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e Espiritualidade
Reflexões·15 min de leitura

Do kur ao inferno: a transformação das concepções sobre o mundo dos mortos

Capa do texto “Do kur ao inferno: a transformação das concepções sobre o mundo dos mortos”

Do kur ao inferno: a transformação das concepções sobre o mundo dos mortos

A concepção do mundo dos mortos na antiga Mesopotâmia constitui um dos testemunhos mais antigos da tentativa humana de representar aquilo que se encontra além da morte. Entre os sumérios, esse domínio era designado pelo termo kur, palavra que possuía diversos sentidos e que não significava exclusivamente “mundo dos mortos”. Em determinados contextos, kur podia designar uma montanha, uma terra estrangeira ou uma região situada além do espaço conhecido. No contexto cosmológico e mitológico, entretanto, passou a ser associado às regiões subterrâneas e ao domínio dos mortos. É importante, portanto, evitar uma equivalência rígida entre kur e conceitos posteriores, como “Inferno”. O kur pertence a uma estrutura religiosa e cosmológica própria, na qual a morte não era entendida como consequência de uma avaliação moral individual.

Nas tradições mesopotâmicas posteriores, especialmente nas de língua acádia, aparecem outras designações para o mundo subterrâneo. Entre elas encontra-se irkalla, que podia designar o próprio mundo inferior e, em determinados textos, também estar relacionado ao domínio governado pela deusa Ereshkigal. A expressão “Terra do não retorno” (KUR-nu-gi-a) tornou-se igualmente uma maneira característica de representar o mundo dos mortos. A ideia contida nessa expressão é significativa: aquele que atravessava a fronteira entre os vivos e os mortos não retornava ao mundo terrestre. A morte era, portanto, concebida como uma passagem de mão única.

Essa terminologia demonstra que não existia uma única palavra utilizada de maneira uniforme para definir o além mesopotâmico. Kur, irkalla e “Terra do não retorno” pertencem a tradições linguísticas e literárias diferentes e assumiram sentidos que podiam variar conforme o período e o gênero do texto. Por isso, é mais adequado falar em um conjunto de concepções mesopotâmicas sobre o mundo subterrâneo do que imaginar uma doutrina única e sistematizada sobre a vida após a morte. As imagens do além foram sendo modificadas ao longo de séculos de tradição suméria, acádia, babilônica e assíria.

No centro dessa realidade subterrânea encontrava-se Ereshkigal, a soberana do mundo dos mortos. Seu próprio nome está associado à ideia de “Senhora da grande Terra”, e sua função evidencia que o submundo possuía uma autoridade própria. Ereshkigal não era apenas uma personificação abstrata da morte, mas uma divindade que governava uma região organizada, com suas próprias regras e hierarquias. Sua presença é importante no mito da descida de Inanna ao mundo inferior, no qual a deusa do amor, da fertilidade e do poder desce ao domínio de sua irmã Ereshkigal.

A narrativa da descida de Inanna é uma das mais importantes fontes para compreender a estrutura simbólica do mundo subterrâneo mesopotâmico. Ao tentar entrar no domínio de Ereshkigal, Inanna atravessa sete portas. Em cada uma delas, uma parte de seus adornos e símbolos de poder é retirada. Ao final da passagem, ela aparece despojada dos atributos que expressavam sua autoridade divina.

As sete portas representam, assim, fronteiras sucessivas entre dois mundos. A cada passagem, Inanna abandona uma parte de sua identidade. A narrativa não descreve uma viagem geográfica, mas uma transformação progressiva diante da morte. Aquele que entra no mundo subterrâneo precisa abandonar os sinais de poder, riqueza e posição que o definiam anteriormente. A morte possui, nesse sentido, a capacidade de despojar o indivíduo de suas distinções.

Essa imagem ajuda a compreender por que o mundo dos mortos mesopotâmico não deve ser confundido com o Inferno cristão. No Inferno, nas formulações desenvolvidas pela tradição cristã medieval, o destino dos indivíduos está associado à justiça divina, ao pecado e à punição. No kur, entretanto, o fato de estar morto já era suficiente para explicar a presença do indivíduo no mundo subterrâneo. Não se tratava de uma prisão destinada aos moralmente culpados. A morte alcançava a todos.

