O Épico de Antrahasis e o dilúvio bíblico de Noé

Tábua em escrita acadiana, Epopeia de Antrahasis, 1646-1626 a.C.
O Épico de Antrahasis e o dilúvio bíblico de Noé
O Épico de Antrahasis
No princípio, apenas os deuses habitavam o mundo. Eram muitos, e entre eles havia uma divisão: os grandes deuses, chamados Anunnaki, viviam em repouso e governavam, enquanto os deuses menores, os Igigi, realizavam o trabalho pesado, cavando canais, erguendo diques e sustentando a ordem da Terra. Por longos anos eles suportaram o fardo, até que, exaustos, se rebelaram contra Enlil, o senhor do ar e da autoridade, cercando sua morada em meio à noite. A revolta dos deuses trabalhadores fez com que Enlil convocasse uma assembleia celeste para decidir o que seria feito. Então, Enki, deus da sabedoria e das águas profundas, sugeriu uma nova criação que libertaria os deuses do labor: o homem seria moldado para assumir as tarefas do mundo.
Reunidos, os deuses sacrificaram um de seus próprios – Geshtu-e, “aquele que tem inteligência” – e misturaram seu sangue ao barro da Terra. Dessa mistura de matéria e espírito nasceu a humanidade, feita da argila do solo e da essência divina, capaz de pensar, falar e trabalhar. O homem tornou-se o servo dos deuses, cultivando os campos, irrigando a terra e oferecendo alimento e bebida aos seus criadores. Assim, os deuses puderam descansar e o equilíbrio foi restaurado.
Mas com o passar do tempo, a humanidade se multiplicou em excesso. Suas vozes e atividades se tornaram tão numerosas que o barulho subiu aos céus e perturbou o sono de Enlil. Irritado, ele decidiu reduzir o número de homens. Primeiro enviou a seca e a fome; os campos deixaram de produzir, os poços secaram e os ventres das mulheres se fecharam. Porém, Enki, que amava os homens, advertiu secretamente Atrahasis, o mais sábio entre eles, e lhe ensinou ritos e oferendas para apaziguar os deuses. A humanidade foi poupada, mas logo voltou a crescer, e o ruído novamente alcançou o céu.
Enlil, cada vez mais furioso, enviou novas calamidades: pestes e desastres. Mais uma vez, Enki instruiu Atrahasis – o homem mais sábio – a oferecer sacrifícios e orações, e o povo foi salvo. Contudo, quando os homens voltaram a encher a Terra, Enlil tomou uma decisão final: destruir toda a humanidade com um grande dilúvio que apagaria o ruído da criação.
Enki, preso ao juramento de não revelar o plano divino, encontrou uma forma indireta de salvar o justo. Falando a uma parede de junco, advertiu Atrahasis sobre o que estava para vir: “Homem de Shuruppak, desfaz tua casa e constrói um barco. Abandona teus bens e salva tua vida. Leva consigo os seres vivos de todas as espécies, para que a semente da Terra não pereça.” Atrahasis obedeceu e construiu o barco conforme as instruções do deus.
Quando as comportas do céu se abriram e as fontes do abismo romperam, ventos e águas cobriram a Terra. O dilúvio rugiu por sete dias e sete noites, arrastando cidades, montanhas e florestas. Até os deuses se assustaram com a violência das águas; reunidos nas alturas do céu, lamentavam a destruição e choravam como mulheres em trabalho de parto. Quando enfim as águas cessaram, Atrahasis abriu a janela do barco e viu o mundo coberto de silêncio. Então ofereceu um sacrifício aos deuses, queimando incenso e carne sobre o altar improvisado.
O perfume do sacrifício subiu até o céu, e os deuses, famintos e arrependidos, se reuniram em torno do altar como moscas em busca de alimento. Enlil, ao perceber que Enki havia salvado o homem, enfureceu-se, mas Enki argumentou que destruir toda a vida fora um erro. Aplacado, Enlil aceitou uma nova ordem: a humanidade não seria mais exterminada, mas sua fertilidade seria limitada. Algumas mulheres seriam estéreis, demônios tomariam os recém-nascidos e a morte seria parte do destino humano.
Assim, o homem permaneceu na Terra, mortal e limitado, mas preservado. Os deuses voltaram ao repouso, e o mundo seguiu seu curso, sustentado pelo trabalho humano e pelo equilíbrio entre vida e morte. Atrahasis, o sábio, tornou-se símbolo de prudência e devoção, e sua história sobreviveu como memória de uma era em que os deuses e os homens ainda falavam entre si e o som da humanidade era forte o bastante para alcançar o céu.
