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REReflexões
e Espiritualidade
Reflexões·4 min de leitura

O bem e o mal

Na infância me ensinaram a fazer o bem por interesse e não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava. Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. Talvez eu seja condenado ao fogo lento e eterno, assim me salvarei do purgatório, que anda cheio de hipócritas.

 

O problema do mal sempre preocupou a humanidade. Ele absorve vários autores bíblicos, como Jó e o Eclesiastes. Teólogos e pensadores já o debateram através de toda a história da Igreja. Para muitas pessoas, esse problema é tão forte que se transforma na própria questão de saber se é possível acreditar em Deus ou não. O dilema pode ser resumido deste modo: se Deus é todo-poderoso, ele não pode ser bom, e se ele é bom, então não pode ser todo-poderoso. Tal problema pode parecer insolúvel. Mas o que queremos dizer com todo-poderoso? Se todo-poderoso significa que Deus é a causa de tudo, tanto a queda do homem do estado de graça como a doutrina cristã da expiação perdem o sentido. Contudo, a Bíblia não proclama nenhuma doutrina desse tipo. Do início ao fim, ela fala de uma força universal que se opõe a Deus.

A Bíblia afirma que o mal existe de fato no mundo e que a humanidade tem o mal dentro de si. Se o mundo é criado por um Deus ao mesmo tempo onisciente e infinitamente bom, como é que existe mal no mundo? Simone Weil explica que se não houvesse o mal no mundo, este seria perfeito. Mas, se o mundo fosse perfeito, ele seria Deus; e se o mundo fosse Deus, não haveria mais que Deus, e não haveria mundo. Deus somente pode criar outra coisa que não seja ele, desde que aceite não ser tudo; e como Deus é todo o Bem, aceitou essa diminuição. É a perfeição infinita. Deus só pode criar o menos bem que o Bem. “A criação é da parte de Deus não um ato de expansão em si, mas de retirada, de renúncia”. Continua, “Deus, aceitou essa diminuição. Ele esvaziou de si uma parte do ser”, afirma Simone.

O homem já causou guerras, inimizades e sofrimentos na Terra. A Bíblia fala de uma força que se opõe a Deus. Foi o homem que construiu os campos de concentração, foi o homem que usou bombas de napalm e bombas de gás em várias guerras. A história da criação fala metaforicamente da serpente. Fala das “forças sobre-humanas do mal”, de Satã que, segundo a lenda, tinha sido o mais belo de todos os anjos – Lúcifer (portador da Luz) – mas foi expulso para as regiões infernais por se opor à vontade de Deus. Fala também de um poder pessoal de oposição a Deus: o diabo. Então será que Deus não é todo-poderoso, afinal?

Embora todos experimentem o mal como parte da existência humana, o cristianismo sustenta que o mal um dia será vencido. Tampouco é verdade, como muitos acreditam, que Deus se mostra “mais todo-poderoso” no Antigo Testamento do que no Novo, e depois. Bem ao contrário: o mal, seja considerado uma força pessoal ou impessoal, está presente desde o início. Até mesmo a serpente existia antes da queda. O homem foi a última criação segundo Gênesis. O cristianismo, porém, prega a esperança de “novos céus e uma nova Terra” quando “Deus será tudo em tudo”.

Em certo sentido, pode-se dizer que o aspecto todo-poderoso de Deus – com referência a seu “poder sem igual” – é algo que será revelado no futuro. Mesmo assim, para muitas pessoas o problema do mal é o motivo principal para negar o cristianismo. É bem fácil dizer que algum dia o mal será derrotado. Mas onde estava Deus em Auschwitz? Onde estava Ele em Hiroshima? Jesus fez a mesma pergunta quando estava na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.  Os males e os bens não estão onde o homem, tomado pelas paixões, vulgarmente os coloca. O mundo tem vários estados de coisas indesejáveis, dos quais os humanos conhecem a existência e que poderiam ser evitados, ou, pelo menos, muito rapidamente eliminados por um ser que fosse apenas moderadamente poderoso.

O verdadeiro mal seria a desrazão, a recusa em aceitar a ordem do mundo e o apego excessivo a bens indiferentes? O verdadeiro bem é a ação racional e virtuosa? Por que existem esses estados de coisas indesejáveis, se existe um ser onipotente, onisciente e moralmente perfeito, ou mesmo um ser muito poderoso, muito conhecedor e muito bom? Há interpretações de Deus ligadas, de maneira direta, a atitudes religiosas, como a adoração, e a desejos e preocupações muito importantes dos seres humanos, como o desejo de que o bem acabe por triunfar sobre o mal e de que a justiça seja feita, ou o desejo de que o mundo não seja de tal modo que a morte marque o fim da existência de um indivíduo, ou que toda a existência consciente acabe por cessar, restando apenas um universo puramente material, sem qualquer consciência, pensamento ou propósito.