Nergal ocupa uma posição diferente e complementar. Divindade associada à guerra, à peste, à destruição e à morte, ele acabou sendo relacionado ao governo do mundo subterrâneo e, em tradições posteriores, apresentado como consorte de Ereshkigal. Essa associação mostra como diferentes divindades e tradições foram sendo integradas ao longo da história religiosa mesopotâmica. Ereshkigal representa a soberania do mundo dos mortos, enquanto Nergal está associado às forças destrutivas que levam os seres humanos à morte.

É importante observar, contudo, que a relação entre Ereshkigal e Nergal não deve ser projetada indistintamente sobre todos os períodos da religião mesopotâmica. As concepções sumérias mais antigas e as tradições acádias, babilônicas e assírias posteriores não constituem um sistema estático. Houve transformações, reorganizações e novas associações entre divindades, e o mundo dos mortos também acompanhou essas mudanças.

Textos mesopotâmicos mencionam divindades, reis mortos e autoridades relacionadas ao submundo, mas isso não significa que os mesopotâmios possuíssem, desde os períodos mais antigos, um sistema equivalente ao julgamento moral cristão. O morto podia estar submetido a uma ordem e a uma autoridade no mundo inferior, mas essa situação não corresponde à pergunta posterior sobre se o indivíduo foi bom ou mau e, portanto, mereceria salvação ou condenação.

Essa distinção é fundamental. No pensamento mesopotâmico, o além é uma ordem cosmológica dos mortos, e não um tribunal moral universal. O problema não é determinar se o morto merece entrar no mundo inferior – todos os seres humanos, inevitavelmente, acabam ali –, mas estabelecer sua condição dentro dessa realidade. A própria existência do morto dependia, em alguma medida, da manutenção dos vínculos entre os vivos e os mortos.

É nesse ponto que os ritos funerários adquirem importância. O morto dependia das ações dos vivos para receber água e alimentos por meio das oferendas funerárias. A memória dos mortos não era apenas uma questão afetiva; possuía uma dimensão religiosa e ritual. Os descendentes tinham obrigações para com seus antepassados, e o abandono dessas obrigações poderia contribuir para uma condição ainda mais miserável no mundo subterrâneo.

Essa relação entre memória e sobrevivência revela uma concepção de pós-morte muito diferente da ideia moderna de uma alma plenamente autônoma. O morto permanecia ligado à comunidade dos vivos. Sua existência subterrânea dependia, pelo menos em parte, da continuidade dos ritos realizados por seus descendentes. A morte não rompia completamente a relação social; ela a transformava.

A imagem do morto como uma sombra, um espectro ou uma existência desprovida da vitalidade terrestre também aparece em diferentes textos mesopotâmicos. O indivíduo morto continuava existindo, mas essa existência era empobrecida. A luz, a comida, a água e a atividade características da vida não estavam disponíveis da mesma maneira. O mundo subterrâneo era uma inversão do mundo terrestre: existia organização, mas faltava a plenitude da vida.

Essa concepção apresenta um contraste com a tradição egípcia. No Egito antigo, embora também existisse um mundo dos mortos e houvesse perigos no além, desenvolveu-se uma concepção na qual o destino do morto estava ligado ao julgamento de Osíris e à avaliação de sua conduta. A pesagem do coração contra a pena de Maat tornou-se uma das imagens mais conhecidas dessa tradição. O além egípcio podia, portanto, assumir uma dimensão moral mais pronunciada do que aquela encontrada nas representações mesopotâmicas mais antigas.

Essa diferença mostra que as antigas civilizações do Oriente Próximo não possuíam uma única concepção da morte. A ideia de que todos os povos antigos acreditavam em um “céu” ou “inferno” constitui uma simplificação retrospectiva. Cada tradição construiu suas próprias imagens do além, de acordo com suas concepções de cosmos, sociedade, divindade, justiça e natureza humana.

