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REReflexões
e Espiritualidade
Reflexões·10 min de leitura

O sofrimento humano

“Um pássaro fica horrivelmente queimado durante um incêndio provocado pela descarga de um raio, sofrendo terrivelmente durante cinco dias antes de morrer. Ao contrário dos seres humanos, não se atribui livre-arbítrio aos pássaros, pelo que não podemos imputar o terrível sofrimento do pássaro a um mau uso do livre-arbítrio. Porque permitiria então Deus que isto acontecesse quando, se existe, poderia tê-lo impedido com tanta facilidade?” O mal em questão não parece fazer qualquer sentido, ou seja, parece meramente gratuito. Há um Deus que nos criou à Sua imagem, que nos ama, que deseja que nós o conheçamos e amemos, então Ele pretende que sejamos capazes de estar cientes da Sua presunção? Somos ignorantes sobre as razões totais de Deus?

 

“Há duas catástrofes na existência”, dizia George Bernard Shaw: “a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.” Frustração ou decepção. Sofrimento ou tédio. É o mundo do Eclesiastes: tudo é vaidade e correr atrás do vento.

Quando se deseja o que não se tem, é a falta, a frustração, o que o filósofo Schopenhauer chamou de sofrimento. E quando o desejo é satisfeito? Já não é sofrimento, uma vez que já não há falta. Não é felicidade, uma vez que já não há desejo. Quando nasce, o homem como indivíduo, é tirado de uma situação que até então era definida e jogado numa situação indefinida, incerta e aberta. Só há certeza com relação ao passado; com relação ao futuro, a única certeza que existe é a da morte. Schopenhauer acreditava que o homem está em um mundo real onde existem seres humanos vivos, e esses organismos são finitos, apesar de a vontade de viver ser eterna. Então, tudo que nasce, morre, e deve-se encontrar no querer viver o consolo real para a morte. Schopenhauer examina o mundo e o vê cheio de sofrimento, frustração, tédio e dor. O pessimismo schopenhaueriano tem duas teses: primeiro, para cada indivíduo teria sido melhor não existir; segundo, o mundo como um todo é o pior dos mundos possíveis – “toda vida é sofrimento” (alles leben leiden ist), dizia ele.

No capítulo dos Parerga e Paralipomena, do seu Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo, Schopenhauer revela: “Se o sentido mais próximo e imediato de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é o maior contrassenso do mundo. Pois constitui um absurdo supor que a dor infinita, originária da necessidade essencial da vida, de que o mundo é pleno, é sem sentido e puramente acidental.” Nossa receptividade para a dor é quase infinita, aquela para o prazer possui limites estreitos. Embora toda infelicidade individual apareça como exceção, a infelicidade em geral constitui a regra.

O homem é dotado de razão, é vida consciente de si; ele tem consciência de si mesmo, de seus semelhantes, do seu passado e das possibilidades do seu futuro. Essa consciência de si mesmo, a consciência de seu breve lapso de vida, do fato de que, independentemente da sua vontade, ele nasceu e de que contra a sua vontade vai morrer, de que vai morrer antes dos que ele ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e de seu estado de separação, de seu desamparo diante das forças da natureza e da sociedade, tudo isso torna a sua existência isolada e desunida.

Nas culturas ocidentais e nas sociedades em desenvolvimento que aspiram aos estilos de vida ocidentais, um mito se tornou uma crença central: mais bugigangas, além das coisas que são suficientes para satisfazer as necessidades levam a um maior contentamento. Mas, em vez disso, os níveis de doença mental e de depressão, e os sentimentos de descontentamento somente aumentam. Obter mais coisas materiais não leva à felicidade. Mais, maior, mais novo não significa necessariamente melhor. Se riqueza exterior mascara pobreza interior, nenhuma quantidade de bugigangas compensará o vazio resultante. A busca por viver de maneira mais simples não se baseia no medo nem em uma percepção de escassez, mas em uma redefinição de abundância. Viver uma existência com escassez de tempo, riqueza de estresse e falta de segurança interior impele a se tentar preencher o vazio resultante cercando-se de coisas externas que não sustentam ao homem nem ao restante do mundo. Realizar criativamente e em termos de experiência lhe reserva uma possibilidade de configurar o sentido da existência, que consiste precisamente na atitude como a pessoa se coloca face à restrição forçada de fora sobre o seu ser. Faz muito que o recluso está privado de realizar valores criativos.