O dilúvio bíblico de Noé
A narrativa do dilúvio bíblico conta que, com o passar do tempo, a humanidade se corrompeu profundamente. A violência e a maldade se espalharam por toda a Terra, e Deus, vendo que o coração dos homens era continuamente mau, arrependeu-se de tê-los criado. No meio de uma geração perversa, apenas Noé se mostrou justo e íntegro, um homem que andava com Deus. Então o Senhor decidiu destruir toda a carne, mas revelou seu propósito a Noé e lhe ordenou que construísse uma grande arca de madeira de gofer (a palavra hebraica gopher é usada apenas uma vez na Bíblia, quando Deus ordenou a Noé: "Faze para ti uma arca da madeira de gofer" – Gênesis 6, 14. Ninguém hoje sabe o que é "madeira de gofer", mas Noé certamente sabia. A Nova Almeida Atualizada translitera o hebraico e o deixa como "tábuas de cipreste". A Septuaginta (o Antigo Testamento grego) traduz a frase como "vigas quadradas", e a Vulgata Latina diz "madeira aplainada"), revestida de betume por dentro e por fora, com compartimentos e três andares, para abrigar sua família e um par de cada espécie de ser vivo, macho e fêmea, além de sete pares dos animais considerados puros. Noé obedeceu a todas as instruções divinas e preparou a arca conforme lhe fora ordenado.
Quando chegou o tempo determinado, as comportas do céu se abriram e as fontes do grande abismo irromperam das profundezas. Choveu durante quarenta dias e quarenta noites sem cessar, e as águas cobriram toda a superfície da Terra, subindo acima das montanhas mais altas. Toda vida que respirava nas narinas morreu: homens, animais e aves desapareceram sob as águas. Somente Noé, sua família e os seres que estavam na arca permaneceram vivos. As águas prevaleceram sobre a Terra por cento e cinquenta dias, até que Deus soprou um vento que fez as águas começarem a baixar. As fontes do abismo e as janelas do céu se fecharam, e a chuva cessou.
A arca repousou sobre os montes de Ararate, e pouco a pouco as águas foram diminuindo. Noé abriu a janela da arca e soltou um corvo, que voava de um lado para o outro até que a terra secasse. Depois soltou uma pomba, mas ela voltou sem encontrar lugar para pousar. Sete dias depois, Noé soltou novamente a pomba, e ela voltou trazendo no bico uma folha de oliveira nova, sinal de que as águas haviam recuado. Esperou mais sete dias e soltou-a outra vez, e ela não retornou mais. Então Noé retirou a cobertura da arca e viu que a superfície da terra estava seca. Deus o ordenou que saísse, levando consigo sua esposa, seus filhos, as esposas de seus filhos e todos os animais que estavam na arca.
Ao sair, Noé construiu um altar e ofereceu sacrifícios de animais puros e aves puras. O aroma agradável subiu até o Senhor, que disse em seu coração que nunca mais amaldiçoaria a Terra por causa do homem, ainda que o coração humano se inclinasse ao mal. Então Deus abençoou Noé e seus filhos, dizendo-lhes que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a Terra. Deu-lhes autoridade sobre os animais e permitiu que comessem carne, mas ordenou que não comessem o sangue, porque nele está a vida. Também estabeleceu uma lei contra o derramamento de sangue humano, pois o homem fora criado à imagem de Deus.
Em seguida, o Senhor estabeleceu sua aliança com Noé e com toda a criação, prometendo que nunca mais as águas se transformariam em dilúvio para destruir toda a vida. Como sinal eterno dessa aliança, colocou o arco-íris nas nuvens, para que, ao aparecer no céu, fosse lembrança do pacto entre Deus e a Terra. Assim, depois da destruição e do caos, iniciou-se um novo começo para a humanidade, selado por uma promessa de misericórdia e renovação.
A correlação entre o Épico e o dilúvio bíblico
O Épico de Atrahasis e a narrativa bíblica do dilúvio em Gênesis 6 a 9 apresentam fortes paralelos, revelando uma herança comum de mitos do antigo Oriente Próximo que tratam da destruição e renovação da humanidade. O Épico de Atrahasis é uma obra mesopotâmica escrita em acadiano por volta de 1700 a.C., durante o período babilônico antigo, embora suas raízes remontem a mitos sumérios ainda mais antigos, como o de Ziusudra. Já o relato hebraico do dilúvio foi redigido muitos séculos depois, entre os séculos X e VI a.C., em língua hebraica, dentro do contexto religioso de Israel. É provável que tenha assumido sua forma definitiva durante ou após o exílio babilônico, quando os judeus tiveram contato direto com a cultura e a literatura da Mesopotâmia.
Embora o enredo e muitos detalhes coincidam, o sentido teológico das duas narrativas é distinto. Na tradição mesopotâmica, o dilúvio é resultado do capricho e da irritação dos deuses, seres limitados e sujeitos a impulsos humanos. Já na tradição hebraica, o dilúvio é interpretado como um ato de justiça moral, fruto da corrupção humana e seguido de uma promessa de renovação. Em Atrahasis, os deuses são movidos pelo incômodo e pelo arrependimento; em Gênesis, Deus age por um princípio ético e oferece à humanidade uma nova chance sob o sinal da aliança.
Assim, o Épico de Atrahasis, datado de cerca de 1700 a.C., representa a forma mais antiga conhecida do mito do dilúvio, e serviu de matriz para versões posteriores, como a tábua XI do Épico de Gilgamesh e, em última instância, o relato hebraico de Noé. O texto bíblico, escrito entre os séculos X e VI a.C., transforma o antigo mito oriental em uma reflexão sobre a justiça, a fidelidade e a misericórdia divinas, convertendo uma antiga história de destruição em uma narrativa de esperança e renovação moral da humanidade.