Do kur ao sheol

Quando se passa da Mesopotâmia para a Bíblia hebraica, encontra-se outro conceito: o sheol. O termo é traduzido como “sepultura”, “mundo dos mortos” ou “morada dos mortos”, mas nenhuma dessas traduções corresponde a todos os seus usos. Assim como ocorre com o kur, o conceito bíblico não deve ser interpretado a partir da concepção cristã posterior de Inferno.

Nos textos mais antigos da Bíblia hebraica, sheol aparece como o destino dos mortos. Justos e injustos podem descer ao sheol. Jacó, por exemplo, imagina que descerá ao sheol em luto por seu filho José. Jó também emprega o termo para expressar o desejo de repousar na morte. Os Salmos, por sua vez, apresentam o sheol como uma região associada ao silêncio, à ausência de louvor e à proximidade da morte.

Essa característica aproxima o sheol mais do kur do que do inferno cristão. Ambos funcionam como concepções de um domínio dos mortos. Não existe, nos textos bíblicos mais antigos, uma separação sistemática entre um lugar de recompensa destinado aos justos e outro de punição reservado aos ímpios.

Isso não significa, entretanto, que sheol e kur sejam o mesmo conceito. Cada um surgiu dentro de uma tradição religiosa específica e possui características próprias. O que existe é uma semelhança estrutural: ambos representam uma realidade subterrânea ou inferior associada aos mortos, marcada pela ausência ou diminuição das condições próprias da vida e que não corresponde, em sua forma original, ao conceito posterior de inferno.

A Bíblia hebraica, contudo, passou por um longo processo histórico. Suas concepções sobre morte, ressurreição, julgamento e destino foram se transformando. Durante o período do Segundo Templo, entre os séculos VI a.C. e I d.C., desenvolveram-se novas formas de pensar a relação entre morte, justiça divina e destino individual.

Essa transformação está relacionada, entre outros fatores, às experiências históricas de Israel e Judá, ao contato com diferentes culturas do antigo Oriente Próximo e ao desenvolvimento interno da própria tradição judaica. A questão da justiça tornou-se problemática: se justos e injustos morrem e descem ao mesmo domínio, como Deus estabelece uma justiça definitiva? Essa questão contribuiu para o desenvolvimento de concepções nas quais a morte deixa de representar o fim da história moral do indivíduo.

O surgimento de diferentes destinos após a morte

Durante o período do Segundo Templo, determinadas correntes do judaísmo passaram a enfatizar cada vez mais a ideia de ressurreição dos mortos, julgamento escatológico e recompensa ou punição futuras. Textos como Daniel 12 apresentam uma das formulações dessa transformação, ao falar daqueles que despertariam da morte para destinos distintos.

Nessa situação, o pensamento judaico começa a apresentar uma diferenciação entre os destinos dos seres humanos. A morte deixa de ser o único horizonte e passa a ser compreendida como uma etapa dentro de uma história maior, cujo desfecho envolve julgamento e restauração da justiça.

Essa transformação é decisiva para a história posterior do conceito de inferno.

Hades: o mundo dos mortos grego

No mundo grego, encontramos outro conceito importante: Hades. O termo podia designar tanto o deus associado ao mundo subterrâneo quanto o próprio domínio dos mortos. Em sua estrutura básica, Hades não corresponde ao inferno cristão. Assim como o kur e o sheol, era o domínio para o qual os mortos iam.

Hades, o deus do mundo subterrâneo, governava esse domínio juntamente com Perséfone. A tradição grega desenvolveu, entretanto, uma geografia mais complexa do além. Algumas regiões eram associadas aos mortos em geral, enquanto outras passaram a representar destinos especiais. Os Campos Elísios, por exemplo, estavam relacionados à ideia de uma existência privilegiada para determinados mortos, enquanto o Tártaro podia assumir a função de lugar de punição para personagens específicos.

Aqui começa a aparecer com maior clareza uma diferenciação entre diferentes destinos após a morte. Ainda assim, seria incorreto transformar o Tártaro em equivalente do inferno cristão. As tradições gregas possuíam histórias, funções e significados próprios.

O contato entre o pensamento judaico e o mundo helenístico tornou ainda mais complexa a história das concepções sobre a morte. Durante o período helenístico, comunidades judaicas passaram a viver em ambientes influenciados pela cultura grega. A tradução das Escrituras hebraicas para o grego, conhecida como Septuaginta, teve papel importante nesse processo. Termos hebraicos relacionados à morte e ao mundo subterrâneo passaram a ser traduzidos por vocábulos gregos, entre eles Hades.