Mas não se encontra sentido apenas na realização de valores de criação e de experiência. Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma e do mesmo modo que o destino e a morte. Sidarta Gautama, o Buda, disse: “a origem do sofrimento é o apego às coisas transitórias e à consequente ignorância.” As coisas transitórias incluem não somente os objetos físicos, mas também as ideias e, em sentido mais amplo, todos os objetos que podem ser percebidos. A ignorância é a falta de entendimento da maneira como a mente está apegada às coisas mutáveis. As razões do sofrimento são o desejo, a paixão, o fervor, a busca da riqueza e do prestígio, a luta pela fama e pela popularidade ou, para resumir: o desejo e o apego. A raiz do sofrimento é essa incessante e inútil busca de sensações efêmeras que leva a se viver em um constante estado de tensão, inquietude e insatisfação. Quanto mais importância se dá às sensações, mais se anseia por elas, e mais se sofre.

          Por que tantos seres nascem com deformidades terríveis ou por que tantos fetos são abortados por causas naturais ou nascem mortos? Também parece um tanto injusto que alguém esteja destinado ao sofrimento eterno no inferno, ou à felicidade eterna no paraíso. Há muita fome no mundo. Segundo relatórios das Nações Unidas, aproximadamente uma em cada sete pessoas (970 milhões de pessoas) não tem comida suficiente. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 2022,  mais de 970 mil morreram de fome e de doenças relacionadas à pobreza. Ainda segundo a FAO, 2,3 bilhões de pessoas (29,3% da população global) estavam em insegurança alimentar. A Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN) informou que o gasto com armas nucleares em 2023 foi de US$ 91 bilhões.

Os problemas são muito complexos. Segundo a ONU, em 2023, havia no mundo mais de 2 bilhões de pessoas (algo como 2 em cada 7 seres humanos) que não tinham água potável para beber. Dados de 2017 da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), mostram que, em todo o mundo, cerca de 3 em cada 10 pessoas — em um total de 2,1 bilhões — não têm acesso à água potável em casa, e 4 em cada 10 — ou 2 bilhões — carecem de saneamento seguro. A Global Water diz que 80% das doenças infantis fatais em todo o mundo são causadas não por falta de alimentos e remédios, mas pelo consumo de água contaminada. A diarreia mata mais de 3 mil crianças por dia segundo a UNICEF. Em torno de 2 milhões de pessoas morreram, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), devido a doenças diretamente relacionadas à falta de água potável em 2022. O recém construído Museu de Arte Islâmica no Qatar é ladeado por magníficos gramados (são mais de 100 mil metros de grama, no meio do deserto da Arábia) que exigem uma quantidade de água considerável todos os dias para continuarem verdes. Um contrassenso?

Desde a Primeira Guerra Mundial as guerras causaram a morte de mais de 164 milhões de indivíduos. Cada uma das vítimas foi um mundo destruído, uma família arruinada, amigos e parentes com cicatrizes para a vida toda. Em 2023 mais de 54 milhões de pessoas morreram no mundo. A Global Status Report on Road Safety aponta que mais de 1,35 milhão de pessoas morrem todos os anos vítimas de acidentes envolvendo veículos, sendo a oitava causa de mortes, e 815 mil pessoas cometem suicídio por ano (a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo).  A guerra no Iraque, em quase nove anos, causou a morte de mais de 4 mil soldados americanos, segundo o Departamento de Defesa Americano. Não se sabe quantos iraquianos morreram. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, com base em Londres, o conflito na Síria deixou mais de 384 mil mortos desde 2011. No conflito no Sudão, desde abril de 2023 morreram 20 mil e mais de 2,1 milhões estão refugiados.

