral, portanto, Ele deve criar criaturas capazes de mal moral; e Ele não pode dar a essas criaturas a liberdade de praticar o mal e, ao mesmo tempo, impedir que elas o façam. Como se viu, infelizmente, algumas das criaturas livres que Deus criou deram errado no exercício de sua liberdade; essa é a fonte do mal moral. O fato de que criaturas livres às vezes dão errado, no entanto, não conta nem contra a onipotência de Deus nem contra Sua bondade; pois Ele poderia ter prevenido a ocorrência do mal moral apenas removendo a possibilidade do bem moral. “

No entanto, é importante ressaltar que não há nenhuma menção na Bíblia sobre o livre-arbítrio.