Esse processo de tradução é importante porque palavras de tradições diferentes começaram a ser colocadas em correspondência. Entretanto, traduzir uma palavra não significa necessariamente transportar integralmente o seu significado cultural. O sheol não se tornou idêntico ao Hades grego; houve uma aproximação linguística que ajudou a construir novas possibilidades interpretativas.

Geena: de lugar histórico a imagem escatológica

Outro termo para compreender o desenvolvimento do conceito cristão de inferno é Geena. Sua origem está relacionada ao hebraico Gê-Hinnom, o “Vale de Hinom”, localizado nas proximidades de Jerusalém. Esse lugar adquiriu uma associação negativa na tradição bíblica por causa de práticas cultuais condenadas pelos autores bíblicos.

Com o passar do tempo, a referência geográfica transformou-se em uma imagem escatológica. O vale deixou de funcionar apenas como uma localização concreta e passou a simbolizar julgamento, destruição e punição divina. Essa transformação constitui um exemplo importante de como imagens religiosas podem mudar de significado ao longo da história.

Nos textos do Novo Testamento, Geena aparece em contextos associados ao julgamento e à punição. É nesse estágio que começa a adquirir uma relação mais próxima com aquilo que posteriormente seria denominado “inferno”. Mesmo assim, é necessário cuidado: o significado de Geena no judaísmo do período do Segundo Templo e no cristianismo primitivo não corresponde à imagem medieval de um lugar subterrâneo governado por demônios e cheio de almas queimando eternamente.

O desenvolvimento cristão do inferno

O cristianismo herdou, portanto, um conjunto bastante diversificado de conceitos: o sheol da tradição hebraica, o Hades do mundo grego, a Geena das tradições judaicas e diferentes concepções apocalípticas sobre ressurreição, julgamento e destino. A ideia cristã de inferno nasceu da combinação e transformação dessas tradições, e não da continuidade de um único conceito antigo.

O próprio Novo Testamento utiliza diferentes imagens para falar do destino dos mortos e do julgamento. Hades aparece como mundo dos mortos, enquanto Geena aparece em contextos de julgamento. Também encontramos imagens de fogo, trevas, destruição, exclusão e “lago de fogo” no Apocalipse. Essas imagens não constituem uma descrição geográfica uniforme do além. São linguagens simbólicas e escatológicas que foram posteriormente combinadas pela tradição cristã.

Nos primeiros séculos do cristianismo, diferentes pensadores desenvolveram interpretações distintas sobre a natureza da punição futura. Alguns enfatizaram sua eternidade; outros discutiram possibilidades diferentes, incluindo formas de restauração universal. Portanto, a concepção cristã do Inferno não foi uniforme desde o início.

Durante a Antiguidade tardia e a Idade Média, contudo, essas imagens foram progressivamente sistematizadas. A tradição teológica, a literatura, a arte e a pregação popular contribuíram para consolidar uma imagem muito mais concreta do inferno. A obra de Dante Alighieri, a Divina Comédia, desempenhou papel importante na formação do imaginário ocidental, embora a estrutura do inferno dantesco seja uma criação literária influenciada pela teologia medieval, pela filosofia clássica e pela tradição cristã.

O resultado foi uma transformação em relação ao antigo kur. O mundo dos mortos deixou de ser uma morada comum dos falecidos e passou a ser imaginado, no imaginário cristão ocidental, como parte de um sistema moral do universo. A vida terrestre adquiria consequências eternas. A morte já não era apenas uma passagem inevitável para o mundo subterrâneo; tornava-se uma etapa anterior ao julgamento definitivo.

Da morte inevitável à justiça eterna

Essa transformação revela uma mudança na função religiosa da vida após a morte. No kur, o problema era a condição do morto dentro do mundo subterrâneo e a continuidade dos vínculos entre mortos e vivos. No sheol, predominava uma concepção geral da morada dos mortos. No Hades, encontramos uma complexificação da geografia do além. Na Geena, uma antiga referência geográfica transformou-se em símbolo de julgamento. No cristianismo, finalmente, diferentes tradições foram reunidas em uma concepção na qual o destino pós-morte passou a estar associado à justiça divina, ao pecado, ao julgamento e à eternidade.

