O sofrimento de Isaque
O contexto da história é o pai dos judeus, Abraão, havia muito recebera de Deus a promessa de um filho, que depois se tornaria o ancestral de um povo. Quando ele e sua esposa estavam em idade muito avançada, a promessa foi cumprida. Isaque nasceu (Gênesis 21, 1-7). Mas quando era jovem, Deus dá uma ordem a Abraão: ele deve levar o seu filho e oferecê-lo em holocausto a Deus. Abraão pega o filho Isaque e parte para o deserto com dois servos e um jumento carregado de lenha para o holocausto. Pega o filho, amarra-o, coloca-o sobre a madeira e se prepara para matá-lo com uma faca. No último instante Deus intervém mandando um anjo deter a faca antes do golpe. O anjo diz a Abraão: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não recusaste teu filho, teu único filho” (Gênesis 22, 12). Abraão ergue os olhos e vê um cordeiro preso em um arbusto; ele captura o cordeiro e o oferece em holocausto no lugar de Isaque (Gênesis 22, 13-14).
Na Torah, Deus determina aos israelitas que façam sacrifícios de um ou mais tipos de comida (sacrifícios pelo pecado, sacrifícios pela reparação, sacrifícios em holocausto, sacrifícios de ablação). A noção de que um ser (um animal) podia ser sacrificado no lugar do outro (um ser humano) ganhou proporções simbólicas: a ideia de que o sofrimento de um poderia levar ao perdão de outro. Segundo estudiosos, a cultura judaica sofreu forte influência persa, que tinha como tradição oferecer a Deus o filho primogênito, que era considerado como pertencente a Deus (Deuteronômio 21, 17), o que, eles entendiam, ampliava as possibilidades de ter uma prole maior. O primogênito também recebia uma porção dupla na partilha das posses de seu pai.
Abraão (aproximadamente 1600 a.C.) rompeu essa tradição. O simbolismo da passagem bíblica foi o de que Abraão substituiu o sacrifício do filho pelo sacrifício de um cordeiro. O oferecimento de um outro, como sacrifício, servia para que, aquele que ofertasse, se redimisse dos seus pecados. Esse simbolismo contado sobre Abraão, reforça que o clã por ele comandado era politicamente o mais importante. Jacó, pai de doze filhos, dez deles formaram dez das doze tribos judaicas, juntamente com dois filhos de José. Jacó é filho de Isaque e neto de Abraão.
As considerações que faço sobre o episódio: Deus manda Abraão oferecer seu filho, Isaque, em holocausto (para testar Abraão?); após a intervenção de Deus, Abraão enxerga, no deserto, um cordeiro para a substituição do seu filho (de onde apareceu o cordeiro em pleno deserto?); o aspecto moral e ético, de matar outro ser para substituir os pecados do homem (somente acontece nas religiões judaico-cristãs).
Gênesis 22
“Depois dessas cousas pôs Deus Abraão à prova e lhe disse: Abraão. Este lhe respondeu: Eis-me aqui. Acrescentou Deus: Toma teu filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá: oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei. Levantou-se, pois, Abraão de madrugada e, tendo preparado o seu jumento, tomou consigo dois dos seus servos, e a Isaque, seu filho: rachou lenha para o holocausto, e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado. Ao terceiro dia, erguendo Abraão os olhos, viu o lugar de longe. Então disse a seus servos: Esperai aqui com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós. Tomou Abraão a lenha do holocausto e a colocou sobre Isaque, seu filho; ele, porém, levava nas mãos o fogo e o cutelo. Assim caminhavam ambos juntos. Quando Isaque disse a Abraão, seu pai: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho. Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o seu holocausto; e seguiam ambos juntos. Chegaram ao lugar que Deus lhe havia designado; ali edificou Abraão um altar, sobre ele dispôs a lenha, amarrou Isaque seu filho, e o deitou no altar, em cima da lenha; e estendo a mão, tomou o cutelo para imolar o filho. Mas do céu lhe bradou o Anjo do senhor: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui. Então lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz, e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho. Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho. E pôs Abraão por nome àquele lugar – o Senhor proverá. Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá. Então do céu bradou pela segunda vez o Anjo do Senhor a Abraão, e disse: Jurei, por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isso, e não me negaste o teu único filho, que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia do mar; a tua descendência possuirá a cidade dos seus inimigos, nela serão benditas todas as nações da terra: porquanto obedecestes à minha voz. Então voltou Abraão aos seus servos e, juntos, foram para Berseba, onde fixou residência.”