A peste bubônica, que teve início na década de 1330, matou entre 75 e 200 milhões de pessoas. Em 1520 o México abrigava 22 milhões de pessoas, e em 1580, sessenta anos depois, sua população foi reduzida a menos de 2 milhões devido a doenças trazidas pelos espanhóis. Em poucos meses, cerca de 1,5 bilhão de pessoas, um terço da população global, foi infectado com o vírus da gripe espanhola. Na Índia ele dizimou 5% da população (15 milhões de pessoas). A pandemia matou entre 50 e 100 milhões em um ano. A Primeira Guerra Mundial matou 40 milhões de 1914 a 1918. Em 2014, o Ebola infectou 30 mil pessoas (e matou 11 mil) na África Ocidental.

A maioria das pessoas não tinha pensado muito em malária até outubro de 2005, quando a Fundação Bill e Melinda Gates anunciou que estava concedendo três bolsas, com valor superior a 250 milhões de dólares, para ajudar a descobrir e desenvolver uma vacina eficaz e para conceber formas de controlar a disseminação da doença, transmitida quase que exclusivamente por picadas de mosquitos. O Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos estima que cerca de 400 e 900 milhões de crianças, quase todas elas na África subsaariana, contraem um caso agudo de malária todos os anos. Cerca de 2,7 milhões de pessoas morrem de malária todos os anos.

Se realmente o mundo está determinado a fazer de tudo para impedir o extermínio em massa de pessoas inocentes, como explicar a reação aos acontecimentos na Ruanda (em cem dias, em 1994, 800 mil membros da comunidade minoritária tutsi foram mortos pelos extremistas étnicos hutus, segundo relatos) e na Bósnia (a guerra ocorreu entre 1992 e 1995, e envolveu os três principais grupos étnicos que existiam na região: croatas, sérvios e bósnios). Fala-se em cerca de 200 mil mortes. O conflito ficou marcado pelo processo de limpeza étnica contra a população muçulmana)? A Darfur (conflito que teve início em fevereiro de 2003), uma ofensiva rebelde separatista, contra o governo, deixou mais de 30 mil mortos, milhões de desabrigados e refugiados. De acordo com o Instituto de Investigação da Paz de Oslo (PRIO) o ano de 2023 registrou 59 conflitos registrados no mundo. Realmente se quer dizer nunca mais? O homem domina o meio à sua volta, aumenta a produção de alimentos, constrói cidades, funda impérios e cria grandes redes de comércio. Mas foi diminuída a quantidade de sofrimento no mundo? Repetidas vezes, os aumentos gigantescos na capacidade humana não necessariamente melhoraram o bem-estar dos indivíduos.

Os crimes e as contravenções ainda constituem a experiência diária de muitos membros da família humana. À medida que se continua a lutar pela evolução do nível coletivo de percepção, também é necessário reconhecer que tais direitos têm de ser equilibrados por responsabilidades equivalentes com relação às outras pessoas. Quando se ignora as situações em que os outros se encontram, tal ignorância afetará a todos, em todos os níveis, sejam eles grandes ou pequenos. Muitos pensadores e profetas concluíram que a fome, a peste e a guerra deviam fazer parte do plano cósmico de Deus ou da natureza humana imperfeita. As pessoas são adeptas a manter à distância o sofrimento do mundo, especialmente o sofrimento que não chega às manchetes. Mas em algumas regiões do mundo ele está lá, todos os dias. A agenda dos que vivem em palácios é diferente da dos que vivem em barracos, e não é provável que isso vá mudar no século XXI, como não mudou nos séculos passados.