Antes dos deuses: as origens da experiência religiosa

Antes dos deuses: as origens da experiência religiosa
A religião dos primórdios manifesta-se muito antes de qualquer formulação doutrinária ou textual, enraizada no pensamento simbólico, nos ritos e nas práticas corporais que deram sentido à existência humana diante da finitude. Um dos testemunhos mais antigos dessa capacidade simbólica é o Homem-Leão, a mais antiga escultura figurativa conhecida da humanidade. Encontrada na caverna de Hohlenstein-Stadel, no vale do Danúbio, na Alemanha, e datada de cerca de 40 mil anos atrás, no Paleolítico Superior, essa peça antropozoomórfica – com corpo humano e cabeça de leão – foi esculpida em marfim de presa de mamute e possui aproximadamente 31 centímetros de altura.
A escultura não representa algo diretamente observado na natureza, mas uma síntese mental, evidenciando pensamento abstrato. Por isso, muitos pesquisadores a interpretam como um ser mítico ou uma divindade primitiva, associada à força, ao poder e à mediação entre mundos, sugerindo a existência de narrativas, rituais e cosmologias já bem estruturadas.
Outro exemplo encontra-se na Caverna de Qafzeh (Cafzé), situada no Monte do Precipício, próximo a Nazaré, na Baixa Galileia, em Israel. Considerado um dos sítios arqueológicos mais importantes para a compreensão das origens do Homo sapiens e do comportamento simbólico precoce, Qafzeh revelou vestígios humanos sepultados em posição fetal, datados de aproximadamente 90 a 120 mil anos atrás. Esse tipo de sepultamento indica uma atitude simbólica diante da morte e constitui um forte indício de crenças simbólicas ou de religiosidade, ainda que não se possa falar em doutrinas religiosas formalizadas.
No sítio arqueológico de Sungir, próximo a Vladimir, a nordeste de Moscou, na Rússia, foram encontrados sepultamentos deliberados e altamente elaborados, datados de cerca de 34 a 30 mil anos atrás. Um homem adulto e duas crianças foram enterrados em posição estendida, ricamente ornamentados com milhares de contas de marfim de mamute, além de braceletes, pingentes, discos e outros adornos simbólicos cuidadosamente dispostos. A complexidade desses sepultamentos sugere o reconhecimento da morte como um evento não apenas biológico, mas também social e cosmológico, envolvendo memória coletiva e sacralização do corpo humano.
Já no Neolítico Pré-Cerâmico, Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, representa um marco decisivo na história religiosa da humanidade. O sítio é composto por recintos circulares formados por pilares monumentais em forma de “T”, dispostos em círculos ou elipses, com dois pilares centrais maiores em cada recinto, alcançando até 5,5 metros de altura e mais de 15 toneladas. Göbekli Tepe constitui a primeira manifestação conhecida de arquitetura ritual e demonstra que a experiência do sagrado precede a sedentarização plena e o surgimento da agricultura.
Longe de ser consequência da complexidade social, a religião aparece aqui como uma de suas forças fundadoras, articulando simbolismo, cooperação e memória coletiva.
Apesar desses múltiplos indícios de pensamento simbólico e de práticas rituais, não há registro histórico que permita identificar qual teria sido a primeira religião propriamente dita. Antes da escrita, a religião existia fundamentalmente como rito, gesto, performance e mito oral. Os ritos precederam as doutrinas, as teologias e as escrituras, constituindo a forma primordial de relação com o sagrado.
Quando a escrita surgiu, por volta de 3300–3200 a.C., no sul da Mesopotâmia, entre os sumérios, os deuses já estavam presentes no imaginário humano. Na longa pré-história, entre aproximadamente 40 mil e 10 mil anos atrás, o pensamento simbólico já se expressava por meio da arte rupestre, dos sepultamentos e dos rituais.
As primeiras tabuinhas cuneiformes, datadas do período Uruk IV–III (3300–3000 a.C.), continham frequentemente listas de oferendas – como quantidades de cevada, cerveja, óleo, tâmaras, animais sacrificiais e bens destinados a deuses, sacerdotes ou festivais – além de nomes teofóricos, que expressavam devoção, proteção ou relação com o divino. Assim, embora a escrita não tenha nascido como um instrumento religioso, ela foi rapidamente apropriada pela religião.
A escrita não inaugura a experiência religiosa; ela registra práticas já existentes e transforma o rito em norma, lista e narrativa estabilizada. Ao documentar, sistematizar e normatizar tradições que antes estavam codificadas em ritos, mitos e práticas orais, a escrita fixa o sagrado no texto.
Com isso, a religião deixa de ser apenas performada e passa a ser também prescrita, inaugurando processos de canonização, autoridade e ortodoxia que moldariam profundamente as religiões históricas.