Não se trata, contudo, de uma evolução linear na qual uma religião “copiou” a anterior. As semelhanças entre essas concepções precisam ser avaliadas historicamente. O mundo mesopotâmico forneceu algumas das mais antigas representações literárias de uma realidade subterrânea dos mortos, mas isso não significa que o inferno cristão seja uma versão modificada do kur. Entre os dois existem dois milênios de desenvolvimento religioso, além das contribuições das tradições egípcia, israelita, persa, grega, helenística, judaica e cristã.

O que se pode perceber é que as sociedades humanas foram transformando a maneira de imaginar a morte conforme também transformavam suas concepções sobre justiça, moralidade, identidade individual e ordem cósmica. Quando a morte é entendida como destino comum, surge a imagem de um mundo geral dos mortos. Quando a justiça divina passa a exigir uma compensação além da existência terrestre, torna-se necessário imaginar diferentes destinos. Quando o julgamento moral se torna central, o além passa a ser organizado segundo categorias de recompensa e punição.

A história do kur, do sheol, do Hades, da Geena e do inferno revela, portanto, muito mais do que uma sucessão de nomes para o mesmo lugar. Ela representa a transformação de uma das ideias da experiência humana: o que acontece depois que morremos?

Assim, o caminho que conduz do kur ao inferno não deve ser entendido como uma linha de continuidade, mas como uma história de transformação das imagens do além.

A história dessas ideias demonstra que as imagens do além nunca foram apenas descrições de um mundo invisível. Elas também foram formas de pensar a própria existência humana. Cada sociedade projetou na morte suas perguntas sobre justiça, sofrimento, poder, culpa, memória e esperança. O kur expressava a inevitabilidade da morte e a dependência dos mortos em relação aos vivos. O sheol expressava a condição universal dos mortos diante de Deus. O Hades organizava o além segundo uma cosmologia própria. A Geena transformava a memória de um lugar condenado em símbolo de julgamento. O inferno cristão, por sua vez, tornou-se a expressão extrema da ideia de que as escolhas realizadas durante a vida poderiam possuir consequências que ultrapassariam a própria morte.

Semelhança, continuidade e influência

Ao comparar as concepções mesopotâmicas do kur com o sheol hebraico, o Hades grego, a Geena judaica e o inferno cristão, é necessário distinguir três fenômenos diferentes: semelhança, continuidade e influência. A existência de características semelhantes entre tradições religiosas não demonstra, por si só, que uma tenha sido originada pela outra. Povos diferentes podem desenvolver imagens parecidas para explicar experiências humanas universais, como a morte, o luto, o medo do desconhecido e a necessidade de imaginar o destino dos mortos. Por essa razão, a presença de um mundo subterrâneo dos mortos em diferentes culturas não constitui prova de transmissão cultural.

Essa distinção é importante no caso da Mesopotâmia e da Bíblia hebraica. Existem paralelos importantes entre determinados textos mesopotâmicos e narrativas bíblicas. Ela, porém, impede dois extremos igualmente problemáticos. O primeiro é afirmar que todas as religiões inventaram suas concepções de maneira isolada, ignorando os intensos contatos culturais que caracterizaram o antigo Oriente Próximo e o Mediterrâneo. O segundo é imaginar que toda semelhança constitui prova de empréstimo ou cópia. A história das religiões situa-se entre esses extremos: há tradições independentes, há desenvolvimentos internos e há processos efetivos de transmissão e influência.

No caso da história do inferno, não é necessário afirmar que o inferno cristão seja uma continuação direta do kur para reconhecer que as antigas concepções mesopotâmicas fazem parte de uma história da imaginação religiosa sobre a morte. O que pode ser acompanhado historicamente não é uma simples transmissão de uma ideia única, mas a transformação de diferentes concepções sobre o destino dos mortos, em contextos culturais que algumas vezes estiveram em contato e outras vezes desenvolveram suas próprias respostas.